Um diretor de colégio estadual em Foz do Iguaçu fez ataques homofóbicos e ameaças a um líder estudantil dentro de sala de aula, um dia após a comunidade discutir a votação do programa Parceiros da Escola, retomada pelo governo Ratinho Junior (PSD) para esta segunda (17) e terça (18). A nova rodada ocorre mesmo após o modelo ter sido rejeitado pela maioria das escolas no ano passado e coincide com o avanço da ampliação dos colégios cívico-militares no Paraná.
A fala, registrada em áudio por alunos do 2º ano, expõe a reação do diretor Antônio Osmar, do Colégio Estadual Cataratas do Iguaçu, às críticas feitas na assembleia da véspera. No áudio, ele se refere ao ex-presidente do grêmio, Eduardo Procópio, com uma série de insultos: o chama de “marica”, afirma que o jovem “não é homem” e completa: “Se fosse homem, eu chegava e metia a porrada”.
Em seguida, utiliza insinuação sexual para desqualificar o estudante: “Ele não tem nem o * pra dar. O que ele tem pra dar, eu não quero”. Também o chama de “mau aluno” e “encrenqueiro”. Diante da turma, o diretor diz que irá processá-lo e afirma ter avisado a polícia para impedir sua entrada no colégio: “Se ele entrar, vai ser preso”.
Os ataques ocorreram após o discurso de Eduardo na assembleia do dia 12, convocada para tratar da retomada das consultas do programa Parceiros da Escola. Integrante da União Paranaense dos Estudantes Secundaristas e do coletivo Para Todos do Paraná, ele criticou o edital por restringir a participação da comunidade e relatou que representantes do Núcleo Regional de Educação deixaram a reunião sem responder às perguntas.
Eduardo também citou dados do Ideb para contestar o modelo cívico-militar implementado pelo governo do estado. Ao mencionar o suposto apoio de Antônio ao projeto, elevou o tom e o chamou de mau caráter, sendo aplaudido pelo público presente, conforme imagens registradas pela comunidade. “É direito de vocês elegerem diretores. (…) Isso é falta de caráter. (…) Eu sempre gostei muito do Antônio, mas isso não me impede de dizer: mau caráter. É isso que ele é”.
No dia seguinte, o diretor foi a uma turma do 2º ano para responder às críticas. “A minha opinião não muda o meu caráter. (…) Caráter não tem nada a ver com opinião. (…) Ele falou do meu caráter, e aí ele vai ter que provar que eu sou mau caráter”, disse na fala gravada pelos estudantes.
Procurado pela reportagem, Antônio afirmou não se lembrar de parte das expressões que constam na gravação e disse ter reagido no “calor do momento” às críticas da assembleia. “Eu não fui feliz. Estava com a cabeça quente, fui ofendido, me senti injustiçado. Era um momento de mágoa mesmo”, justificou.
Sobre a restrição à entrada de Eduardo no colégio, voltou atrás e disse que o ex-aluno poderia entrar caso seja representante de entidades estudantis, conforme orientação do Núcleo Regional de Educação. Ele também afirmou estar pronto para responder pelo inteiro teor de sua fala e confirmou que registraria boletim de ocorrência contra Eduardo: “Estou fazendo agora”.
Depois de ouvir os áudios, Eduardo informou ter sido orientado a levar o caso ao Ministério Público do Paraná e questionou o modelo de educação anunciado por Ratinho Junior como o melhor do país. “Os ataques contra mim serão levados ao MP. Se um diretor civil, com carreira em uma escola pública, fala isso publicamente sobre um ex-aluno, ou se fosse sobre um aluno, como é que o setor privado, ou militares, sem qualquer formação pedagógica, vão tratar os estudantes dentro das escolas cívico-militares?”, finalizou.
Até o momento, a Secretaria de Estado da Educação (SEED) não se manifestou sobre o caso.