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O que dizer?

Lembrei daquela formulação extraordinária de John Cage (cito de cabeça): “não tenho nada a dizer e estou dizendo. E isto é Poesia, como eu quero agora.”

O que dizer?
Foto: Clem Onojeghuo / Unsplash
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Lembrei daquela formulação extraordinária de John Cage (cito de cabeça): “não tenho nada a dizer e estou dizendo. E isto é Poesia, como eu quero agora.”

Uma vez que tudo é linguagem (se me permitem), também posso acreditar que tudo diz. Se tudo diz, tudo é boca. Se tudo é boca, tudo é aparelho fonador, porque tudo fala. Até o que não fala, fala: o silêncio, a ausência, e por aí vai. Daí que a escuta, essa sim, parece exigir mais.

Me empolguei aqui com esse jogo, mas não pretendo a defesa de nenhuma tese, é que uma coisa puxa outra e já viu, né. O que eu estava imaginando escrever ia mais pelo seguinte tom. Vejam bem. Tem dias que é assim mesmo: a gente acorda com o peso das palavras não ditas. Palavras engasgadas. Conflitos empurrados para debaixo do tapete. Um tapete que, para piorar, nem combina com a sala.

Talvez seja por aí: parece que inevitavelmente a gente acaba por carregar todas as falas que não cabem no nosso roteiro pessoal. E dá-lhe improviso, improviso constante.

Lembro que alguém disse, acho que um filósofo ou um bêbado lúcido numa noite de terça-feira de poesia no Wonka, que os mais diferentes são, no fundo, os mais iguais. Tem graça tal afirmação. Não estou certo se concordo ou não. E tem graça eu concordar ou não e ainda assim incluir aqui. Gosto também daquela outra ideia: é por ter o que amamos que somos felizes. O que dizer?

Que daquela vez eu quase chorei, mas fiquei olhando o chão, tentando parecer firme; que naquela outra o que eu chamei de insônia era, na verdade, medo de sonhar com o que eu abriria mão; que incerta feita eu poderia ter deixado claro que quando certa mulher sorria de lado ela desviava o mundo de toda a tristeza; que (para meu pai) agora eu entendo; que não há nada pior que um cativeiro; que preencher planilhas embota talentos; que há muito barulho dentro de coisas vazias; que as tardes são muito melhores com manga tirada do pé; que quem escuta um idoso no banco da praça só tem a agradecer; que vale a pena valorizar quem trabalha para deixar o mundo um pouco menos idiota; que quando a gente trata alguém com carinho a gente está menos sozinho; que ainda assim a vida é um naufrágio lento; que ainda assim a vida é um agir urgente, um enfrentar em vez de recuar; que ainda assim a vida é um fruto soltando do galho; que as mentiras continuam as mesmas (e que, por serem as mesmas, são ainda piores); que, ainda assim, quem está feliz, vê-se logo em sua cara que a felicidade é a única máscara que não mascara; e que “isto é Poesia, como eu quero agora.”

E que, afinal, a gente segue, com sangue nos olhos (claro) mas também dando cambalhotas circenses, entre o que consegue ou deveria dizer e o que ainda pode vir a dizer em algum momento. Talvez agora. Talvez numa crônica.

Tags: Paraná

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