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Mulheres com cervejas em mãos

São felizes. Sorriso e grandes dentes. Curtem a vida e recebem o sol de um ângulo que só uma área de ocupação, à revelia dos limites da propriedade privada, é capaz de oferecer

Mulheres com cervejas em mãos
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Na rua paralela a nossa casa, no bairro do Novo Mundo, um caminho sem saída se encerra na embocadura do rio, onde fica também uma associação de moradores caindo aos pedaços. É ali,  nessa rua, de sons calmos e temperatura amena, de moradores, a maioria deles, mais velhos, fundadores de uma invasão nos anos 90, é ali que sou feliz quando passeio com minha cachorra, Mikasa, principalmente nos finais de tarde moles de sol e de azul sem distrações e sem nuvens. 

Quando vejo, estou lançando gestos de acenos aos vizinhos, casa por casa, moradora por moradora, entre elas a sorridente Hilma, e seus tantos netos. Inclusive, preciso driblar o jovem Henry Nathan, que chuta a bola com fúria contra o muro da frente da casa da vó. Mais à frente, uma antiga moradora, que considero amiga, apesar de não recordar o nome, cuida da mãe, octogenária, e as duas estão sempre sentadas na cadeira de balanço, avançando um pouco sobre a rua, pra além da calçada, e tomando para si o sentido do espaço público. 

São felizes. Sorriso e grandes dentes. Curtem a vida e recebem o sol de um ângulo que só uma área de ocupação, à revelia dos limites da propriedade privada, é capaz de oferecer. Muitas vezes convocam sobrinhas e netas para a convenção, de um verdadeiro feminismo popular, transformando o momento numa roda de conversa animada, cervejas em mãos, nenhum homem a atrapalhar aquele momento de comunhão e empatia, deixadas as tarefas que a sociedade impõe, e mergulhadas, ao lado do velho gato, de cães e pássaros na gaiola, na plenitude de uma tarde regada a cerveja e narrativas. Das mais jovens para a anciã, da anciã para a mais jovens, a transmissão presencial de conhecimento. Quem dera poder me aproximar e puxar uma cadeira, mas seria um acinte contra a própria fabulação daquele momento. 

Um instante glorioso, carregado de fins de tarde alaranjados, pode-se dizer até grandioso, que não poderia me passar despercebido, mesmo no afã de dar uma volta rápida e logo retomar as tarefas trabalhistas. Por outro lado, aquela tarde, aquela tarde era da roda de mulheres com cervejas nas mãos. Nada, talvez em nenhum lugar do mundo, poderia ser comparado aquele momento, como uma brecha, um pedaço de mosaico quebrado, na janela por onde entra o vento das possíveis coisas boas do mundo. 

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