Recentemente, eu fui me deitar com ela, sabendo que estava bem detrás da minha cama. Não seria a primeira vez que isso aconteceria, e tampouco a última. A lagartixa estava extremamente rápida e gordinha, e correu ao menor sinal do meu olhar.
A porta do meu quarto dá direto para os fundos da casa, e é ali que me levanto no meio de plantas, trepadeiras, zunidos de besouros e o som bastante particular dos beija-flores. Já estou, portanto, acostumado com a habitual presença das lagartixas, embora, confesso, ainda não entendo a quantidade enorme de casulos de traças desde o primeiro dia que eu e minha filha nos mudamos para cá. Posso jurar que não fui eu que as transportei com a minha quantidade de livros. Pelo contrário, parece agora que ficaram extremamente felizes com o alimento que a nossa vinda para cá proporcionou a elas.
Se posso dormir tranquilamente ao lado das lagartixas e traças, por outro lado minha filha não tolera o indulto para as aranhas, sobretudo as marrons, que não são muitas por aqui. O que me espanta mesmo é a visita, a cada madrugada, de lesmas grandiosas, talvez oriundas de livros mágicos infantis, que insistem em entrar pela fresta da janela da cozinha. Neste caso, não cedo à pressão de minha filha por sal e sol no lombo desses seres amigáveis, que são mais velozes até do que podemos imaginar.
As mesmas trepadeiras que já me forneceram então colibris, zangões, lesmas, lagartixas e aranhas, além de um incrível pássaro azulado a cada manhã, de nome desconhecido, como são as coisas que surpreendem, também servem de refúgio pra um rato cinzento que, por uns dois meses, brincou de perseguição conosco, como sempre levando a melhor contra qualquer armadilha que eu pudesse bolar.
Do lado de fora, estão as aves da região, e destaco aqui sobretudo as exóticas, ou, se podemos chamar dessa forma, aquelas que são selvagens: tirivas e carcarás fazem seus voos e cantos rasantes. As primeiras, coloridas e barulhentas entre as poucas árvores da avenida principal. O carcará, em guerra permanente com pombas e sabiás entre os galhos dos pinheiros, lutando por alimento, garantindo o desenho e um espetáculo que pode nos acalmar tanto como uma raia desfilando no céu.
São, de certa maneira, enclaves de resistência no mundo de hoje, e devemos nos orgulhar que tenham escolhido nosso bairro do Novo Mundo como refúgio. São os animais com quem convivemos diariamente no mesmo espaço, mesmo conscientes de que nunca alçarão o grau de cumplicidade já conquistado por cães e gatos. E talvez esses carinhas nem queiram. No fundo, concentram-se nessa intimidade leve dos que não convivem muito de perto, e também, talvez aqui esteja o principal, desfrutam de um certo olhar de inveja nosso e dos cães sobre a essência da sua liberdade mais prosaica e fugaz. Estão ali, e daqui a pouco não estarão mais. Confesso que, por um lado, sinto extrema falta dos sapos que regaram as madrugadas da minha infância, as aventuras e até mesmo nossas ações mais maldosas.
Desse modo, cada fase da nossa vida parece que é marcada não por uma idade específica ou alguma conjunção qualquer dos astros, mas de certa forma é marcada por aqueles animais, amigos silenciosos, que convivem conosco nalgum trecho de nossa caminhada. Que estão em nosso entorno e, de forma distraída, mas firme, de alguma maneira nos protegendo.
Ontem pela manhã, vi uma espécie de brilho, quase neon, riscado de forma elíptica no meu tênis. Só puder concluir que a amiga lesma havia passado por ali.