Pular para o conteúdo

Prefeitura de Foz pagou quase cinco vezes mais por pitaya da merenda escolar

Documento registra compra a R$ 60,30/kg; fornecedor informou à reportagem preço de R$ 12,50/kg; MP-PR investiga o caso

Prefeitura de Foz pagou quase cinco vezes mais por pitaya da merenda escolar

A Prefeitura de Foz do Iguaçu pagou R$ 60,30 por quilo de pitaya para a merenda escolar da rede municipal, valor quase cinco vezes superior ao preço de R$ 12,50/kg informado à reportagem pela própria cooperativa fornecedora.

O pagamento consta em documento de verificação de entrega de alimentos da merenda escolar, referente ao período de 10 a 15 de fevereiro de 2026. No registro, o item “pitaya” aparece com valor unitário de R$ 60,30 por quilograma entre os produtos fornecidos pela Cooperativa da Agricultura Familiar de Foz do Iguaçu (Coaffoz).

A reportagem apurou, em conversa com merendeiras da rede municipal, que cerca de 300 quilos da fruta teriam sido adquiridos nesse fornecimento. Segundo relatos feitos sob condição de anonimato, a quantidade teria sido informada pela secretária municipal de Educação, Silvana Garcia, em comunicação interna sobre a distribuição da merenda no início do ano letivo. Profissionais da rede relatam que o período foi marcado por falta de itens básicos e materiais de limpeza nas unidades.

Se confirmado, o volume representaria R$ 18.090 pagos pelo município. Pelo valor de R$ 12,50/kg informado à reportagem, a mesma quantidade custaria R$ 3.750, diferença de R$ 14.340. A prefeitura foi questionada sobre o volume adquirido, mas não respondeu até a publicação.

Preço para programas públicos é mais alto

Em contato com a reportagem, a cooperativa afirmou que valores próximos de R$ 60/kg são praticados em vendas destinadas a programas públicos. Em conversa por WhatsApp nesta terça-feira (10), um funcionário do setor administrativo informou que a entidade compra a produção de agricultores familiares e comercializa alimentos para programas do município e do Estado, com distribuição em escolas e centros municipais de educação infantil (CMEIs).

Segundo ele, o preço médio da pitaya vendida ao município é de R$ 60,30/kg, podendo variar conforme o programa. Questionado sobre a diferença em relação ao preço de mercado, cerca de R$ 15/kg no Ceasa de Foz do Iguaçu, ponderou que “quem paga são os programas”.

No dia seguinte, a reportagem solicitou orçamento para 100 quilos da fruta, apresentando-se como pessoa física. Uma técnica agrônoma da cooperativa informou inicialmente R$ 12,50/kg. Em seguida, disse que a venda não poderia ser formalizada porque a entidade trabalha apenas com programas institucionais.

A diferença de preços surge em meio a questionamentos sobre a gestão da merenda escolar na administração do prefeito General Silva e Luna (PL). Uma denúncia apresentada ao Ministério Público do Paraná (MP-PR) pelo Sindicato dos Professores e Profissionais da Educação da Rede Pública Municipal (Sinprefi) cita a compra da fruta e pede apuração sobre a economicidade da aquisição.

Em entrevista à reportagem, a presidente do Sinprefi, Viviane Fiorentin Dotto, afirmou que a entidade acompanha o caso.

“O sindicato está acompanhando e fiscalizando não só a merenda escolar, mas todos os serviços prestados pela prefeitura na educação municipal. Sobre a pitaya, cobramos explicações da Secretaria de Educação e encaminhamos a informação ao Conselho de Alimentação Escolar e ao Ministério Público para que verifiquem e tomem providências”, disse.

A representação também aponta problemas administrativos na rede municipal, incluindo memorandos enviados por escolas à Secretaria Municipal de Educação (SMED) sem resposta desde 2025, segundo o sindicato.

Falta de transparência

As denúncias se somam a questionamentos sobre a transparência na gestão da merenda escolar. Em resposta ao Requerimento nº 787/2025 da Câmara Municipal, que solicitava dados sobre fiscalização da alimentação, fornecedores e controle do transporte dos alimentos, a prefeitura citou apenas o Pregão Eletrônico nº 036/2025, com valor global de R$ 10,39 milhões, sem apresentar relatórios de inspeção, registros de irregularidades ou lista completa de fornecedores ativos.

A reportagem procurou a Prefeitura de Foz do Iguaçu para esclarecer o volume adquirido, a formação do preço da pitaya e os critérios de pesquisa de mercado utilizados na compra, mas não recebeu resposta até a publicação.

Mais em Política no Paraná

Ver todos

Mais de Bruno Soares

Ver todos

De nossos parceiros