Um dos memes que mais me atraiu nos últimos anos foi um bem simples: um sujeito aguarda alguém num aeroporto com uma placa com o dizer “Godot”. É bem possível que se conheça mais um detalhe da peça de Beckett do que exatamente a peça toda, mas claro que “Godot” entrou para a história da literatura ao menos como uma referência ou uma piada. Tanto já foi dito sobre essa peça, que “Godot” seria “Deus” ou até mesmo um “ponto final” ou a mistura de ambas as coisas (deixo para a imaginação de cada um), mas fato é que a espera, creio, já possa ser considerada como um dos grandes temas da literatura, nas mais variadas leituras e afrontamentos, desde Penélope até os dias atuais, quando a espera se mescla ao desamparo trazido pelo universo capitalista, passando pelo magnífico – e ao mesmo tempo obscuro – poema de Kaváfis: À espera dos bárbaros.
No texto anterior, eu comentei que livros pequenos (em tamanho) acabam por se transformar em monumentos literários ao longo dos tempos. Depois pensei novamente no que seria verdadeiramente um livro pequeno – e isso tem muito a ver com o mercado editorial. Se hoje, está na moda publicar livros com mais ou menos 100 páginas, já foi moda publicar livros com 200, com 500, com mil. Já ouvi jovens orgulhosos de si mesmos por terem vencido um livro com 120 páginas e já ouvi de leitores muito experientes louvores a si mesmos por terem conseguido ler, por exemplo, as 900 páginas de As benevolentes. Nem falarei daqueles imensos ciclos franceses de milhares de páginas ou de textos sagrados igualmente com milhares de páginas...
As experiências de leitura (falo da leitura em si, do ato de ler) variam de leitor para leitor e de livro para livro. Já ouvi leitor descrevendo a rapidez com que leu Os miseráveis, porque, fato, a leitura flui muito facilmente, e esse mesmo leitor reclamando da dificuldade que teve ao ler Concerto Barroco, de Carpentier, que é de fato um livro “difícil”, principalmente na língua original, por mais próxima que possa ser do português.
Pensando sobre isso, sem grandes descobertas ou sustos, caiu-me às mãos novamente Zama, de Antonio Di Benedetto. Tinha lido o livro quando saiu um filme baseado nele, escrevi umas palavrinhas para os amigos, mas agora quis olhar mais de perto o livro, durante muito tempo tido como pequeno, em tamanho e forma, e mesmo desprezado naqueles compêndios e listas de “os melhores romances disso ou daquilo”.
Não é nem uma coisa nem outra. Talvez fosse interessante compará-lo com obras, senão similares, que permitam uma aproximação: O deserto dos Tártaros, de Dino Buzzati, e À espera dos bárbaros, de J. M. Coetzee.
Há mais ou menos 50 anos, Saer escreveu um texto à guisa de introdução a Zama que carrega alguns equívocos: primeiro, tentar afastá-lo do que se convencionou chamar “romance histórico” depois de Lukács (o romance dito histórico ganhou roupagens interessantíssimas no mundo hispânico); depois, tentar aproximá-lo do existencialismo à Camus e à Sartre. Outro erro lastimável de Saer, comum a muitos sul-americanos de expressão espanhola, é ignorar a literatura brasileira (no Chile, recentemente, li vários autores locais a tratar a literatura latino-americana como hispano-americana... como se não existisse uma literatura brasileira, também latina).
Igual e levemente irritante é crer que toda literatura fantástica/mágica do continente seja uma literatura de fuga, reclamando para ela um engajamento que ele, Saer, e outros, acredita(m) que ela não tenha. Quanto mais Saer diz isso, mas a leitura atual de Zama faz crer que o livro se distancia dos existencialistas e se aproxima da tal literatura histórica e de escritores fantásticos, como Márquez e Carpentier. Mas não que não tenha conseguido mesclar uma coisa à outra e isso por si só — ao mesmo tempo que prova mais uma vez que o romance pode mesclar coisas aparentemente antagônicas, ou díspares — já é razão para uma leitura atenta de Zama. A primeira publicação foi feita em 1956. Neste período, Carpentier estava repensando o que seria uma literatura fantástica e o que seria uma literatura colonial, papo sério para outro dia. Vários escritores latino-americanos, como ele, tinham ido à Europa nesse mesmo período e, lá, tido contato com pensadores, escritores, artistas, ligados – com laços mais fortes ou mais sutis – com o surrealismo, o existencialismo, entre outras correntes discursivas e de práticas. Vale lembrar que o universo dos anos 1950, diferentemente do de hoje, precisava de um contato “direto”. Hoje, acessamos tudo de longe.
Já a contaminação por Borges ou Dostoiévski fica na imaginação de quem escreve isso. Bem; mas se alguém me provar, ficarei feliz. É muito comum no mercado editorial esse tipo de comparação: todo mundo lembra Kafka, Borges, Dostoiévski ou Beckett. Basta uma atmosfera estranha, um parágrafo hipnótico, uma descrição mais precisa. (No caso de Borges, eu acho que ele está em todo lugar mesmo, mais isso é papo para meu analista e não para esta coluna.)
De todo modo, há meio século entre nossa leitura e a pena de Saer… isso explica muita coisa, inclusive novos discursos e novas abordagens sobre essa literatura toda.
Seja como for, Zama é um livro estranho e pouco valorizado mesmo. Ele faz 69 anos em 2025. Saer acerta, porém, ao dizer que Di Benedetto foge ao lugar comum da literatura sul-americana dos anos 1950 — e esse mérito não podemos tirar dele. Outra estranheza (que talvez tenha um eco do Buzzati de Deserto dos tártaros, de 1940) é o motivo que levou Di Benedetto a colocar sua personagem no século XVIII e não nos dias atuais ou, como o fez magistralmente Yourcenar, no século II ou no XVI. Dos três livros que citei acima, é o único em que a personagem está num lugar histórico bastante preciso: Assunção, entre 1700 e 1799. Imagine viver num lugar, que é a margem da margem, margem das grandes cidades espanholas, como Cuzco e Cidade do México, por sua vez margens das grande Espanha. Muitos estudiosos observam, porém, como a linguagem do livro é artificial, uma paródia da linguagem que deva ter existido no século XVIII no universo hispano-americano, mas é justamente essa paródia que faz o livro crescer. Paródias e pastiches têm suas complexidades de escrita, e aqui temos um livro profundamente filosófico sobre a solidão, a espera vã e o sentido mesmo da vida.
A situação da linguagem de Zama merece atenção redobrada: enquanto Carpentier fuça no interior do espanhol e cavouca lá uma linguagem específica para um imaginário histórico (uma situação histórica que nunca existiu, mas repleta de maravilhamentos), enquanto Márquez procura lá no interior do espanhol uma linguagem própria e inusitada, Di Benedetto insinua-se no caminho oposto. Afora alguns vocábulos e pequenas estruturas linguísticas, Zama é de leitura tranquila para quem domina mal e mal o espanhol. Não que seja simples. É uma escrita burilada ou lapidada (escolha sua metáfora preferida aqui) e elegante. Aqui e ali me deu a impressão de ele ter seguido, de fato, o caminho oposto ao do Carpentier de Concerto Barroco. Se lá Carpentier usava algo próximo ao horror vacui, aqui Di Benedetto parece procurar algo não simples, mas simplório, evocando uma linguagem de um universo realmente à margem. Veja: nenhum linguista hoje diria que uma variação da língua é vazia ou com falhas. Não é a questão – e sim imaginar uma linguagem que servisse de alegoria ela mesma para o mundo que a faz possível.
São apenas algumas questões para quem deseja se aventurar a uma leitura mais profunda de Zama.
Em relação ao personagem e sua história, trata-se de um romance sobre a espera, uma longa e angustiante espera de um homem que trabalha para a corte espanhola no Paraguai e aguarda transferência para um local, como Buenos Aires. Curiosamente, o próprio Di Benedetto relevou uma vez que escreveu o livro em apenas um mês, “numa casa vazia”. É curioso observar que um livro sobre o vagar foi resultado de um processo tão intenso e rápido. Ele também disse que talvez por isso a linguagem (burilada como eu disse) seja tão direta e concisa. Essa personagem lembrará o Giovani Drogo na Fortaleza Bastiani e permitirá laços com a personagem sem nome de Coetzee lá em sua colônia de um império fictício.
Quinze anos antes (+ ou -), Buzzati tinha trazido a lume uma das obras mais desconcertantes do século XX, O Deserto dos Tártaros. E vinte e quatro anos depois, era a vez de Coetzee lançar seu À espera dos bárbaros. É bastante curioso ler essas três obras como um tríptico, um tríptico feito por três artistas distintos. Se Di Benedetto coloca seu personagem num contexto histórico preciso, os demais não o fazem. O autor italiano e o sul-africano preferem uma nuvem de mistério, o que transforma os livros em algo mais simbólico, mas não menos abrangente que Zama. Em comum, temos a espera, a monotonia, o pensamento sobre o inevitável, a morte, mesmo que o livro de Coetzee (que elogiou abertamente a grandeza de Di Benedetto e certamente alude a Buzzati, embora se refira diretamente ao famoso poema de Kaváfis, de mesmo nome) lide mais abertamente com situações como abuso de poder, os limites do imperialismo e a visão que temos do “outro”.
Esse “outro”, saibamos ou não quem ele é, nos constitui. Leia ou releia o poema de Kaváfis e pense sobre isso.
Sei que há muitas obras modernas sobre a espera e o vazio que ela traz, a melancolia da modernidade, questionamentos sobre o sentido da vida e também obras que discutem a violência do imperialismo. O leitor poderá, inclusive, discordar de mim sobre as aproximações possíveis entre essas obras. No entanto, chamo atenção para três livros de três escritores que trouxeram à luz no século XX o tema da espera, em lugares e situações (de escrita e de cenário) distintas.
Comparando com autores atuais, que lidam com o vazio melancólico da modernidade ou da pós-modernidade, temos situações similares. Seja em Paul Auster ou em Murakami, vemos o sujeito desamparado em grandes cidades, ou vitimados pela relação que têm com o mundo moderno, em particular o do trabalho.
Pensadores como Mark Fisher e Richard Sennett têm pensado as relações de trabalho na atualidade – sua extrema violência – e autores como Dominique Lecourt têm avaliado até que ponto podemos chegar quando o domínio da “técnica” é mais relevante que o próprio sujeito que o cria ou o domina. Desse modo, as obras de Di Benedetto, Buzzati e Coetzee podem ser lidas já com olhares novos, outras abordagens, como interessantes alegorias para a espera pós-moderna. Logo-logo falarei sobre Vincenzo Latronico.
P.S.: A adaptação do livro para o cinema tem direção de Lucrécia Martel. As traduções para o português brasileiro são de Maria Paula Gurgel Ribeiro (Di Benedetto), José Rubens Siqueira (Coetzee) e Aurora Fornoni Bernardini e Homero Freitas de Andrade (Buzzati). Sobre o poema de Kaváfis, há várias traduções, em diferentes momentos, tanto para o português brasileiro quanto para o de Portugal. Não conheço traduções feitas em outros países lusofalantes