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A Inteligência Artificial pode trazer benefícios para a escola. Mas, cuidado: também há riscos

Especialistas dizem que é importante evitar que crianças usem a tecnologia sem acompanhamento, e que uso na escola tem que ser feito com propósitos educacionais claros

A Inteligência Artificial pode trazer benefícios para a escola. Mas, cuidado: também há riscos
Ilustração: Benett
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De uma hora para outra, o mundo percebeu um crescimento rápido e aparentemente ilimitado de um novo tipo de tecnologia capaz de mudar a nossa sociedade. Desde o momento em que o ChatGPT foi revelado ao público, com funcionalidades até então inacessíveis para as pessoas comuns, muita coisa aconteceu: usos inusitados, novos concorrentes e um desenvolvimento veloz marcam a ainda breve história da inteligência artificial.

No campo da educação, assim como em tantos outros, tanto teóricos quando professores em sala de aula tentam descobrir quais são os benefícios que as ferramentas já disponíveis podem levar para a sala de aula - e também quais são os riscos envolvidos nessa nova fase da nossa vida tecnológica. Afinal, eles não parecem pequenos.

Por um lado, existe a consciência de que, embora seja muito cedo para se saber até onde a inteligência artificial pode chegar, ela já está causando transformações no modo como pensamos a educação. Para o orientador pedagógico do Colégio Medianeira Alexandre Ribeiro Martins a influência atual da IA nas escolas já pode ser percebida em processos como a personalização da aprendizagem, a automatização de tarefas administrativas e a ampliação do acesso a fontes de conhecimento. "No entanto, essas transformações ainda se dão de forma desigual, muitas vezes pautadas mais por modismos ou pressões de mercado do que por um projeto pedagógico consciente", afirma ele.

Para Alexandre, o importante é não medir o impacto da inteligência artificial por números ou em termos técnicos, mas sim em relação ao projeto de formação humana que é papel das escolas. "As escolas da Companhia de Jesus, por exemplo, não partem de um ponto neutro diante das tecnologias. Há uma missão educativa clara: formar sujeitos comprometidos com a justiça socioambiental, com a equidade e com a construção de um mundo mais inclusivo. A IA, nesse contexto, só tem sentido se for compreendida como meio, nunca como fim", diz ele.

Segundo ele, nos próximos 10 anos, é provável que a IA se torne ainda mais integrada às práticas escolares, com algoritmos mais refinados de apoio ao planejamento pedagógico, produção de conteúdo, avaliação e até mediação de conflitos. "No entanto, o futuro não está dado. A direção que essa integração tomará dependerá do modo como as escolas escolhem se posicionar diante dessas tecnologias: se como usuárias passivas, reféns de soluções prontas, ou como agentes críticos que orientam o uso da IA em favor de projetos formativos conscientes, éticos e transformadores."

Benefícios

Para o pesquisador da área de educação Sérgio Amadeu, docente da Universidade Federal do ABC, em São Paulo, as tecnologias de inteligência artificial hoje já estão sendo utilizadas na educação, e podem trazer benefícios. Ele dá quatro exemplos do que pode ser feito, com vantagens, a partir da nova tecnologia:

"O docente certamente tem como enriquecer suas aulas com esse uso", diz Amadeu, que tem se dedicado ao estudo dessa ferramenta.

Alexandre Ribeiro Martins, do Medianeira, concorda que, quando utilizada com intencionalidade pedagógica, a IA pode ampliar a atuação do professor e tornar a experiência do estudante mais dinâmica, investigativa e personalizada.

Um exemplo concreto dessa aplicação, segundo ele, é o uso da IA para enriquecer projetos interdisciplinares ou investigações conduzidas pelos próprios alunos. "Em uma das atividades desenvolvidas com estudantes do Ensino Médio em meu componente (Filosofia), por exemplo, utilizamos ferramentas de IA — como o ChatGPT — para investigar criticamente o funcionamento dos algoritmos de plataformas digitais como o TikTok. A proposta não era apenas compreender a lógica técnica dos sistemas de machine learning, mas refletir sobre seus impactos na vida cotidiana, na atenção, nos hábitos de consumo e na esfera pública", conta.

Outro exemplo: Alexandre lembra que os algoritmos criados pelas big techs hoje moldam o comportamento e o acesso à informação, contribuindo para a fragmentação dos debates e a polarização social.

"Pensadores contemporâneos como Byung-Chul Han, relacionam esta hiperécracia — um regime em que o controle social não se dá mais por repressão, mas pela saturação de informação e pela manipulação dos fluxos digitais que direcionam a atenção e formatam a opinião pública", diz.

No trabalho feito pelo professor, a partir de uma consciência sobre esse problema, os alunos puderam explorar como a IA personaliza conteúdos com base em dados de comportamento, como tempo de visualização, curtidas, interações e localização. "Essa análise levou a discussões profundas sobre o uso excessivo de telas, os mecanismos de retenção de atenção, o papel das plataformas na formação de bolhas informacionais e, principalmente, em seus desdobramentos políticos", diz.

Riscos

Sergio Amadeu, no entanto, lembra que o uso da IA acarreta riscos - principalmente quando se trata do uso direto pelos alunos, e não de uma utilização mediada pela escola. "Quando a gente fala do uso desses sistemas automatizados pelas crianças e pelos adolescentes, a questão fica mais complexa", afirma.

Segundo ele, esses sistemas podem trazer velocidade para os trabalhos dos alunos em um sentido ruim. "Esses grandes modelo de linguagem podem agilizar a resposta que um aluno teria que dar a um problema; podem fazer um resumo de um texto em segundos; podem dar maior velocidade na solução de trabalhos escolares. Mas isso obviamente não é bom, porque vai substituir o trabalho cognitivo do aluno", diz ele.

Em geral, de acordo com ele, esse uso direto pelos alunos te de a empobrecer o aprendizado, ao invés de ampliá-lo. "O aluno pode pedir os itens mais importantes de um texto para o ChatGPT e talvez nem venha a fazer o mais importante, que é exercitar sua capacidade interpretativa. Isso terceiriza a atividade cognitiva, o que não pode trazer nada de bom", opina.

Para o professor Alexandre Ribeiro Martins o uso da IA nas escolas, se feito sem intencionalidade pedagógica, pode reforçar dinâmicas problemáticas, como dependência tecnológica, redução da criatividade, estímulo à passividade intelectual e, como mencionado, o uso de respostas automáticas sem compreensão crítica.

"Mas talvez o ponto mais preocupante esteja na relação precoce e desregulada que crianças e adolescentes têm com sistemas que operam por algoritmos persuasivos — otimizados para manter o engajamento, não necessariamente o aprendizado", afirma.

"Por isso, mais do que temer a tecnologia, nosso foco precisa estar em educar para o uso responsável e consciente dela. O desafio, portanto, não é apenas proteger as crianças da IA, mas garantir que estejam suficientemente preparadas para dialogar com ela — com consciência, com espírito crítico e dentro de um projeto formativo maior, que as ajude a se tornarem sujeitos livres e éticos num mundo cada vez mais automatizado", diz o professor

Rogerio Galindo

Rogerio Galindo

Jornalista, um dos fundadores do Plural.

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