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Youtubers radicais, nepotismo e expulsão do MBL: um resumo da Câmara de Curitiba até aqui

Sem propostas interessantes dos vereadores, Prefeitura de Curitiba aproveitou para passar o trator e aprovar tudo que quis em regime de urgência

Youtubers radicais, nepotismo e expulsão do MBL: um resumo da Câmara de Curitiba até aqui
Guilherme Kilter, João Bettega e Bruno Secco: membros da "nova direita" na Câmara. Foto: Tami Taketani/Plural
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A Câmara de Curitiba teve um semestre recheado de denúncias, discussões sobre assuntos que nada têm a ver com a cidade e pedidos de cassação de vereadores. O bate-boca generalizado teve a ver com a chegada dos vereadores "youtubers" de extrema direita ao plenário, e só reduziu quando dois deles sofreram denúncias graves e preferiram ficar com menor exposição.

As poucas propostas que tinham relação com problemas reais da cidade em geral vieram da Prefeitura e, quando chegaram, foi no velho estilo "trator" que marca as administrações da cidade. O cúmulo foi um projeto que os vereadores tiveram 20 minutos para ler antes do início da sessão.

Veja abaixo um resumo do que foi o primeiro semestre no Legislativo de Curitiba:

Foto: Tami Taketani/Plural

1- A bancada dos youtubers

Na eleição de 2024 cada partido da direita escolheu um candidato bom de redes sociais. Em geral, são radicais que ganham público criticando com veemência o PT e as pautas progressistas. Deu certo para quem apostou nessa estratégia, e os efeitos começaram a ser sentidos logo no começo do mandato.

As sessões passaram a ser dominadas por assuntos irrelevantes, como uma proposta de homenagem ao ator Alexandre Nero, que gerou protestos infinitamente longos e sem sentido dos youtubers, todos querendo marcar posição contra o ator.

Protestos contra um show da cantora Anitta em Curitiba, o pânico com a Marcha da Maconha e até uma inusitada moção de apoio a Donald Trump tomaram o precioso tempo dos vereadores - cada qual tendo sempre à frente um videomaker com celular à mão, pronto para registrar tudo nas redes sociais.

Foto: Tami Taketani/Plural

2- Pobres como alvo

Outro medo comum da bancada da direita radical foram os pobres, especialmente as pessoas em situação de rua. Projetos para eliminar o Mesa Solidária da Praça Tiradentes foram seguidos por protestos contundentes para que o projeto, que dá comida de graça aos pobres, não fosse levado para outra região central.

Os vereadores da "nova direita" não apresentaram qualquer proposta que ajudasse a dar uma vida melhor a essas pessoas: só deixaram claro que, andando pela região central, são vistas por eles como um incômodo.

Foto: Tami Taketani/Plural

3- Nepotismo

A primeira reviravolta na trama veio quando Eder Borges (PL), o decano do histrionismo na Câmara, apareceu numa reportagem do Intercept. O site mostrava diversos indícios de que o vereador havia contratado a filha de sua mulher (ou seja, sua enteada) para o cargo de chefe de Gabinete na Câmara, com salário de R$ 17 mil. Já a própria namorada/mulher de Eder estava lotada na Prefeitura, no Instituto de Turismo, e supostamente prestava serviços ao mesmo tempo ao gabinete de Eder. Seria uma fantasma?

A Prefeitura demitiu imediatamente Andreia, a namorada de Eder, que segundo ele era apenas uma ex, que agora atuaria como assessora jurídica terceirizada. Nos meses seguintes, o Plural revelaria uma série de novas provas de que o romance de Eder e Andreia durou por muito mais tempo que ele quis fazer parecer - e de que os dois provavelmente ainda estão juntos.

Membros do MBL se exoneram do gabinete de João Bettega. Foto: Tami Taketani/Plural

4- Expulsão do MBL

Em seguida veio outro escândalo: o vereador João Bettega (União) chegou um dia a seu gabinete e descobriu que todos os seus assessores haviam se exonerado. Todos eles eram ligados ao Movimento Brasil Livre e estavam insatisfeitos porque o vereador se recusara a levar a público a informação de que o presidente do Instituto Curitiba de Turismo tinha uma condenação judicial.

Bettega foi expulso do MBL e achincalhado publicamente pelos líderes nacionais do movimento. O movimento também pediu a cassação do vereador. Contratou novos assessores e logo se viu com novos problemas porque surgiram suspeitas de que ele colocou advogados pagos com dinheiro do gabinete para defendê-lo na Justiça. Depois disso, Bettega baixou bastante o tom e quase sumiu das sessões.

Da Costa fala com Bruno Secco: revolta com colegas. Foto: Tami Taketani/Plural

5- O trator da Prefeitura

A Prefeitura de Curitiba sempre usou a Câmara como mera despachante de seus projetos. E nesta legislatura não foi diferente. A situação ficou muito nítida em junho, quando numa mesma semana chegaram diversos projetos para serem aprovados sempre em regime de urgência - o que limita muito a capacidade da Câmara de analisar as propostas. Entre elas, estavam propostas relevantes, como a criação de uma empresa para fazer parcerias público-privadas.

Mas o caso mais aberrante aconteceria na semana seguinte, quando um projeto que causava mudanças significativas na Previdência municipal seria votado. Apenas 20 minutos antes do início da sessão, a Prefeitura protocolou um substitutivo geral que mudava tudo e, mesmo sem ter como ler a proposta, os vereadores aprovaram tudo.

A situação levou a um dos momentos mais emblemáticos do semestre, quando o vereador Da Costa (União), de um partido umbilicalmente ligado ao Prefeito, fez um lamento da tribuna dizendo que não confiava em nenhum outro vereador e que os vereadores se importariam mais com porcos e com pets do que se importavam com os trabalhadores.

Camilla Gonda: denunciada por supostamente rir de colega. Foto: Tami Taketani/Plural

6- Chumbo trocado

Com a radicalização do plenário, começaram a surgir denúncias em massa na Corregedoria da Câmara. A esquerda pedia punições aos vereadores de extrema-direita, e a direita retaliava pedindo a cassação dos vereadores de esquerda.

Houve todo tipo de denúncia: por antissemitismo (Professora Angela, do PSOL, criticou o governo de Israel), por racismo (Eder Borges citou a Ku Klux Klan durante um debate sobre armas) e até porque uma vereadora (Camilla Gonda, do PSB) teria supostamente rido enquanto o outro discursava na tribuna.

O caso mais grave a ser julgado, porém, era evidentemente o de nepotismo, contra Eder Borges. No entanto, apesar de todas as provas relacionadas ao caso, o Conselho de Ética, dominado por vereadores da direita, decidiu que não havia motivos sequer para abrir uma investigação. O processo sobre o tema tramita agora no Ministério Público.

Rogerio Galindo

Rogerio Galindo

Jornalista, um dos fundadores do Plural.

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