Este pequeno ensaio nasce de um mal-estar relacionado com a naturalização, nos mais variados círculos pessoais ou políticos, de acusações formuladas sem a necessidade de elementos mínimos capazes de comprovar a hipótese atribuída a uma pessoa ou que não fornecem oportunidade de refutação.
Acusar o outro tornou-se uma prática comum. Tão comum que raramente nos perguntamos o que move quem acusa, a que interesses essa acusação serve e quais os efeitos que ela produz, independentemente de ser verdadeira ou falsa. Em nosso livro Denuncismo: ódio e ressentimento na era do linchamento moral, lançado pela Editora Da Vinci Livros, propomos um deslocamento de olhar: em vez de fixar a atenção no acusado e no fato que lhe é atribuído, voltamo-nos para o acusador e para a lógica que move o ato de acusar.
Denuncismo não é o mesmo que denúncia legítima. Quem comunica uma violência, uma irregularidade ou um abuso pratica um ato de proteção, válido e necessário. O denuncismo é outra coisa, é a atribuição de crimes, condutas ou qualidades negativas a alguém sem individualização adequada, sem provas e sem espaço para refutação. É a acusação que dispensa a verdade porque já chegou à conclusão antes de investigar. E, é importante dizer, uma acusação pode ter algum fundo de verdade e ainda assim ser denuncismo, quando ignora formas, contextos e a dignidade do acusado.
O fenômeno não é novo. A história registra seus antecedentes em lógicas persecutórias que sustentaram a Inquisição, o antissemitismo, o macarthismo, a islamofobia e o racismo. Em todos esses casos, o mecanismo é o mesmo: acusa-se sem que o acusado tenha meios reais de se defender, e a sanção social precede qualquer verificação dos fatos.
As redes sociais transformaram o denuncismo em espetáculo instantâneo, com velocidade e escala. O algoritmo amplifica o escândalo e a lógica da plataforma, que premia o engajamento emocional, favorece a indignação sobre a reflexão. Nesse ambiente, o linchamento virtual não é uma distorção do denuncismo, é sua forma mais acabada. Basta observar o que ocorre nos ciclos de cancelamento que se repetem com frequência crescente na vida pública brasileira. Figuras de todos os campos são acusadas, julgadas e condenadas pelo tribunal das redes em questão de horas. Às vezes a acusação tem base real, às vezes é parcial, descontextualizada ou diretamente falsa, e o acusado raramente tem espaço para se explicar antes que a sentença coletiva seja executada. Isso ocorre porque o denuncismo não depende de provas para funcionar. A acusação não precisa ser julgada, ela precisa circular e, nas redes sociais, a circulação é a condenação. O algoritmo não distingue o verdadeiro do falso; distingue o que provoca reação do que não provoca. Uma acusação grave, ainda que sem fundamento, gera mais engajamento do que qualquer desmentido posterior. Por isso, a retratação nunca alcança o mesmo público que a acusação original. O linchamento já cumpriu sua função.
Esse fenômeno tem uma economia própria, e esse é um ponto central do argumento que desenvolvemos no livro. No capitalismo, até as causas morais viram mercado. Uma acusação bem posicionada pode render capital simbólico, visibilidade, vantagens na disputa por espaços e posições. O denuncismo funciona como instrumento de concorrência disfarçado de indignação ética: o ganho do acusador frequentemente exige a perda, ou a eliminação, do acusado. Estamos diante de uma economia do sofrimento alheio, na qual acusar pode ser, objetivamente, um bom negócio.
Isso não significa que por trás de toda acusação haja cálculo frio e consciência plena. Há, também, uma dimensão psíquica relevante. Quem denuncia de forma abusiva frequentemente projeta no outro aquilo que recusa reconhecer em si mesmo: o ressentimento, o medo, a frustração, os desejos mais reprimidos. Ao lançar sobre o outro a marca da culpa, o acusador se absolve de seus próprios defeitos e se coloca no lugar confortável de quem “fez sua parte” como “pessoa de bem”. Como no racismo, não se reage a uma diferença objetiva: constrói-se ativamente uma diferença para justificar a exclusão. “Nós” somos diferentes “deles”. E essa diferença precisa ser punida. Por isso, ao examinar um caso de denuncismo com atenção, aprende-se mais sobre o acusador do que sobre o acusado. A acusação carrega os filtros, os ressentimentos e as ambições de quem a formula. Ela revela o mundo interior de quem acusa e não necessariamente a realidade de quem é acusado.
A sanção social que acompanha o denuncismo (a destruição da reputação, o cancelamento, o linchamento virtual) reproduz uma lógica tipicamente religiosa: responde a um pecado que precisa ser expiado, não à identificação racional de uma conduta concreta. Não há proporcionalidade, não há gradação, não há possibilidade de redenção. O acusado é reduzido à sua suposta falta e expulso do convívio social como se fosse possível purificar a comunidade ao eliminá-lo.
Uma advertência é necessária, porque invariavelmente surge quando se tenta racionalizar esse fenômeno: a de que se está “passando pano” para alguém. Não é isso. O que se propõe aqui não é a defesa de culpados, a minimização de injustiças reais ou o silêncio diante de abusos concretos. Denúncias legítimas (aquelas que respeitam o contraditório, que se amparam em elementos verificáveis, que oferecem ao acusado a oportunidade de se defender) são não apenas válidas, mas indispensáveis à vida democrática. O problema é quando a indignação legítima é sequestrada por uma lógica punitiva que prescinde da verdade. É quando acusar vira negócio, espetáculo ou instrumento de eliminação do adversário. É quando a presunção de inocência é descartada em nome de uma superioridade moral que não admite questionamento.
Compreender o denuncismo é, portanto, uma tarefa democrática. Enquanto a equação “acusar = punir” seguir operando sem resistência (nas redes, nos ambientes de trabalho, na política), qualquer um pode ser o próximo a ser julgado antes de ser ouvido. Em uma sociedade fragmentada, na qual o outro é cada vez mais reduzido a inimigo a ser neutralizado, desvelar os mecanismos que alimentam a paixão por acusar é condição para que possamos, ainda, construir algo parecido com um espaço público digno desse nome.