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Prédio feio

Construíram um prédio no meu caminho casa/trabalho que me causa muito ódio. Muito mesmo. Todo santo dia

Prédio feio
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Construíram um prédio no meu caminho casa/trabalho que me causa muito ódio.

Muito mesmo. Todo santo dia. 

Acontece que ele é horroroso. 

Todo torto.

E quando eu digo torto, quero dizer TORTO. Assim, com letra maiúscula mesmo. 

Torto com força. Torto pra fazer inveja em Pisa. Torto pra dar arrepio em todo mundo com mania de linha reta. Torto.

Mas não porque foi mal construído. Antes fosse, meu bem. Antes fosse. 

Ele é PROPOSITALMENTE TORTO. 

Pra ser chique. 

Siiiiim. 

Porque (quem diria) além de absurdamente horrível e absolutamente torto, ele é chique. 

Do pior tipo de chique. 

O chique absurdamente horrível e absolutamente torto.

E ele é alto. 

Dá pra enxergar essa cicatriz horrorosa no meu horizonte de paz, por muitos e muitos quilômetros, sabe? 

Esse trambolho cinza, que parece inacabado e mal desenhado tá lá em grande parte do meu caminho diário – me desafiando. Ódio.  

Não vou nem falar que ele poderia ter sido desenhado pela minha sobrinha de 6 anos, porque a minha menina jamais cometeria uma atrocidade “desenhal” dessas. Ela tem noção. E uma régua. 

- Ai, AB, você tá exagerando de novo.

Não tô, não! 

Ele começa de uma espessura e termina em outra. Eu juro. Ele é quase um funil. Só que pior! 

O ângulo também muda no meio do caminho, como se ele desse um leve giro no próprio eixo, tamanha ousadia desse arquiteto/engenheiro/criador psicopata dos prédios chiques. 

Ele também tem um risco que passa transversalmente pela fachada, de tal maneira que me dá vontade de atropelar gatinhos fofos. 

E as janelas, (MEU DEUS AS JANELAS) elas não seguem nenhuma coerência estética ou matemática. É como se cada andar tivesse tido o live arbítrio de escolher quantas janelas ter e de que tamanho e a que distância e... que ÓÓÓÓÓDIOOO! 

Já recebi mil e um argumentos de amigos e não amigos, muito mais entendidos de prédios do que eu, sobre como esse prédio (feio) é a coisa mais moderna em termos de prédios, e como ele é brilhante e genial e revolucionário e o próprio rei dos prédios. 

Argumentos que eu jamais saberia questionar. Mas isso não me intimida, não. 

IDAÍ se ele é o robocop dos prédios modernos e sustentáveis e está equilibrado com o cimento da paz e as vigas da liberdade enquanto se inclina em direção ao sol e produz sombras perpendiculares que expressam o que há de mais elegante em Curitiba? 

GRANDES COISA, sabe? Minha paz vale mais. 

E tudo naquele prédio me irrita. 

E sim, eu poderia levar essa dificuldade em aceitar o disforme pra análise, mas eu não tenho essa dificuldade com mais nada. Juro pra vocês.

Só com esse bendito prédio horroroso. E caro. E chiquérrimo. 

Ele deve custar pra lá de alguns milhões, tá? 

Pensando por um lado ainda egocentrista, porém positivo talvez ele esteja lá, no meu caminho diário, pra me ensinar sobre controle emocional. Sei lá. 

Sobre aceitar cicatrizes e não odiar ricos esnobes e sobre não atropelar gatinhos só porque seu dia está ruim por culpa de um prédio que te lembra que a vida é muito injusta e torta demais. 

- Ai, AB, mas garanto que se você ganhasse um apartamento lá, você ia amar, né?

Sim. 

E ia falar pro Uber: eu moro ali, ó... naquele prédio feio. 

E depois ia chorar um pouco deitada na minha hidromassagem olhando os prédios bonitos pela minha janela sem coerência estética, pedindo perdão à cidade. 

Que ódio!

Aline Brandalise

Aline Brandalise

Marqueteira e cronista. Escreve sobre o quanto viver pode ser ridículo e é autora de "Às vezes me sinto uma espectadora da vida real", primeiro livro da coleção Biblioteca Plural.

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