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Após ataque a terreiro, Foz é cobrada a tratar racismo religioso como problema de Estado

Com povos de matriz africana no plenário, Câmara mantém regra antirracista nas escolas, mas barra medição antes de multas por som em cultos

Após ataque a terreiro, Foz é cobrada a tratar racismo religioso como problema de Estado
Lideranças religiosas foram ao plenário cobrar proteção a terreiros e respeito à liberdade de culto. Foto: Christian Rizzi / CMFI
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Pouco mais de duas semanas depois de um terreiro ser atacado com pedras, ameaças e exigência de profissão de fé cristã, povos de matriz africana foram à Câmara de Foz do Iguaçu cobrar resposta do poder público ao racismo religioso.

Na última quarta-feira (8), os vereadores analisaram dois vetos do prefeito General Silva e Luna (PL) a projetos da vereadora Valentina Rocha (PT). O veto ao Projeto de Lei nº 323/2025, que obriga escolas a agir em casos de racismo, injúria racial e intolerância religiosa, foi derrubado por 10 votos a 5.

Com o resultado, volta ao texto a obrigação de escolas públicas e privadas adotarem providências diante de casos concretos de racismo, injúria racial e intolerância religiosa. A regra prevê registro formal da ocorrência, comunicação aos responsáveis quando houver crianças envolvidas e encaminhamento aos órgãos competentes nos casos mais graves.

Já o veto ao Projeto de Lei Complementar nº 03/2026, que exigia medição técnica antes de autuações por som em cultos religiosos, foi mantido por 9 votos favoráveis à manutenção e 6 pela derrubada. Na Câmara de Foz, vetos do Executivo só caem com maioria absoluta, ou seja, pelo menos 8 dos 15 vereadores.

Na prática, a mobilização dos povos de terreiro ajudou a impor uma derrota a Silva e Luna no projeto das escolas, mas não foi suficiente para reverter o veto do Executivo na pauta que tratava dos atabaques, do som dos cultos e da fiscalização sobre casas religiosas de matriz africana.

O Projeto de Lei Complementar nº 03/2026 buscava alterar o Código de Posturas para exigir decibelímetro antes de autuações por som em cultos religiosos. Com a manutenção do veto, a Câmara manteve barrada a regra que impediria multas sem aferição técnica obrigatória em casas religiosas de matriz africana.

No plenário, Valentina defendeu que a proteção aos povos de matriz africana esteja prevista em lei e comparou a fiscalização sonora ao uso do bafômetro. Segundo a vereadora, se a autuação por álcool ao volante depende de medição, multas por perturbação de sossego em terreiros também deveriam depender de aferição técnica no momento da fiscalização.

Repúdio e cobrança

Na mesma sessão, a Câmara aprovou por unanimidade moção de repúdio ao ataque contra o Ilê Asé Iemanjá e Oxóssi com Caboclo Sete Léguas, casa religiosa de Mãe Marcinha, no Parque Presidente II. O texto menciona relatos de que os agressores teriam exigido que frequentadores deixassem o local com “seus demônios”.

O ataque ocorreu por volta das 21h50 de 21 de junho, na Rua Henrique Boiarski. Imagens de câmeras de segurança mostram um homem arremessando pedras e um tijolo contra a fachada do terreiro, fazendo ameaças e exigindo que frequentadores declarassem que “Jesus veio em carne”. As pessoas que estavam no local não reagiram.

Para Mãe Marcinha, a vitória no projeto das escolas foi importante, mas insuficiente. Ela disse que crianças precisam aprender desde cedo que o Brasil é laico e que Foz, cidade de tríplice fronteira, reúne diferentes religiões. Ao mesmo tempo, afirmou ter saído frustrada com a manutenção do veto relacionado aos atabaques e à fiscalização sonora nos cultos.

“O atabaque é o nosso instrumento. É o instrumento que traz o orixá em terra”, disse.

Mãe Marcinha afirmou que vive com medo desde o ataque. Segundo ela, o agressor continua solto, e o caso ainda está em andamento. A ialorixá relatou dificuldade para dormir, disse tomar remédio por causa da insegurança e questionou a lentidão da resposta institucional quando a vítima é uma casa de matriz africana.

“Será que é porque nós cultuamos o povo preto, a religião afro-brasileira, a religião de matriz africana?”, questionou ao Plural.

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