Na noite de 22 de maio o mecânico de motocicletas Rodrigo Cibantos, paciente renal crônico há seis anos, que utiliza cateter venoso central de longa permanência para hemodiálise, procurou a Unidade de Pronto Atendimento (UPA) de Pinhais , Região Metropolitana de Curitiba (RMC), após identificar sangramento no acesso venoso localizado no peito. Segundo relato dele ao Plural, ao chegar à unidade, foi orientado pela equipe de enfermagem a manter compressão no local enquanto aguardava atendimento.
O problema, segundo Cibantos, é que a delonga no atendimento colocou a vida dele em risco. Conforme o paciente, após voltar da hemodiálise, ele deitou para descansar. Algumas horas depois, ao acordar, notou sangramento na região do acesso e por isso foi até a UPA. Devido ao sangramento, foi direto até a equipe de enfermagem, mas na triagem, foi informado de que não poderia ser atendido sem antes passar pela recepção. “Em casa eu já dei início à compressão local como os médicos me ensinaram. Quando cheguei na UPA fui direto para a triagem, eu estava nervoso. Na triagem, mesmo observando o sangramento, a enfermeira me pediu para voltar para a recepção. Voltei, fiz o cadastro e fui novamente para a triagem. Durante a triagem a enfermeira me deu uma pulseira amarela e eu questionei ‘amarela, moça?’ e ela só me respondeu ‘sim, aguarde ser chamado’”, conta.

O atendimento nas UPAs segue classificação de urgência e a pulseira amarela indica prioridade intermediária. Cibantos, ao receber a pulseira amarela, disse que ficou mais nervoso por entender que não se tratava de uma classificação emergencial e 20 minutos de espera, procurou novamente a equipe de enfermagem. “Eu estava nervoso, sozinho e com sangramento ativo, com medo de passar mal e acabar desmaiando. Aí eu fui confrontar a equipe relatando que estava com sangramento, que era paciente renal crônico, que tinha risco de vida de sangrar até a morte. A enfermeira olhou e disse ‘sim, por isso você está pressionando o local’. Eu me exaltei porque pensei ‘poxa, eu estou numa UPA e falam que a responsabilidade pela minha vida dentro da UPA é minha’.”
O paciente registrou um vídeo do momento, publicado em suas redes sociais, onde é possível ouvir o diálogo com uma das enfermeiras. No vídeo, a profissional informa que a classificação dele na pulseira amarela segue o protocolo de Manchester. A publicação gerou reações mistas: alguns usuários questionaram a postura de Cibantos e defenderam a classificação correta; outros se solidarizaram, afirmando que o nervosismo diante de sangramento ativo é compreensível.
“O que as pessoas não entendem é eu gostaria que já no momento da triagem tivesse sido feito o estancamento e que eles não falassem para mim ‘estanque o seu próprio sangramento’. Eu estava nervoso, preocupado. Acho que poderiam ter prestado mais auxílio já no primeiro momento, o que teria evitado boa parte do estresse", diz.
Após a discussão, o atendimento foi realizado. A médica observou o sangramento, encaminhou Rodrigo para curativo compressivo, fez recomendações sobre cuidados em casa e o liberou. “Eu não tenho o que falar do atendimento médico. A médica foi atenciosa, tomou os cuidados necessários, me encaminhou para a sala de curativos. Mas, apesar do bom atendimento da médica o, eu vou sim procurar a ouvidoria da UPA e o Coren para registrar queixa sobre o caso.”
O Plural procurou a prefeitura de Pinhais para saber o posicionamento. Por meio da Secretaria Municipal de Saúde, “a prefeitura esclareceu que, pela avaliação preliminar dos registros assistenciais, averiguou-se que o paciente foi submetido ao protocolo institucional de classificação de risco adotado na unidade (Manchester), sendo acolhido e avaliado conforme os critérios técnicos preconizados para os serviços de urgência e emergência. Durante o atendimento, não foram identificados sinais clínicos de instabilidade hemodinâmica, comprometimento respiratório ou outras condições que caracterizassem risco iminente à vida, circunstâncias que fundamentam a priorização imediata em protocolos de urgência”.
Ainda segundo a prefeitura, “durante sua permanência na unidade, o paciente recebeu assistência da equipe de saúde, com realização das medidas necessárias para controle da intercorrência apresentada, orientações quanto aos cuidados subsequentes e encaminhamento para continuidade do acompanhamento especializado já existente”.
A nota reforça que “nos casos de sangramento ativo, a equipe assistencial realiza avaliação imediata para identificação da origem, intensidade e repercussão clínica do quadro. Situações associadas à instabilidade hemodinâmica, comprometimento respiratório, hemorragias volumosas ou risco iminente de agravamento recebem prioridade máxima de atendimento. Já os casos em que o paciente se encontra estável são conduzidos conforme os critérios assistenciais previstos no protocolo de classificação de risco”.

Conforme a Secretaria de Saúde, a avaliação interna concluiu que “o paciente foi atendido dentro do fluxo assistencial correspondente à sua classificação de risco, recebendo a assistência necessária de forma adequada, oportuna e compatível com sua condição clínica. Os registros demonstram que foram adotadas as medidas assistenciais pertinentes ao caso, com resolução da intercorrência apresentada, orientações específicas e encaminhamento para continuidade do acompanhamento especializado”.
Já o Conselho Regional de Enfermagem do Paraná (Coren-PR) informou que até o momento não recebeu manifestação oficial sobre o caso. Mas destatou que, “caso seja apresentada denúncia envolvendo possível infração ética de profissional de Enfermagem, o Conselho analisará a situação com a devida apuração dos fatos, dentro de suas atribuições legais”.

