Um rio urbano de Foz do Iguaçu apresentou concentração de amônia até 10 vezes acima do limite legal, indicador de contaminação por esgoto doméstico. O dado consta de um estudo da Universidade Federal da Integração Latino-Americana (UNILA) sobre o rio Monjolo, que corta áreas densamente ocupadas da cidade e passa por um parque urbano.
O monitoramento foi feito em quatro pontos do curso d’água e comparado aos padrões da Resolução Conama 357/2005. O pior resultado apareceu no trecho associado à drenagem urbana, onde a amônia chegou a 10,33 mg/L, acima do permitido para o pH registrado.
O levantamento também encontrou excedências recorrentes de ortofosfato, forma de fósforo associada ao aporte de esgoto e resíduos orgânicos. Um quarto das amostras superou o limite legal, com pico de 1,43 mg/L, indicando carga orgânica persistente ao longo do rio. Em duas coletas, o pH ficou abaixo do mínimo permitido. Os níveis de nitrito e ferro permaneceram dentro dos padrões.
Alarme pontual, problema contínuo
Para as pesquisadoras, o impacto do estudo não se resume ao pico de amônia. “A amônia funciona como um alarme, porque indica aporte recente de esgoto”, afirma Marcela Boroski, professora de Química da UNILA e orientadora da pesquisa. Segundo ela, esses episódios aparecem sobretudo após chuvas, quando a drenagem urbana intensifica o fluxo de resíduos para o leito do rio.
Já o ortofosfato é apontado como o dado mais preocupante do ponto de vista ambiental. A autora do estudo, Nathali de Lima Steiger, afirma que o parâmetro ficou acima do limite legal em praticamente todas as coletas no trecho final. “Isso sugere acúmulo contínuo de carga orgânica ao longo do curso d’água”, destaca.
O rio Monjolo atravessa áreas de lazer e parque urbano, frequentadas por moradores. O estudo não avaliou parâmetros microbiológicos, como coliformes fecais, o que impede conclusões sobre balneabilidade. Ainda assim, os indicadores químicos levantam questionamentos sobre a segurança desses usos informais.
A degradação é percebida por quem frequenta os rios da cidade. A guia de turismo de natureza Ana Carolina Romano de Souza relata presença de mau cheiro, espuma e lixo em cachoeiras urbanas usadas para lazer. Segundo ela, há locais onde a água se tornou imprópria para banho, apesar da frequência de moradores e turistas.
Monitoramento inexistente
Procurado, o Instituto Água e Terra (IAT) informou que não mantém pontos de monitoramento de qualidade da água na área urbana de Foz do Iguaçu, apenas no entorno do município. O órgão afirmou que rios urbanos estão em áreas antropizadas e podem apresentar parâmetros elevados após chuvas. Disse ainda que fiscaliza empreendimentos licenciados nas bacias, sem informar abertura de procedimento específico a partir do estudo.
A Secretaria Municipal de Meio Ambiente de Foz do Iguaçu declarou que não tinha conhecimento prévio de dados sobre a qualidade da água do Monjolo e que o monitoramento é atribuição do IAT e da Sanepar. A pasta afirmou avaliar os resultados “com preocupação”, citou ações de drenagem e fiscalização, mas confirmou que não realiza monitoramento próprio nem tem previsão para isso.
O levantamento do Monjolo é o primeiro diagnóstico sistemático desse rio urbano. As pesquisadoras apontam escassez de dados públicos sobre outros cursos d’água urbanos de Foz do Iguaçu, o que limita a gestão ambiental.