Esses dias começamos uma reforma aqui em casa e a experiência me conduziu a uma descoberta que fará os miolos do leitor vazarem pelos olhos.
"O melhor então será parar por aqui", reagirá o assustadiço leitor, "meus miolos prefiro-os acondicionados no espaço desde sempre reservado a eles". E nisso não deixará de ter razão. Garanto, entretanto, que a bruta retirada da mobília gosmenta dos respectivos aposentos cranianos ocorrerá somente para que ela, depois, retorne a um ambiente cheirando a fresco, limpo, arejado, receptivo, decorrência direta das mãos de tinta e verniz, do enceradinho porcelanato novo, do polimento no capricho e das minúcias do acabamento mais especializado que um bom reformador pode oferecer.
Contrato assinado, prossigamos, pois...
Ilusões cognitivas são peças que o cérebro nos prega, distorcendo nossas percepções sobre o mundo e nos levando a erros brutais de conclusão. Seu plano de ação consiste em nos fazer descartar (ou nem mesmo considerar) a possibilidade de análises situacionais mais demoradas para privilegiar a velocidade de conclusões imediatas e intuitivas.
Uma dessas ilusões chama-se viés da disponibilidade, e acontece quando a avaliação de uma conjuntura complexa é feita com base na facilidade com que os eventos surgem em nossa mente. Isso por si só já deveria nos fazer desconfiar das conclusões a que chegamos, afinal informação pouca não difere muito de informação ruim. Só que fica pior, porque além de o nosso sistema mental de buscas ser bastante limitado, ele ainda tende a direcionar seu facho de luz sobre os eventos mais recentes, enquanto os mais antigos são simplesmente negligenciados, permanecendo na escuridão.
Um exemplo clássico são os acidentes aéreos. Como numa tragédia dessas há ampla cobertura da mídia, nos dias seguintes as pessoas sentirão mais medo de viajar de avião (o número de passagens canceladas é maior no dia posterior a um desastre), ainda que os acidentes ocorridos durante um ano representem uma fração ínfima se comparada aos voos em que tudo acabou bem. Do mesmo modo, se presenciamos dois atropelamentos no mesmo dia na rua em que moramos, a disponibilidade nos levará a concluir que subitamente nossa rua tornou-se mais perigosa, fazendo-nos esquecer da imensa maioria dos dias em que não houve atropelamento nenhum. Num experimento cujo resultado deixa qualquer um em estado de perplexidade e cujas implicações são de gelar a espinha, voluntários foram submetidos a dois testes de dor. No primeiro, eles tinham de ficar 10 minutos com as mãos mergulhadas em um balde com água quase congelada; no segundo, 15 minutos. No segundo teste, contudo, um pouco de água morna era acrescentado ao balde no minuto 14, fazendo com que um alívio moderado fosse sentido. Depois de terminada essa etapa, foi dito aos participantes que eles teriam de repetir um dos testes e poderiam escolher qual. Apesar dos 4 longos minutos a mais de dor intensa, a maioria escolheu repetir o segundo, pois o alívio sentido no final ficou retido em sua memória, fazendo com que toda a experiência fosse vista como mais positiva.
É também assim que, ao fazermos uma crítica pontual a alguém, não parecerá coisa de outro mundo ouvirmos como resposta um indignado “Nossa, você só sabe me criticar”. Ou quando acontece de ocasionalmente termos de lavar a louça duas ou três vezes seguidas e parece que tudo o que fazemos na vida é lavar louça, enquanto tudo o que o conge (ingrato e insensível) faz na vida é descansar pleno no sofá.
Considere um país hipotético em que a gasolina aumentasse dezesseis vezes durante um ano e nesse intervalo o preço saltasse de quatro reais o litro para 7,50. Considere também que na décima sétima alteração de preço houvesse uma redução de 7,50 para 6,99. Com a lanterninha da disponibilidade iluminando enfaticamente o número 7,50, não faltaria gente que desembolsaria os 6,99 com um sorriso no rosto, celebrando a súbita melhora em sua qualidade de vida.
São muitos, enfim, os exemplos de como nosso cérebro, autoproclamado racional e supostamente concebido para agir em nosso favor, nos engana das formas mais vexatórias. Publicitários sabem disso e inserem propaganda de seguros em intervalos de filmes violentos. Políticos sabem disso e executam obras no último ano de mandato. Mas há um exemplo insuperável, que nenhum outro, em nenhum tempo e em nenhum lugar, conseguirá sobrepujar. Porque de todas as ilusões cognitivas descobertas, estudadas e catalogadas por nossa melhor ciência, nenhuma delas será tão ardilosa, tão sórdida, tão sorrateira quanto a ilusão da reforma, empiricamente descoberta, estudada e catalogada por mim.
Para alcançar o surpreendente efeito de tornar a casa pior do que era (sim, pior), a gente vai lá e mete a marreta em tudo, quebra piso, derruba parede, arranca forros, destrói portas, empesteia tudo de pó e cal e rejunte e cimento e reboco, passa semanas estressado, espirrando, dormindo mal, não sabendo onde foram parar as toalhas e o gato, e vendo esgotar-se rapidamente o limite de oito pix mensais, mesmo que só tenha conseguido passar seis porque o dinheiro naufragou no redemoinho do ralo reformado e se transformou em queixas, rinite e aborrecimento. E perceba, ó marretado leitor, que ainda nem cheguei (reforma toma tempo) na parte da ilusão cognitiva. Se estou enrolando igual escritor de folhetim ou igual pedreiro pago por hora é porque sei que a descoberta (meu Eureka ao contrário) deixa tudo ainda muito pior, exceto (coerentemente com o esperado de uma ilusão) para a maioria dos inocentes reformistas que não se darão conta dela.
Eu me dei conta dela (a ignorância é uma bênção), e ela é assim: depois de concluída a Operação Demo-lição (ia chamar de Operação Demo-lindo, mas pensei melhor), o que fica disponível em nossa mente como referência não é a casa como era antes, mas sim a sujeira e o caos e o cenário de guerra resultantes do serviço da marreta, já descrito. Quando a limpeza dessa zona descomunal for finalizada, depois de uns quatro dias de mangueira, sabão e esfregão, fica-se a impressão de que os pequenos e inúteis ajustes deixaram tudo muito mais lindo do que antes da reforma, quando (agora eu sei) a casa estava perfeitinha e não precisava de reforma nenhuma.
O truque nem é tão raro. Lembre-se daquelas tentativas de embelezamento facial com uma máscara de lama que deixa a pessoa parecida com a menina do filme O Exorcista. É claro que qualquer um ficará mais bonito depois de tirar tudo aquilo da cara.
Ao que tudo indica, e o leitor desta crônica sabe-o bem, pois acompanhou o desmonte de perto, de dentro, a casa que mais anda precisando de uma boa reforma é o cérebro humano.