Vindo por entre as árvores nuas, fantasma gélido, suspirado, o frio chegou. Ar transformado em cristal cortante que fere a pele, o frio chegou. Não o frio tímido dos meses anteriores. Mas o frio que transpassa a madrugada como sussurros inconvenientes, daqueles que, por terem estado muitas vezes nas casas, sabem exatamente onde encontrar as frestas.
Daí que foi providencial quando ela apareceu com esse presente inesperado. Fez meu dia feliz, embora naquele momento eu não pudesse sorrir sem rachar os lábios. “Vi e lembrei de você”, disse sem mais explicações. Desconfiado, pensei que, por trás do seu gesto generoso, houvesse o fato de ter me achado triste.
Pode também que desejasse me lembrar que sempre existe um jeito de acolher (coisa que eu, aliás, há muito não fazia por ela), nem que seja por meio de um presente simples, entregue por alguém que não pergunta, apenas oferece.
Foi isso, ganhei um cachecol de cashmere. Cachecol é peça de roupa que adoro. Não serve só para esquentar, mas para ajeitar no pescoço com charme e pose de ator. Há algo de quase literário num cachecol, ponto e vírgula da vestimenta pendurada no corpo. A lã, branda, tem uma forma discreta de cuidado.
Na manhã seguinte, lá vou eu rumo ao trabalho com o pescoço protegido. Desço a Comendador Araújo. O ar glacial faz as pessoas falarem menos, quase como se o silêncio fosse um cobertor invisível cobrindo as ruas. As calçadas endurecem passos movediços.
Vejo a coreografia gelada de corpos encolhidos em casacos, mãos afundadas nos bolsos, olhares que buscam refúgio em cafeterias com janelas embaçadas. Tentando fugir do frio, todos caminham num ritmo duro e apressado.
Também desejo um café longo e quente que, ao segurar a xícara entre as mãos, me faça pensar nela — não apenas por ter me dado o cachecol, mas por me fazer lembrar que, mesmo nos dias mais gelados, um pequeno gesto pode nos devolver um pouco de calor