Texto de Breno Gallina, aluno de Jornalismo da PUCPR
Sob orientação de Rogerio Galindo
Pesquisadores da Universidade Federal do Rio Grande do Sul publicaram em setembro na revista acadêmica internacional “Historical Biology” descobertas sobre a fauna presente no sul do Brasil no fim do período Permiano - ocorrido há aproximadamente 254 milhões de anos.
O estudo analisou a Formação do Rio do Rastro, mais especificamente na cidade de São Jerônimo da Serra. Lá, icnofósseis (pegadas e rastros fossilizados) foram encontrados em 2012, e foram atreladas a algumas espécies diversas espécies; porém, ao revisitar as evidências, os pesquisadores perceberam que eles eram, na realidade, rastros das espécies Batrachichnus salamandroides e Procolophonichnium nopcsai.
Tais espécies são representantes de grupos transitórios entre anfíbios e répteis que viveram antes e até o final do período Permiano (entre 254 e 251 milhões de anos atrás), um período de tempo muito maior do que se presumia até então.
As descobertas
Os icnofósseis foram originalmente interpretados como pegadas de espécies que foram restritas ao início do Período Changhsingiano, que é a parte final do Período Permiano. Após análises feitas por pesquisadores fora do Brasil, perceberam que na realidade essas pegadas possivelmente eram de outras espécies; as suspeitas surgiram pois as espécies descritas tinham o 4º dedo de suas patas (equivalente ao dedo anelar) mais longas do que as observadas nas evidências.
Com isso, os pesquisadores da UFRGS tomaram a iniciativa de reavaliar os icnofósseis e testar a hipótese apresentada pelos seus colegas internacionais. No período de 5 meses, Andrade Silva e Francischini utilizaram análises com jogo de luz lateral para observar detalhes no relevo, determinando o comprimento, grossura e posição de dedos, e depois disso comparando com outras pegadas preservadas.
Para avançar os estudos, eles adotaram um processo chamado de fotogrametria. Nele, os pesquisadores tiram fotos em diversas posições para escanear as pegadas com um software. Após isso, eles enviam o modelo para outra aplicação para criar um mapa de cor demonstrando vários detalhes extras a partir da topografia do icnofóssil, como a curvatura dos dedos, a presença e posição de unhas.
Depois dessas avaliações, o grupo comprovou as hipóteses, determinando que os espécimes previamente descritos como Dicinodontes (antecessores aos mamíferos) e Rincossauros (répteis, serpentes e lagartos), eram na realidade Procolophonichnium nopcsai (terápsidos, também antecessores a mamíferos) e Batrachichnus salamandroides (anfíbios similares a sapos e salamandras).
Junto disso, descobriram que essas espécies tiveram uma presença muito mais duradoura do que previamente assumido, indo do Período Capitaniano (de 265 a 259 milhões de anos atrás) até o final do Changhsingiano (de 254 a 251 milhões de anos atrás), possivelmente sobrevivendo além disso.
O pesquisador Murilo Andrade-Silva afirma que a partir dos estudos deles, eles esperam auxiliar outros pesquisadores, criando um parâmetro para comparação; assim facilitando a identificação de espécies e a seleção de hipóteses mais facilmente. Além disso, descobertas como essa ajudam a compreender mais sobre como era a fauna local do Paraná, assim como a ligação de nossas terras com outros continentes.
Como era o mundo na época?
No período Permiano, entre 270 e 255 milhões de anos atrás, o mundo era drasticamente diferente, e grande parte da flora e fauna que conhecemos estava longe de existir. Mamíferos ainda não existiam, porém seus antecessores, os cinodontes, já perambulavam a Terra; dinossauros só viriam a existir milhões de anos depois, e os famosos Dimetrodontes ainda estavam vivos. Plantas com flores, as angiospermas, ainda demorariam centenas de milhões de anos para surgir; enquanto isso as árvores coníferas estavam em seu auge, mas eram tremendamente diferentes dos pinheiros e araucárias a que estamos acostumados.
No Paraná, e no Rio do Rastro, os animais presentes eram primariamente anfíbios (como os donos das pegadas; assim como espécies similares a jacarés, os Australerpeton), moluscos como ostras (conhecidos como bivalves), e peixes. Sabemos disso devido ao acervo de fósseis resgatados na região, da mesma forma que sabemos que a formação estudada tinha rios de grande porte, solo composto de areia e florestas.
Porém, o Permiano também é conhecido pelo maior evento de extinção da história. Conhecido como “a Extinção do Permiano-Triássico” ou “a Grande Morte”, esse evento matou mais de 90% das espécies aquáticas do mundo, e 75% das espécies terrestres. O que se sabe sobre está extinção é que ela provavelmente foi causada pelo aquecimento global.
Existem algumas razões para essa elevação na temperatura, e Murilo Andrade-Silva, um dos pesquisadores envolvidos, afirma que a explosão populacional de alguns micróbios produtores de metano e diversas erupções vulcânicas ocorrendo principalmente na região da Sibéria que podem ter auxiliado no processo de extinção em massa no final do Permiano.
Com essa “Grande Morte”, a flora e fauna do mundo fizeram um “restart” (um recomeço), de acordo com Francischini. Com o colapso de diversas cadeias tróficas (ou cadeias alimentícias), os sobreviventes dessa extinção tiveram que recolonizar o mundo e se adaptar a suas novas condições. É a partir daí que muitos animais famosos vieram a surgir, como os dinossauros.
Os pesquisadores
Os pesquisadores da Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS) que realizaram a descoberta não são nem do Rio Grande do Sul, nem do Paraná. Mas seus estudos os tornam intimamente relacionados com esses estados.
Um dos pesquisadores é Murilo Andrade Silva, de 31 anos de idade, nasceu em Blumenau, Santa Catarina, e desde cedo teve uma forte preferência pela paleontologia; sua infância foi repleta de livros, filmes e outras formas de mídia sobre dinossauros. Quando começou seu ensino superior, decidiu cursar Ciências Biológicas na Universidade Regional de Blumenau, e lá conheceu um veterano de seu curso que o apresentou ao Laboratório de Paleontologia da instituição.
Assim, Andrade se aprofundou na área, trabalhando com fósseis, indo a campo, e auxiliando professores; e eventualmente começou um mestrado na UFRGS, porém teve que continuar em Blumenau pela grande maioria do programa, devido à pandemia de COVID-19. Finalizando essa etapa, em 2023, o acadêmico entrou para o programa de doutorado da UFRGS, assim começando a pesquisa sobre os icnofósseis.
Seu colega Heitor Roberto Dias Francischini, de 37 anos, teve um trajeto igualmente associado à paleontologia. Nasceu em Araraquara, no interior de São Paulo, onde existem diversas pedreiras de arenito; coincidentemente existem diversos icnofósseis nas formações de arenito da região. Devido a isso, muitas das lajes produzidas nas pedreiras e utilizadas nas calçadas da cidade contêm rastros de criaturas que viveram milhões de anos no passado, fato que influenciou Francischini profundamente na época, criando uma curiosidade inquieta.
Seguindo esse interesse, Roberto Dias entrou na Universidade Federal de São Carlos para cursar licenciatura em Ciências Biológicas em 2006, e mudou-se para Porto Alegre em 2012 para entrar na UFRGS para a Pós-Graduação, Mestrado e eventualmente Doutorado em Geociências na área de Paleontologia. Além disso, fez o Pós-Doutorado e conseguiu uma vaga de professor na Universidade; passou pelo Museu de história natural do Novo México onde fez seu doutorado sanduíche, e pela Universidade Federal do Rio Grande onde foi professor substituto.
Serviço
As descobertas dos pesquisadores estão presentes no Museu de História Natural da UFPR, enquanto outras descobertas feitas por Murilo Andrade-Silva, Heitor Francischini e outros de seus colegas, podem ser encontradas no Museu de Paleontologia da UFRGS.
UFPR
Local: Setor de Ciências Biológicas – Piso Térreo
Endereço: Av. Coronel Francisco Heráclito dos Santos, 100
Contato: [email protected]
(41) 3361-1645
Aberto de segunda a sexta-feira, das 09h às 12h e de 13h30 às 17h30, exceto feriados.
Entrada gratuita
UFRGS
Local: Museu de Paleontologia Irajá Damiani Pinto
Endereço: Avenida Bento Gonçalves, 9.500
Contato: [email protected]
(51) 3308-6785
Das 9h às 12h e das 14h às 17h, de segunda-feira a sexta-feira.