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"Vai ter atabaque sim": conheça o quilombo urbano no Centro Histórico de Curitiba

Aberta em agosto, a Casa Cultural Àlàáfíà é muito mais que um restaurante: é um espaço de convivência, resistência e cultura afro-brasileira

"Vai ter atabaque sim": conheça o quilombo urbano no Centro Histórico de Curitiba
O músico e empresário maranhense Daniel Montelles, idealizador e proprietário da Casa Cultural Àlàáfíà. Foto: Tami Taketani/Plural
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Esta reportagem é parte de uma série de perfis de empreendedores negros que o Plural publica ao longo de novembro, em homenagem ao Mês da Consciência Negra.

"Aqui eles vão ver o atabaque na porta sim. Vão ver preto entrando, preto circulando. No luxo". Quem garante é o músico e empresário Daniel Montelles, um maranhense de 30 anos que se tornou o proprietário de um casarão no número 480 da Avenida Jaime Reis, no bairro São Francisco, no tradicional Centro Histórico de Curitiba.

Definida por ele mesmo como quilombo urbano, a Casa Cultural Àlàáfíà não é só um restaurante, um bar ou um ponto de encontro. É tudo isso e também uma casa de cultura afro-brasileira, que reúne pessoas, música, gastronomia, artes plásticas e literatura. Aberta no dia 17 de agosto, o espaço também recebe eventos, oficinas e rodas de conversa.

Daniel Montelles chegou a Curitiba em 2016. Depois de uma rápida passagem por São Paulo, há cerca de dez anos, retornou para São Luís do Maranhão, onde vivia com a avó – ele perdeu a mãe aos 14 anos. Tinha amigos na capital paranaense e decidiu estudar Publicidade e Propaganda na cidade. "Vim com 400 reais. E aí tem o aluguel... em meio a tudo isso, eu falei para minha avó que ia voltar para o Maranhão. E ela falou 'não, você vai ficar aí, porque você quis ir, pra cá você não volta sem vencer'".

(Foto: Tami Taketani/Plural)

Arrendou um bar perto da Praça Santos Andrade, teve alguns empregos e entrou para o Movimento Negro da UFPR. De família evangélica, foi na capital mais fria do país que Montelles conheceu o candomblé e diz ter se encontrado. "Eu já simpatizava com o candomblé. Quando cheguei aqui, por necessidade de saúde mesmo, não só a saúde da anatomia humana, mas espiritual, eu conheci o candomblé. E a partir daí eu me encontrei. Curitiba foi um encontro ancestral. Foi aqui que eu encontrei a minha negritude".

Depois disso, decidiu que não queria apenas um bar. "Eu queria uma casa para servir comida africana, ter encontros de pretos e brancos que venham para somar. A meta era essa, um quilombo urbano. Comecei a pesquisar alguns espaços na cidade e conheci essa casa. Tentei alugar, mas não dava certo. Um ano depois, apareceu a possibilidade da compra. Peguei o lugar estratégico".

"Eu sempre duvidava, essa casa vai ser minha? E os orixás sempre disseram que seria. E eu não duvidei mais. Mesmo com medo, a gente tem que meter o pé e ir. Com Exu não se brinca."
Daniel Montelles

O ponto de virada que permitiu essa conquista, conta Montelles, foi aos 16 anos, quando ganhou um prêmio literário para escritores iniciantes, em São Luís do Maranhão, pelo livro "Máquinas de Maria" – uma homenagem a sua avó. Até então, a cabeça estava cheia de dúvidas e questionamentos, muitos deles em função da formação religiosa.

"O cristianismo apaga a negritude. Ele tenta apagar. Ele faz você enxergar o Jesus de olho azul. Eu questionava, 'mas meu pai é um homem preto, eu sou preto'. Eu comecei a trazer esses questionamentos e começou a haver um silenciamento da minha fala. Eu era líder de jovens, líder de música", lembra. "O que fez com que eu começasse a duvidar que a minha caminhada seria por ali foi quando eu ganhei esse prêmio. Se eu permanecesse ali, eles tentariam me resgatar para aquela coisa que não fazia mais sentido para mim".

(Foto: Tami Taketani/Plural)

Furando a bolha

Montelles sabe separar bem as coisas: o fato de ter se encontrado em Curitiba não significa que considera a cidade "receptiva" ou algo assim. "Não tira as características de Curitiba: ela continua sendo racista, xenofóbica. Ela continua sendo, pelo próprio clima, fria", afirma o maranhense. "Existem formas de você ir articulando com esse desafio. Porque Curitiba tem sua história preta, tinha até um pelourinho. Em meio a tudo isso, eu consegui, dentro da minha bolha, furar um pouco essa bolha e atingir outras pessoas".

"Curitiba é careta até hoje. Até os pretos daqui são caretas. As pautas de Curitiba, tanto as pautas brancas quanto as pautas pretas, no Nordeste a gente já comeu com farinha."
Daniel Montelles

Em pouco mais de dois meses de funcionamento, a Casa Cultural Àlàáfíà já foi alvo de duas abordagens policiais. "Uma muito tranquila, mas a outra... Estava rolando uma oficina. A casa está toda legalizada, mas para eles não interessa. Eles querem agir como se estivéssemos em 1800. Não estava rolando roda de samba, era um evento de paraenses com som ambiente e a policial quis levar a caixa. O que eles querem? O silenciamento da gente, mas não nos silenciaram".

"Quem são eles para dizer que eu não devo existir? Por que a polícia não vai lá no Batel, irmão? Ou na Prudente de Moraes. É calçada, é barulho, é gargalhada. Porque lá só tem playboy. Todo mundo igual, de sapatênis. Agora, aqui nessa região, ou na periferia, eles querem atacar. Eles não querem ver a felicidade das pessoas."
Daniel Montelles
(Foto: Tami Taketani/Plural)

Ele avisa: no dia 20 de novembro, o Dia da Consciência Negra, serão três atabaques no Largo da Ordem. "Vai ter atabaque sim. Vai rolar desde cedo, com três atabaques na rua, saudando quem me deu essa casa", diz. "Porque a abordagem dessa policial foi às duas da tarde. Não faz sentido? Para o racista faz. Foi por causa do barulho? Foi um barulho existencial".

"Já falei isso aqui dentro dessa casa: com o racista, com o homofóbico, com o xenófobo, eu não tenho diálogo. Posso até fazer um vídeo no Instagram, vou denunciar, mas o negócio é na porrada."
Daniel Montelles

O músico e o empreendedor

Daniel Montelles começou a cantar aos 17 anos, na igreja. Começou a ganhar dinheiro com a música aos 22 anos. "Essa coisa de ter que estar aparecendo sempre eu não gosto", revela. "A minha música eu levo para quem queira ouvir e pronto. Não vivo especificamente da música, agora vivo desse empreendimento, mas eu acho que uma coisa é ligada à outra".

O repertório é formado por músicas compostas por pessoas próximas. "Eu ganho música dos outros. Eu pego o filho dos outros para criar. 'Fulano, meu bem, você tem uma cantiga aí pra mim? Vou gravar'. Gosto de dar outro sentido a partir daquilo que alguém escreveu. É assim que eu estou me consolidando. Mas o atabaque tem que fazer o molho."

Já a veia empreendedora pode ter vindo família. "Minha mãe era cabeleireira, tinha um salão. Meu avô era mestre de obras. Minha avó era costureira. Meu outro avô tinha quitanda no interior. Todo mundo tinha uma vida empreendedora. Só que o empreender, às vezes, é por uma falta de oportunidade. Às vezes eu vejo umas pessoas querendo colocar um romantismo no empreendedorismo. Não existe isso", diz. "Eu já sou empreendedor da música, tenho essa carreira independente. Já é uma coragem".

"Quanto mais camadas negras você põe sobre você, mais você sofre. O preto de candomblé ou de umbanda sofre primeiro por ser preto. Em segundo, pela camada que ele carrega. O preto gay sofre primeiro por ser preto."
Daniel Montelles

O simples luxuoso

E a comida? Acarajé, bobó de camarão, feijoada, baião de dois, bolinho de feijoada, caruru, vatapá. "Eu já conhecia tudo, sabia fazer algumas coisas. Agora contratei uma baiana", revela Montelles. "Temos caldinhos que você encontra em vários locais, mas como aqui eu acho que não, porque aqui é bem servido. São coisas mais comuns, mas o bobó de camarão você não encontra com facilidade nessa região, não. E a feijoada é muito boa, eu que faço. Às vezes você chega aqui e eu estou cozinhando um frango, vou te oferecer o frango".

(Foto: Tami Taketani/Plural)

A casa é muito mais que mesas e um balcão: tem um espaço para exposição de artistas negros, uma pequena biblioteca, sofás, sala para reunião, um espaço ao ar livre e uma churrasqueira. "Eu fui entendendo que aqui dentro tem o simples luxuoso. Uma mesa legal, talheres legais, louça limpa, um banheiro digno de uma pessoa usar. Porque o quilombo, o terreiro, ele ensina sobre higiene, sobre limpeza, sobre majestade, magnitude. Aqui é um lugar que as pessoas têm meio um receio de entrar, mas quando entram eles vão tomar um litrão".

E o nome? "No jogo de búzios, especificamente, tem um número", diz Daniel. "Enfim... são coisas que eu não revelo. Mas tem um número que, quando corresponde positivo para aquilo que você quer, é Àlàáfíà. Significa que o jogo alafiou, deu certo para você. Igual a essa casa".

"Essa casa é exatamente o que eu canto. Eu canto o povo preto, eu canto a minha matriz. Quando a gente fala da música popular brasileira, nós estamos falando da música preta brasileira."
Daniel Montelles
(Foto: Tami Taketani/Plural)

Quer conhecer?

Quer conhecer a Casa Cultural Àlàáfíà? Fica na Avenida Jaime Reis, 480, na frente da Praça João Cândido. O espaço abre de quarta a sexta-feira, das 17h às 23h; aos sábados, das 15h às às 23h; e aos domingos, do meio-dia às 17h. Acesse também os perfis da Casa Cultural Àlàáfíà e de Daniel Montelles no Instagram.

José Marcos Lopes

José Marcos Lopes

Jornalista formado pela UFPR.

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Tags: Paraná

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