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Ignácia era uma negra escravizada em Guarapuava no século 19 que fugiu depois de ver o seu "dono" castigar seu filho, um menino de um ano e meio de idade. Quatro anos depois, já com outro nome e vivendo em Campo Largo, ela foi encontrada por um capitão do mato. Para que o filho de cinco anos não tivesse que voltar ao inferno da escravidão, preferiu acabar com a vida dele.
A história foi revelada pelo pesquisador Rafael Julião, que estuda os crimes de resistência, cometidos por negros e negras que não suportavam mais a crueldade do cativeiro. As histórias descobertas por ele mostram que em Curitiba e no Paraná esse tipo de crime era mais comum do que se imagina. Os escravizados matavam seus donos ou, em último caso, cometiam suicídio para escapar das torturas do trabalho forçado.
O segundo episódio do podcast "Invisíveis", produzido pelo jornal Plural, conta essas e outras histórias da resistência do povo negro em Curitiba e nas cidades próximas. Além do crime, outra forma de resistir eram as rebeliões, que botavam em polvorosa os brancos - eles sabiam que, se houvesse uma revolta coordenada dos negros, estariam provavelmente mortos..
No Paraná, a revolta mais conhecida é a do Capão Alto, em que 236 escravizados se recusaram a deixar a fazenda em que trabalhavam com alguma autonomia. Os novos donos do lugar foram buscar os homens e mulheres para serem transferidos para uma fazenda de café em São Paulo e não imaginavam que iam enfrentar resistência.
O episódio conta ainda a história das fugas dos escravizados. Já perto da abolição, havia inclusive sociedades secretas que ajudavam a sequestrar negros e negras do cativeiro para mandá-los ao Uruguai, onde não existia escravidão.
O podcast "Invisíveis", resultado de reportagem de Aline Reis e Rogerio Galindo, conta em seis episódios a história do povo negro em Curitiba e região. Com consultoria técnica da historiadora Noemi Santos da Silva, o projeto pretende recuperar uma história que, por obra de intelectuais e do marketing de "cidade europeia", ficou escondida por muito tempo.
O projeto tem apoio do Sindicato dos Bancários e Financiários de Curitiba, do Restaurante Sambiquira e dos escritórios de Advocacia Vernalha Pereira, GSG, Manoel Caetano e França da Rocha.
O segundo episódio está disponível nos principais tocadores de podcast.