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Ingo Schulze e “Celular”

O descompasso entre o desejo e a felicidade

Ingo Schulze e “Celular”
Foto: Divulgação
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Se quando o autor alemão, nascido em Dresden, surgiu havia algum interesse pelo seu “exotismo”, algo não deu certo. Explico: com a Queda do Muro, com o desabamento da Cortina de Ferra, com a dissolução da URRS e com novas guerras surgindo no horizonte europeu (o que foi a guerra dos Bálcãs?), algumas editoras resolveram apostar em autores que tinham crescido por detrás da cortina, que trouxessem o olhar de um sujeito que tinha crescido num ambiente “soviético” ou “socialista” (o sentido equivocado que esse adjetivo carrega em grande parte das vezes). Que fosse um dissidente – e houve vários –, mas nada melhor do que alguém que tivesse vivido os últimos segundos daquilo que trazia um ar de novos tempos ou, pior, de “fim da História”.

Porém, Schulze nem veio para trazer o exotismo da vida alemã “soviética” nem veio trazer obras que criticassem claramente o sistema soviético, a pobreza, a perseguição, a contradição da vida de castas numa sociedade dita “socialista”. Vários autores fizeram isso muito bem, senão na forma de literatura, em entrevistas, ensaios, crônicas, textos para jornal, grandes levantamentos históricos e documentais (enquanto escrevo, penso em autores tão distintos quanto Kadaré, Soljenistsin, Herta Muller – e temo que alguns tenham sido abordados pelo grande mercado editorial pelos motivos errados) e tais autores, representantes de uma “grande literatura” aqui e ali acabaram por servir de munição para os discursos ocidentais anti-URSS, antissocialismo, anticomunismo, etc. E Schulze, não. Talvez agora, muitos anos depois, o posicionamento de Schulze tenha mudado, mas “Celular” não é nada disso, nada do que esperavam as grandes editoras pró-OTAN. Ao menos, não diretamente.

Em paralelo – e isso é extremamente importante para um certo entendimento da obra dele – ele também não trazia aquela rica e trabalhada literatura de grandes nomes da expressão alemã, como Bernhard, Sebald, Grass ou Handke. Era o contrário: havia ali (ele cita, inclusive, com muito respeito, Grass) uma literatura aparentemente fácil, escrita num alemão acessível, com pinceladas da linguagem cotidiana, mas fundamentalmente uma literatura que lidava com temas “comuns”, e quase nada da Alemanha que muitos queriam ler sobre, até porque haviam criado uma expectativa sobre ela, de gente que passava frio ou fome, sem dentes ou sem acesso à educação culta, dividindo celas, casas ou uma maça. Não há nada disso, nem autocomiseração na escrita de “Celular”. E esse cenário, que parece feito em pastel, em nada lembrando o tom por vezes tenebroso das literaturas que aqui citei, engana. Ele também – e muito pelo contrário – nada tem de bonitinho, frágil ou romantizado.

O olhar de Schulze é para detalhes. Seja um objeto, uma animal, a casca de uma laranja. Seja a relação de um casal, seja a especulação imobiliária, seja o trabalho do escritor – vez por outra tratado, mesmo, como animal exótico, num circo. Schulze está mais para um documentarista do que para um investigador sociológico e essa é sua grande habilidade.  Ele mostra algo e diz “tire suas próprias conclusões” e o leitor que lute.

O nome do livro no Brasil talvez não revele a ironia que o nome em alemão traz: “Handy”, celular, mas também “aquilo que está à mão”. E há muita coisa à mão do olhar perscrutador de Schulze, a começar pelos objetos, incluindo o celular, substantivo que não apenas dá nome ao primeiro conto e ao livro e que aparece em outras narrativas do livro, como algo realmente à mão, sempre presente – e isso lá pelos idos de 1990 quando o celular não era nem sombra do que ele se tornaria um quarto de século depois. Aliás, a escrita de Schulze antevê muita coisa, mas já falo disso. (Em português, a palavra se tomada como adjetivo, pode trazer interessantes leituras, mas isso é outra história.)

São treze narrativas, entre curtas e longas, dos mais variados assuntos. Numa delas, o autor-narrador-personagem é convidado para ir à Estônia e lá escrever algo sobre o país. É um conto feito para ser engraçado – mas a ironia de Schulze é bastante melancólica. O conto chama-se “Nos confins da Estônia”. O autor e sua companheira (tomados ficcionalmente) passam por uma situação inusitada: um urso que tinha sido comprado a um circo falido, após a queda da URRS, é colocado numa floresta para ser caçado por turistas finlandeses. No momento da caça propriamente dita, o urso é visto tentando andar numa bicicleta roubada a uma camponesa local. A imagem é uma das mais impactantes do livro. Eu tinha dito acima que Schulze não era exatamente aquele escritor que escreveria sobre os dissabores de ter vivido atrás da cortiça de ferro. E não é. Mas ela lida com situações bastante soturnas do mundo que começa a surgir dali. Nesse conto, há alemães, estonianos, finlandeses e russos, cada um numa situação bastante incomum: o culto escritor e sua companheira desejando ardentemente que o urso fuja; finlandeses tentando burlar as novas leis de seu país, que proíbem a caça de ursos; estonianos tentando arrancar dinheiro da moeda mais forte do país vizinho; russos empobrecidos e já sem razão de existência vendendo o que sobrou, perambulando como ciganos... e o urso (um animal simbólico da Rússia, geralmente difundido em caricaturas, pois o animal heráldico da Rússia é outro), pobre, faminto, e “programado” para andar de bicicleta. No fim das contas, quem se dá bem é a dona da bicicleta, paga para não abrir a boca. O “pagamento” a uma lavradora estoniana, com o “novo” dinheiro da comunidade europeia é incrivelmente simbólico e revelador. E o urso continua, uma espécie de antevisão de Putin.

Já os contos “As confusões da noite de Ano-Novo” e “Uma noite com Boris”, que estão publicados um seguido do outro, poderiam ser lidos como uma só narrativa; aliás, eu aconselho ler “Celular” como um romance pós-moderno despedaçado, sendo cada conto o capítulo de um romance. Mas voltemos aos contos. A técnica – em particular em “Uma noite com Boris” – é a de várias histórias uma dentro da outra, mas não se trata aqui de uma boneca russa e sim de histórias sobrepostas como num caderno em que se desenham figuras que ficarão em movimento caso eu passe rapidamente as folhas, apertando com quatro dedos esse caderno e soltando as folhas com o polegar. Talvez mais esses contos que outros tragam a ideia que me veio à mente: a de que entre o desejo (de felicidade) e a felicidade (o que seria ela?) há um grande descompasso. Os contos lidam com pessoas, jovens casais (também em descompasso), pessoas que acabam de se encontrar num país, antes dividido em dois, com uma importante cidade dividida em duas, remodelado, pessoas que procuram estabilidade no casamento e no trabalho, etc., mas tudo isso serve de metáfora (ou seria metonímia?) para uma certa Alemanha. No primeiro conto, um casal acaba se casando efetivamente após muitos anos e após “descobrirem” que o antigo amor do rapaz era coisa do passado. Esse trisal é bastante curioso na construção artística de Schulze porque pode representar muito bem as duas Alemanhas e a URSS. Talvez não por amor, mas também por ele, o casal se ajeita, após rejeitar o passado, o passado de acontecimentos dramáticos e muito presentes na memória, mas já sem sentido, ao menos sem sentido prático.

 No segundo conto, a situação não é tão feliz: um amigo do casal, que sempre se envolvia com mulheres mais jovens, apresenta aos amigos uma menina, o que, a princípio, choca a todos. Mas essa menina não era sua nova companheira e sim uma filha que apareceu do nada: magra, pálida, jovem, no começo bastante tímida, depois falante. O sujeito tinha comprado um apartamento (os imóveis são uma presença marcante nessas narrativas, por motivos variados) e gasto muito dinheiro na reforma. Pai e filha poderiam morar nele, mas o pai morre e a filha, sem condições, precisa alugá-lo para pagar as prestações, antes que ela o perca. Não direi que Schulze faz novamente uma menção direta à situação da Alemanha, com um pai “que se deu bem na vida”, com uma filha magra, quase desnutrida, com a morte dele e a nova situação dela, mas isso é tentador. A Alemanha Ocidental “assumiu” a Alemanha Oriental, sabendo dos problemas que isso poderia causar, e não apenas o impacto na situação financeira da Alemanha Ocidental, muito rica. Os problemas advindos da unificação vão para além dos bancos, afinal, pois foram quase cinco décadas de separação – e muitas situações surgiram aí. Se os contos de Schulze podem ser lidos assim, como alegorias para seu país (eu diria “para seu novo país”), trata-se de um caminho bastante interessante de leitura. Mas tais relações não são mostradas de forma direta; então, há de se cavoucar o terreno.

A unificação das Alemanhas ocorre num mundo em profundo deslocamento. Não apenas a tecnologia avança a passos largos, mas uma nova ordem global – que tinha sido não modinha falar dela na época – parece realmente estar se definindo. Zona do Euro, Espaço Schengen (surgido em 1985), crescimento alarmante da influência chinesa do mundo, BRICS, Mercosul, aquecimento global, e tantas outras coisas, e não falo do crescimento vertiginoso do Dubai ou dos novos museus em Doha. Mas Schulze parece tratar das pequenas coisas – e tratando das pequenas coisas ele lida com as grandes. A antiga RDA vê o muro cair, mas, por assim dizer, encontra outros muros.

O sonho da unificação, da liberdade e da riqueza depara com um mundo que se transforma, na diminuição dos direitos trabalhistas, nas novas relações de trabalho advindas com o meio digital,  a situação dos emigrantes, a especulação imobiliária, entre tantas outras situações. As personagens de Schulze se perguntam: “era isso, enfim?” A pergunta pode ser dividida em duas: 1) “a felicidade com a qual eu sonhava era o consumo de bens, como um tênis americano, uma casa moderninha e um carro alemão ocidental?”; 2) “eu troquei o socialismo soviético para cair no capitalismo ordoliberal?” . Nem falarei da uberização e da airbnização. Num dos contos, um engenheiro que trabalhara num importante empreendimento nacional, trabalha em casa, trocando de papel com a mulher. Ele se vê como um rato, preso, escondendo-se, vulnerável.

Se, por um lado, ele recusa a “grande” literatura de Bernhard, ele passa bem longe das literaturas superficiais da moda. Há um “eu” muito presente nessas narrativas, porém esse “eu” passa ao largo do que se convencionou chamar autoficção.

Ao ler os contos, o leitor perceberá algumas pistas: nomes de lugares, autores (e são muitos), carros, bebidas, a tecnologia. Quando Schulze publicou "Celular", alguns discursos começavam a frequentar com mais intensidade o meio acadêmico: o multiculturalismo, por exemplo, que aqui é figura marcante, e também a cibercultura, aqui extremamente importante. Essas questões socioculturais e suas práticas avançavam a passos firmes e talvez por isso ele ironicamente diga que seus contos são "escritos à moda antiga". Sim e não. Schulze é admirador de Gombrowicz e Ayala, mas também de Sorókin.  Se as estruturas dele são “à moda antiga”, ou seja, são pensadas como contos tradicionais, em que acontecimentos “simples” carregam “grandes ensinamentos” (penso aqui em Tolstoi, que ele cita em algum lugar), seus recursos não são nada “à moda antiga”, o que o aproxima mesmo de certa literatura moderna russa, como a de Sorókin. Não há catarses aqui que acontecem ao se observar a morte de um cavalo, ou epifanias ao se observar o mar (talvez isso ocorra no conto curto sobre a casca de laranja), tampouco grandes ensinamentos morais. Mas há uma leitura das coisas, seja do homem, o sujeito, seja da sociedade, um todo. E ele é bom em contar histórias.

Há um dito engraçado na Alemanha, que diz mais ou menos o seguinte: qualquer coisa pode ser contada, mas desde que Schulze o faça. Um autor que merece nossa atenção.

 

Tags: Livros Paraná

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