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A vida entra nos eixos

Uma crônica de autoajuda

A vida entra nos eixos
Foto: Pixabay
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Dias desses andei triste. Não sei explicar bem, até suspeito os motivos, mas não tenho clareza a respeito, então não vou tentar comentar. Sei que tem dias que a vida fica complicada, não é verdade? Tem umas fases que parece que as coisas só dão errado. Aqui em casa, para completar, tivemos perda total na nossa máquina de lavar e secar. O apartamento é antigo, a parte elétrica não deu conta do recado, caiu o disjuntor e lá se foi a máquina, queimada para sempre.

Apesar desses malogros cotidianos, quero dizer a vocês a mesma coisa que tenho dito a mim mesmo. Por mais que alguém tenha magoado você, por mais que você tenha, não sei, quebrado o braço caindo do muro em que estava instalando uma cerca elétrica porque o seu bairro anda muito perigoso. Por mais que o seu nariz tenha sangrado por conta de tamanha pressão durante a tarde no trabalho. Por mais que você, que ainda é estudante, tenha tirado nota baixa na prova de química.

Ou você que levou uma chamada do seu chefe sem coração. Ou você que é chefe e tem coração demais e só se dá mal por conta disso. Ou você que diz namastê para tudo e todos enquanto só se ferra. Por mais que os seus amigos tenham feito pouco caso dos seus sonhos. Ou tenham traído os sonhos que você acreditava que vinham conquistando juntos. Por mais que a pessoa com quem você estava saindo tenha dado um fora daqueles de você sair catando cavaco na sarjeta.

Por mais que tenham roubado o seu celular na rua e, quase que simultaneamente, um carro tenha passado por uma poça espirrando lama na sua roupa que, afinal de contas, era nova e branca, e você tenha ficado tão atordoada que dois metros depois acabou pisando em cheio em um formigueiro com o pé direito (é isso que é entrar com o pé direito, meu Deus!?) e com o esquerdo no coco de um vira-lata e, desesperada com a situação, você tenha corrido sem rumo e torcido o pé (o pé do formigueiro, inferno!) e, então, ao chegar em casa tenha dado de cara com o elevador estragado, justamente quando você mora no décimo terceiro andar (também por que tinha logo que ter escolhido o décimo terceiro andar, o 13, o número do azar!?).

Por mais, enfim, que o mundo esteja sendo um sacana com você. E você tenha raspado o carro numa coluna na garagem. E você tenha ficado banguela. E você esteja acima do peso sem conseguir emagrecer de jeito nenhum. E você esteja insatisfeito, revoltado, ressentido, com a mente turbada incapaz de encontrar soluções. Por mais que sua conta no banco esteja no limite ou mesmo que você esteja devendo, com o nome sujo e os seus dias aparentemente estagnados, afundados em poça de água poluída. Por mais que alguém da sua família tenha sido internado às pressas. Por mais que você tenha caído da bicicleta e quebrado os dentes. Por mais que aquela pessoa que você ama prefira o seu pior inimigo a você. E você acredite que você não tem beleza, talento, perspectivas, nem a quem recorrer. Por mais que você preferisse já ter se encontrado a ainda ter que continuar procurando.

Ainda assim respire. Tente parar um segundo e respirar. Tente manter a calma, em algum momento a vida entra nos eixos. Não deixe de acreditar. Não deixe de solicitar ajuda. Você não precisa se manter agarrado a um orgulho limitante, nem precisa achar que está se humilhando. Você vai conseguir ajuda. As estações do ano mudam, hoje está chovendo, amanhã fará sol, a vida é cíclica. Não perca a esperança. Faça a sua parte, por pouco que pareça. A vida entra nos eixos. Um abraço.

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