A América Latina apresenta muitos pontos em comum no que concerne à formação de cenários fascistas antidemocráticos protagonizados pela extrema direita. O caso brasileiro, em razão da importância geopolítica desse país, pode servir de uma lente de aumento para entender a onda conservadora, o surgimento da alt-right, o crescimento dos populismos de direita e da trumpização da política no sul global. Assim, por exemplo, no Brasil, a ruptura com as “regras do jogo democrático”, necessária para o impeachment da ex-presidente Dilma Rousseff e a prisão de Lula da Silva, pode ser apontada como determinante à ascensão eleitoral do Bolsonarismo, principal manifestação da extrema direita no Brasil. A eleição de Jair Bolsonaro pode ser apontada como o resultado do “monstro caótico e amorfo” criado para derrubar um projeto político comprometido com a democracia.
Dois fenômenos favoreceram o crescimento dos movimentos da nova direita brasileira: a tradição autoritária em que está lançada a sociedade brasileira (crença no uso da força, desconfiança do conhecimento, submissão autoritária, pensamento estereotipado, preocupação com a sexualidade alheia etc.) e a hegemonia neoliberal, compreendida como um certo modo de compreender e atuar no mundo que trata tudo e todos como negociáveis a partir de cálculos de interesse que visam algum tipo de lucro. Como em todo movimento que busca a destruição política dos adversários e a dominação econômica de um país, para alcançar o objetivo visado foi necessário produzir uma nova realidade (simbólico + imaginário), uma nova trama envolvendo a mutação do simbólico e o empobrecimento do imaginário, com a introdução de novas ideias e de novos valores que serviram para legitimar e justificar a substituição de um governo democrático e de um projeto político comprometido com a redução das desigualdades por outro.
A crise da democracia, em grande parte, é o resultado da reaproximação pornográfica entre poder político e poder econômico, que levou à instabilidade e à desconfiança com as instituições democráticas que passam a ser percebidas como instrumentos a serviço dos detentores do poder econômico. A lógica da concorrência, por sua vez, que passou a reger as relações entre as pessoas, fez com que os oprimidos passassem a identificar outros oprimidos como concorrentes ou inimigos que deveriam ser vencidos ou neutralizados.
No Brasil, os governos protagonizados pelo PT, entre erros e acertos, haviam conseguido implementar políticas públicas que levaram à redução da desigualdade no Brasil e produziram um relativo distanciamento entre o poder político e o poder econômico. Em um primeiro momento, o sucesso popular do governo do PT foi inegável. O então presidente Lula da Silva chegou ao final de seu segundo mandato com a aprovação de 83% dos brasileiros, segundo pesquisa de opinião realizada pelo IBOPE. Não por acaso, o PT venceu quatro eleições presidenciais seguidas.
A reconfiguração social brasileira, com a diminuição da miséria e a melhoria da condição de vida de parcela considerável da população, em especial das camadas mais pobres, gerou forte reação da classe média brasileira, que acreditava ter seus “privilégios” ameaçados pela ascensão das camadas populares. Vale lembrar que a classe média brasileira foi, recentemente, definida por uma importante filósofa brasileira como “uma abominação política, porque tendencialmente fascista; uma abominação ética porque é violenta; e uma abominação cognitiva porque é ignorante” (Marilena Chauí).
De igual sorte, as políticas do governo do PT direcionados à redução das históricas desigualdades de gênero e de raça geraram para parcela do proletariado brasileiro, formada por homens brancos pobres, o medo de perderem os seus únicos “privilégios”, a saber: o fato de serem homens e brancos em uma sociedade secularmente racista e sexista. Aliás, como em diversas partes do mundo, o fortalecimento da extrema direita está ligado à manipulação do medo e do ressentimento da população. Por fim, uma multidão de novos consumidores, favorecida pelas políticas de inclusão social implementadas pelo PT, passou a efetuar novos cálculos de interesse tipicamente neoliberais, em uma espécie de mimetismo com a classe média tradicional (conservadora, racista, patriarcal etc.), e passou a rejeitar as políticas de redução da desigualdade.
Some-se a isso as campanhas produzidas nos meios de comunicação hegemônicos e nas redes sociais contra as pautas de esquerda e as principais lideranças do PT. Em uma sociedade autoritária como a brasileira foi fácil, por exemplo, apontar a defesa dos direitos humanos, promovida pelo governo do PT, como a causa do aumento da violência urbana.
Nesse contexto, não só foi possível o golpe parlamentar-midiático contra a ex-presidente Dilma Rousseff, como também um processo judicial atípico, regido pela lógica do espetáculo, que acabou levando Lula da Silva à prisão. Com Lula da Silva impedido de concorrer e o massacre midiático das alternativas de esquerda, foi possível a eleição de Jair Bolsonaro, que fez um governo voltado, por um lado, à satisfação do poder econômico e, de outro, ao atendimento das pautas dos setores mais extremados da população. Com a derrota eleitoral, restou ao grupo político de Bolsonaro investir em uma nova ruptura das regras do jogo democrático, o que resultou na tentativa frustrada de golpe de Estado em janeiro de 2023.
O governo Bolsonaro foi um exemplo evidente de uma governamentalidade neoliberal autoritária e foi justamente a natureza neoliberal de suas opções políticas que potencializou o mal-estar social brasileiro, com o aumento do desemprego, a destruição de políticas sociais voltadas às camadas mais vulneráveis da população e a redução drástica do investimento em cultura, educação e saúde, que, em específico, ficou extremamente acentuada durante a pandemia de COVID-19 devido à grave omissão da administração do governo Bolsonaro. Além disso, o discurso autoritário de Jair Bolsonaro e o uso de linguagem violenta autorizaram ações extremistas contra seus opositores políticos e contra populações vulnerabilizadas.
Foi o desejo de reduzir a “mão esquerda do Estado”, para se utilizar da boa metáfora de Bourdieu, que levou, por exemplo, à ruptura do compromisso com a racionalidade e com a verdade. No lugar de explorar politicamente os erros, as contradições e as omissões do governo democraticamente eleito, a oposição preferiu apostar na desconstrução da imagem das lideranças de esquerda a partir do reforço de preconceitos e de tendências autoritárias presentes na sociedade brasileira. Mentiras, falsas informações, ataques de ódio (com destaque para a misoginia e para o racismo) e outras ações irracionais pontuaram as manifestações populares que retratam o momento de ascensão dos grupos de extrema direita em forças políticas relevantes no Brasil. Acompanhar a história dos movimentos de extrema direita no Brasil, que nunca deixaram de existir, permite afirmar que, sem o apoio de grupos econômicos que desejavam impedir a continuidade do governo do PT, os grupos extremistas de direita nunca teriam se tornado eleitoralmente relevantes.
A extrema direita brasileira, como se viu, ganhou a adesão significativa de parcela da classe média incomodada com a perda de privilégios econômicos e culturais, de intelectuais que se sentiram desprezados durante o governo petista, do “rebanho neopentecostal” orientado por pastores ligados a projetos político-partidários e, principalmente, de pessoas brancas das classes populares (segmento que costuma ser designado pejorativamente de white trash) que acreditavam estar perdendo, em razão das políticas afirmativas adotadas pelos governos do PT, o privilégio que o racismo brasileiro lhes assegurava. Essa união inédita entre grupos econômicos, corporações, indivíduos, ódios e ressentimentos populares foi construída a partir de uma linguagem empobrecida e de uma visão simplificada do mundo. A “simplificação” do mundo, aliás, é uma característica da racionalidade neoliberal, esse modo de ver e atuar no mundo que trata tudo e todos como objetos negociáveis/descartáveis. É o desejo por visões simplificadas da realidade que explica, em certo sentido, o fortalecimento sob a égide neoliberal de fundamentalismos religiosos e de projetos políticos reacionários, nos quais se buscam a segurança (“simples” e “transparente”) de um Deus, que tudo ordena e simplifica, ou de um passado mítico, idealizado, transparente e sem dificuldades.
Ao lado do rebanho neopentecostal, as corporações policiais e militares apareceram como as principais responsáveis pela adesão popular ao projeto de extrema direita. Entre militares, policiais e seus familiares prevalece uma leitura da história ideologicamente enviesada, que percebia o golpe de Estado de 1964 e a violência dirigida aos opositores do regime militar como ações necessárias contra a ameaça comunista aos valores cristãos e à família brasileira. Para esse grupo de pessoas, o futuro tem que ser construído à imagem e semelhança dessa visão distorcida de passado, na qual os direitos fundamentais são percebidos como obstáculos à eficiência do Estado e o recurso tendencialmente ilimitado à força é o único meio conhecido para o exercício do poder.
Apesar da derrota eleitoral do bolsonarismo, a ameaça da extrema direita no Brasil parece longe de acabar. O bolsonarismo continua a contar com apoio popular e é financiado por importantes setores econômicos, em especial o agronegócio. Felizmente, essa coalizão de forças e perspectivas tão díspares que compõe a extrema direita brasileira não conseguiu apresentar uma estrutura estável, um projeto político coerente ou um nome de consenso para concorrer nas próximas eleições presidenciais, já que sua principal liderança (o ex-presidente Jair Bolsonaro) está inelegível.
Os interesses antagônicos no interior da extrema direita são muitos e, alguns, evidentes. Como conciliar interesses nacionalistas de parcela das forças armadas (que foram chamadas para conter os “indesejáveis” às lentes dos ideólogos neoliberais) com os desejos das grandes corporações internacionais? Como compatibilizar os interesses dos empresários produtivos (em especial, do agronegócio) com os da burguesia bancária? Como reduzir a carga de impostos, se há a necessidade de um Estado forte tanto para conter os pobres e os inimigos políticos do projeto de acumulação ilimitada neoliberal quanto para resgatar as instituições bancárias das crises que elas mesmas geram ao emprestar dinheiro que não possuem e que sabem (ou deveriam saber) que não poderá ser devolvido? Há, portanto, esperança de frear a extrema direita. A questão é outra: aprendemos com o passado para evitar a reprodução do caos autoritário no futuro? E ainda mais: existe vontade política para romper com a falta de limites neoliberal e construir uma verdadeira cultura democrática, aberta ao outro do conhecimento e ao outro da diversidade?