A paranaense Gleisi Hoffmann (PT) assumiu o Ministérios das Relações Institucionais com uma missão espinhosa: tornar menos tensa e mais produtiva a relação do Palácio do Planalto com o Congresso em um momento particularmente delicado: de um lado, pesquisas registram uma curva descendente nos índices de avaliação do governo.
De outro, a extrema-direita segue articulando, abertamente, a retomada da elegibilidade do genocida, disfarçada de uma “anistia ampla, geral e irrestrita” para os golpistas do 8 de janeiro de 2023. E conspira contra os interesses brasileiros, apesar do verniz conveniente do patriotismo, ao ponto de pedirem, sem nenhum pudor, que o autocrata do Norte intervenha no país, já que os milicos daqui falharam miseravelmente ao tentarem.
Não tenho competência para avaliar se Gleisi reúne ou não as condições necessárias à difícil empreitada. Mas na cerimônia de posse da nova ministra, quarta-feira (12), Lula deixou claro um dos motivos para sua escolha: com uma “mulher bonita” no cargo, ele pretende estreitar sua relação com o Congresso, tornando mais fácil o diálogo com as lideranças parlamentares.
A fala repercutiu, e nem podia ser diferente: ela é machista e infeliz, para dizer o mínimo, e o fato de Lula a ter proferido em uma cerimônia oficial só piora o que já começou ruim. Claro, teve gente que passou pano, porque quando se trata de Lula qualquer crítica é “fazer o jogo da direita”. Afinal, Lula está certo mesmo quando está errado.
Mas, felizmente, parte da esquerda não perdeu o senso crítico nem a independência: muitos de nós votamos em Lula, principalmente para frear e enfrentar o avanço da extrema-direita e do reacionarismo. E assim como reconhecemos os avanços, temos o direito – o dever, diria – de criticá-lo sempre que preciso.
Um breve parênteses aqui
O que diferencia a crítica legítima e necessária a um governo que ainda se considera progressista, do oportunismo da extrema-direita é que, do lado de cá, reconhecemos que os equívocos do atual governo não o igualam ao desgoverno do genocida.
Do lado de lá, pelo contrário, enquanto chafurdam nos improvisos lamentáveis de Lula, silenciam, por exemplo, sobre o fato de que Tarcísio de Freitas, o “bolsonarista moderado”, congelou praticamente toda a verba de São Paulo destinada ao combate à violência contra a mulher, que cresceu exponencialmente no estado.
Fecha parênteses.
Volto à fala de Lula porque ela não é apenas a prova de que a retórica improvisada do presidente, em outros tempos capaz de empolgar multidões, já não é a mesma. Tampouco um sintoma geracional: afinal, aos 78 anos, dizem, é inevitável que Lula deixe escapar, aqui e acolá, conceitos e valores que, talvez “normais” em algum lugar do passado, já não caem bem no mundo de hoje.
Uma esquerda reativa
Tudo isso é verdade, reconheço.
Mas esses particularismos não me interessam, na medida em que são, também, indícios de algo maior, mais complexo e preocupante: não é apenas Lula, como liderança, que falha em se comunicar com seus eleitores. Mas é a esquerda que parece ter perdido a capacidade de pautar o debate público, só exercendo algum protagonismo quando reage e mimetiza, intencionalmente ou não, as práticas e o discurso da direita.
Foi assim quando, há algumas semanas, ministros e parlamentares da base governista ornaram suas cabeças com um boné em que se lia a inscrição “O Brasil é dos brasileiros”, uma resposta ao boné da campanha de Trump, com o qual deputados de extrema-direita circularam pelos corredores da Câmara alguns dias antes.
Uma patriotada, e vou ser muito gentil agora, desnecessária.
A própria fala de Lula sobre Gleisi foi motivada por outra, essa do próprio miliciano: a de que mulheres petistas “não são comíveis”. O comentário do inelegível é grotesco, mas esperado de alguém que considero estupro merecido, se a mulher for bonita, e se gaba de ter “rolado um clima” com menores de idade. Mas não se responde a um escroto descendo ao mesmo nível dele.
Minimizar o problema, ou simplesmente varrê-lo para debaixo do tapete, não o elimina.
Pior: colabora para recrudescer a sensação de que uma parte significativa perdeu o prumo depois que Lula foi, finalmente, colocado em liberdade. Como se, nos últimos anos, a única bandeira realmente importante, capaz de fazer a esquerda hegemônica levar as pessoas às ruas e mobilizar os movimentos sociais, tenha sido o “Lula livre”.
Não apenas a esquerda abdicou do enfrentamento e da ousadia corajosa e criativa que foi, durante muito tempo, uma de suas principais características. Ela se acomodou no papel de gestora da normalidade e defensora das instituições, exibindo pequenos ganhos como se fossem grandes vitórias e abdicando do seu potencial de “capitalizar a indignação”, quer dizer, de nos oferecer algo mais que o crescimento do PIB.
E como tragédia pouca é bobagem, parte do campo progressista está disposta a sacrificar corpos precários e vulneráveis no altar da conciliação com o fundamentalismo religioso, movendo uma campanha insana e estúpida contra os “identitários”, responsabilizando-os pela baixa adesão à esquerda e a rejeição ao governo.
É a mesma esquerda que, em 2013, a reconhecer a legitimidade e a importância das manifestações de junho, preferiu reduzir uma mobilização democrática e libertária à “antessala do fascismo”, enquanto acomodava nos gabinetes ministeriais, e turbinava o poder e a influência, de pastores da IURD e lideranças do PL e do Centrão.
Em um comentário a uma publicação da vereadora Professora Angela (PSOL), sobre o assunto, alguém escreveu que “Mulher petista é bonita e comível. Lula lacrou ao calar o Bolsonaro”. Mas Lula não lacrou, pelo contrário. Além de machista, a frase só mostra que, mesmo inelegível e quase condenado, Bolsonaro segue pautando o governo. E, parece, parte da esquerda também.