Oito indígenas foram assassinados no Paraná em 2025, contra três no ano anterior, enquanto ataques, ameaças e violações atingiram principalmente comunidades Avá-Guarani no Oeste do estado. Relatório do Cimi também aponta mortes, suicídios, violência sexual e omissões do poder público.
No último dia 13, o Conselho Indigenista Missionário (Cimi) lançou seu relatório anual sobre a violência contra os povos indígenas no Brasil. O levantamento, como nos anos anteriores, revela um cenário de agravamento da violência. Os dados revelam que, em 2025, 258 indígenas foram assassinados no país, enquanto 215 mortes foram registradas como suicídios.
A mortalidade infantil também atingiu níveis alarmantes, com 1.024 óbitos de bebês e crianças indígenas de até quatro anos. Em todos os três indicadores, houve aumento em relação a 2024.
Produzido pelo Cimi, organismo vinculado à Conferência Nacional dos Bispos do Brasil (CNBB) que acompanha a situação dos povos indígenas desde 1986, o relatório reúne informações sobre violência contra a pessoa, violência contra o patrimônio e violações provocadas pela omissão do poder público.
Além dos assassinatos, o relatório contabilizou, em todo o país, 19 casos de abuso de poder, 18 ameaças de morte, 27 ameaças diversas, 33 casos de lesão corporal, 38 tentativas de assassinato, 46 episódios de racismo e discriminação étnico-cultural, 25 casos de violência sexual e dez homicídios culposos. Ao todo, foram registrados 474 casos de violência contra a pessoa.
No Paraná, homicídios de indígenas quase triplicam em um ano
No estado do Paraná, o relatório contabilizou 72 episódios de violência contra indígenas em 2025. Foram 23 casos classificados como violência contra a pessoa e outros 20 relacionados à omissão do poder público, categoria que inclui falta de assistência em saúde e educação e mortes decorrentes de desassistência. O levantamento também registra oito suicídios e 15 mortes de crianças indígenas de zero a quatro anos.
O número de suicídios cresceu em relação ao ano anterior. Em 2024, haviam sido registrados 11 casos no Paraná — três mulheres e oito homens. No levantamento mais recente, os casos estão inseridos em um cenário de violência que atinge principalmente o povo Avá-Guarani no oeste do estado.
A maior parte dos registros ocorreu na Terra Indígena Tekoha Guasu Guavirá, que reúne comunidades Avá-Guarani nos municípios de Guaíra, Terra Roxa e Altônia. Entre os episódios relatados estão ataques armados atribuídos a pistoleiros, assassinatos, ameaças, perseguições, invasões de domicílio, violência sexual, racismo e discriminação, além de casos de abuso de autoridade e retenção criminosa de cartões de benefícios sociais por comerciantes.
Segundo dados oficiais do Sistema de Informação sobre Mortalidade, oito indígenas foram assassinados no Paraná em 2025. O crescimento, com relação a 2024 quando três indígenas foram assassinados, é de quase 167%.
Entre os episódios registrados em 2025 está o assassinato de um homem de 55 anos, morto a golpes de facão na Reserva Indígena Pinhalzinho, em Tomazina, em decorrência de uma dívida.
Em Guaíra, a jovem Avá-Guarani Jessicléia Martins, de 17 anos, foi assassinada a facadas dentro de sua casa, no Tekoha Yvy Okaju. De acordo com o relatório, ela vinha sendo assediada havia meses pelo autor do crime. O Cimi classificou o caso como feminicídio.
Também em Guaíra, Everton Lopes Rodrigues, de 21 anos, filho de um cacique Avá-Guarani, foi encontrado decapitado em uma área rural próxima ao Tekoha Yvyju Avary. Marcelo Ortiz, também indígena Avá-Guarani, foi encontrado morto e decapitado em uma estrada rural do município.
Outro assassinato ocorreu quando um homem foi morto pela própria esposa com uma faca durante uma luta corporal motivada por um desentendimento.
Ameaças e perseguições
O relatório contabilizou sete indígenas vítimas de ameaças no Paraná, distribuídas em seis casos de ameaça de morte e um de ameaça diversa.
Entre os episódios está o de um adolescente ameaçado por um homem não indígena que estava em uma motocicleta, em Terra Roxa. Em outro caso, crianças que estavam em um ônibus escolar foram perseguidas por um carro preto.
O Cimi também registrou uma carta de ódio deixada junto ao corpo de um indígena, contendo ameaça de incendiar ônibus escolares com crianças dentro. Em Guaíra, a liderança Paulina foi ameaçada na área urbana e ouviu que “será a próxima decapitada”.
O estado registrou ainda um caso de abuso de autoridade. Um homem Avá-Guarani foi preso arbitrariamente em Terra Roxa depois de recolher uma lona descartada em um lixão. Segundo o relatório, ele foi acusado de furto.
Na categoria específica de lesão corporal, a tabela do Paraná não contabilizou ocorrências em 2025. O relatório ressalta, porém, que indígenas ficaram feridos em tentativas de assassinato e que esses casos foram classificados na categoria correspondente.
Mortes no trânsito e violência sexual
Três indígenas foram vítimas de homicídio culposo. Os casos envolveram uma mulher atropelada na BR-277, em Nova Laranjeiras, por um motorista estrangeiro; Maicon Kafej Pereira, de 28 anos, atropelado na PR-473, também em Nova Laranjeiras; e Marcelo Dias, indígena Avá-Guarani que morreu após uma colisão de trânsito em Terra Roxa.
O relatório também registra dois casos de violência sexual.
Em um deles, uma mulher Guarani da Terra Indígena Mangueirinha foi agredida e violentada durante três dias. Mesmo depois de informar que estava grávida, ela foi agredida com chutes na barriga pelo companheiro.
Em Arapongas, uma menina Kaingang de 10 anos foi vítima de estupro e ameaças.
Racismo e ataque a comunidade Avá-Guarani
O levantamento registra ainda um caso de racismo e discriminação étnico-cultural. Segundo o Cimi, uma reportagem exibida pelo programa Balanço Geral Curitiba, da RICtv/Record, criminalizou a comunidade Avá-Guarani do Tekoha Yvy Okaju ao associá-la ao crime organizado, especificamente ao Primeiro Comando da Capital (PCC). A reportagem também teria colocado em dúvida a identidade indígena dos moradores ao sugerir que eles seriam paraguaios.
Um dos episódios mais graves ocorreu em 3 de janeiro de 2025, no Tekoha Yvy Okaju, em Guaíra. Segundo o relatório, pistoleiros atacaram a comunidade a tiros e feriram quatro pessoas.
Uma criança de sete anos foi atingida na perna; um adolescente de 14 anos foi baleado na coxa; Elízio Galeano foi atingido na mandíbula; e Deroteo Martine Jara foi ferido na coluna e perdeu os movimentos do tórax para baixo.
O conjunto dos registros evidencia a concentração da violência contra os povos indígenas no oeste paranaense, especialmente contra comunidades Avá-Guarani de Guaíra, Terra Roxa e Altônia. Para além dos casos de violência direta, o relatório também aponta a persistência de violações relacionadas à falta de assistência do poder público, compondo um quadro de vulnerabilidade que se agravou em 2025.
O Plural publicou uma série de reportagens sobre a violência contra os Avá-Guarani no Oeste do Paraná e a leniência da justiça em julgar e processar os criminosos. Intitulada “Dois Pesos da Justiça”, a série conta, por meio de dados obtidos via LAI, como é a relação da polícia e da justiça com os indígenas que vivem em Guaíra, Terra Roxa e Altônia.
As reportagens podem ser lidas nos links:







