O caçador mira uma Asa Branca.
Eu sou uma onça.
Apareço na frente do caçador
e espanto a ave para longe.
UM SÓ CÍRCULO.
(… não raro, as pessoas de um mundo nômade devem ter vivido uma grande incerteza. À mercê das estações climáticas, não armazenavam grãos ou outros alimentos com os quais pudessem enfrentar fase inicial de um período de escassez. Na maioria, os abrigos eram frágeis. Em algumas regiões, viviam lado a lado com tigres, leões, ursos, panteras, elefantes e outros animais de grande força e ferocidade. Pode que ansiavam por segurança e consolação…)
O caçador atira em mim.
Olho para ele com meus olhos de onça.
Com o furo do projétil no peito,
olho para ele.
Como se isto me pudesse salvar,
encho com folhas o enorme buraco do tiro.
FEROZ É A MORTE ARBITRÁRIA.
(… começaram, então, a criar religiões e objetos de devoção e homenagem, e representações do mundo ao redor...)
Lágrimas nos meus olhos,
lágrimas nos olhos de onça.
Estou indo embora,
a onça indo embora.
(… técnicas de caça foram aos poucos se desenvolvendo. Lascas de pedra em forma de pontas de lança, lâminas e outros instrumentos de corte e perfuração, superiores a tudo o que já havia sido usado até então, eram agora produzidos às centenas de milhares. Em vez de ir ao encalço só de animais pequenos, os caçadores passaram a atacar animais de grande porte. Caçavam elefantes, leopardos, queriam sua pele e por sua carne, caçavam javalis e muitos outros...)
Ventos fortes nas copas das árvores.
Facas de luz do sol entrando
pelos vãos dos galhos,
cegando o caçador.
O caçador tendo uma vertigem.
O caçador perdendo a arma na mata.
Eu indo para cima do caçador,
rasgando,
destroçando o caçador.
SELVAGEM É A MORTE ARBITRÁRIA.
(… o desenvolvimento das armas e utensílios parece ter contribuído com maior capacidade organizacional. Armas e a habilidade humana de cooperação fizeram parte de um mesmo despertar intelectual. Rebanhos de animais eram caçados e encurralados ou levados à morte em um precipício, o que dava lugar a grandes festas de carne. É comum, hoje em dia, afirmar que os seres humanos naquela época viviam em harmonia com o meio ambiente e não matavam sem necessidade ou com imprudência, essa afirmação tem de ser tratada com cuidado, devido à falta de provas e conclusões...)
A floresta em revolta se move.
UM SÓ CÍRCULO.
(…uma tribo ou grupo de pessoas que estava constantemente em movimento não podia tratar com eficácia dos doentes e dos que não aguentavam realizar longas caminhadas. Até bebês gêmeos eram um grande transtorno e, provavelmente, um dos dois era morto. Os mais idosos, que já não podiam andar, eram deixados para trás para morrer…)
Nos seus estertores
a dor da onça penetra
a dor do caçador.
A onça cerra as pálpebras.
A onça morre,
eu morro.
O caçador morre.
UM SÓ CÍRCULO SELVAGEM.
(… uma sociedade em movimento em movimento em movimento em movimento em movimento não tinha outra alternativa?)
A floresta blatera,
zurra,
uiva,
coaxa,
ruge,
guiza,
guincha,
grasna,
grunhe,
rosna,
brame.
(*Uma Breve História do Mundo, de Geoffrey Blainey)
Leia as partes anteriores do poema





