A nova gestão da UFPR trouxe a maior novidade de seus primeiros meses no comando da Universidade: o fim da prova discursiva para diversos cursos. No curso de Direito, por exemplo, os alunos devem responder a 14 questões discursivas, 7 de História e 7 de Filosofia. Isso além da Redação e da primeira fase, composta por 90 questões objetivas. A partir do ano que vem, não precisarão mais se preocupar com as questões discursivas.
O que talvez a nova gestão da UFPR não saiba é que essa exigência teve, ao longo da última década, um efeito no engajamento dos alunos e alunas em leitura de obras e treino de produção de textos como há muito não se via na escola. E essa prática não se limitava ao último ano do Ensino Médio, conhecido como “cursinho”. Desde o nono ano do Fundamental II já era uma preocupação dos professores e das famílias uma preparação para a leitura de textos científicos e a produção de respostas discursivas capazes de explicar, caracterizar, analisar, comparar, descrever, justificar, discorrer, entre outros comandos que compunham a prova da segunda fase da UFPR. O resultado dessas práticas era um incremento visível de vocabulário, capacidade argumentativa, criticidade e, principalmente, aumento do repertório histórico e filosófico, matéria prima fundamental para o que podemos chamar de "educação para a vida”.
A nova gestão da UFPR utilizou um argumento estatístico para justificar a eliminação da segunda fase. Cabe-nos pesar os prós e os contras. Prós, segundo disse o reitor: “A prova em um único dia facilita o planejamento dos candidatos, reduz a coincidência de datas com vestibulares de outras instituições e reduz custos para pessoas que precisam se deslocar para fazer a prova em cidades diferentes de onde moram”.
Contras: todos os outros aspectos mencionados até aqui neste texto. Além do recado, muito perigoso, de que ler textos científicos e escrever sobre eles, demonstrando compreensão qualificada sobre eles, não é importante para quem pleiteia uma vaga na mais importante universidade pública do Paraná. E, por isso, por que cobrar isso no Ensino Fundamental II e no Ensino Médio? Em uma sociedade cada vez mais utilitarista, imagine qual será a chance efetiva que os professores terão de apresentar textos de Montaigne, Platão, Karl Popper, Descartes, Merleau-Ponty, Habermas, Nancy Fraser - para citar apenas alguns dos autores estudados nos últimos anos - por meio da leitura crítica de suas obras e produção de textos sobre elas?
Ah, mas esses autores ainda serão pedidos na primeira fase, nas questões objetivas. Sim, é verdade, sabemos disso. Mas, como eu reitero aos meus alunos, uma coisa é você reconhecer algo que está escrito na sua frente, outra é você produzir um texto sobre isso. Essa é exatamente a diferença entre a suficiência e a proficiência. Pensemos, por exemplo, no aprendizado de uma segunda língua: suficiência se refere a ter o nível mínimo necessário para uma finalidade específica, enquanto proficiência implica um domínio mais completo e abrangente da língua, permitindo que você seja capaz de internalizar aquele aprendizado e usa-lo como ferramenta permanente para sua relação com o mundo. Então, é isso que está sendo jogado fora.
A UFPR também argumentou que quase não houve diferença no resultado entre a primeira e segunda fases: entre 2009 e 2019, o resultado final teve um percentual de alteração de 10,98%, em média, em relação ao resultado da primeira fase. Ou seja, nesse período, mais de 500 alunos por ano (cerca de 5 mil no período pesquisado) conseguiram, com sua competência em leitura crítica e produção de texto, exceder as diferenças obtidas na primeira fase e alcançar sua vaga. Em um curso como Direito, por exemplo, onde, na primeira fase, o aluno responde questões de todas as disciplinas e, na segunda fase, redação, história e filosofia, não seria essa segunda fase a que melhor indica as competências necessárias para o curso de Direito? Bom, isso não será mais possível de se aferir.
Lógico que há vantagens na economia processual e financeira. Lógico que sempre se pode alegar que a medida busca ampliar o acesso e democratiza-lo. Se há argumentos até para justificar a chacina do Complexo do Alemão, por que não haveria para a mudança do vestibular da UFPR? Mas há também - e é o mínimo que se pode dizer - um certo incômodo com mais essa simplificação, esse aparente barateamento de um processo que deveria, ao contrário, ter sido aprimorado com uma primeira fase com mais dias e questões e mesmo - por que não? - com alguma fase na qual fosse possível ocorrer uma avaliação oral dos candidatos.
Porque aprimorar, aprimorar sempre, é o caminho esperado para um processo de seleção para uma universidade tão importante como a nossa. Ou não?