Meu caro amigo,
Que alegria receber a sua nova cartinha, lembrando daqueles agitadíssimos anos 90. Relendo suas palavras, as lembranças caem em pencas sobre a minha cabeça. Esses primeiros anos dos 90 foram os únicos que não trabalhamos juntos. Saí do colégio no fim de 1989 e tentei advogar um pouco, além de fazer uma especialização em Filosofia e outra em História. Eu havia casado e tentava me estabilizar. Mas o chamado da sala de aula não tardou e, mais uma vez, por suas mãos. Fui para o cursinho Bardal e, depois , para o Expoente, antes de nos reencontrar, em 1993, no local onde estamos até hoje, dividindo a História para sabe-se lá quantas dezenas de milhares de alunos. A economia estabilizou no mesmo ano em que nasceu meu filho. O país, parecia, face ao que havíamos presenciado, que começava a tomar jeito.
Os anos FHC foram de estabilização e de algumas reformas para evitar repetir o desastre dos anos oitenta. Mas a agenda social continuava emperrada. Ainda havia fome em grandes proporções, fruto da concentração de renda obscena. Se havíamos superado a censura, a violência contra o Estado de Direito, a entropia inflacionária, ainda engatinhávamos no atendimento dos mais pobres, dos desvalidos, que ainda enchiam as ruas, em flagelos, humilhando-se por um bocado de qualquer coisa, ou saqueando supermercados na suprema revolta contra a injustiça que negava a eles a condição de humanos. Lembro-me de ter ouvido, nesses tempos, um amigo religioso dizer que não se pode esperar que alguém seja crente se antes não for gente. Pois é, meu amigo. Era preciso assumir a luta por mais equidade no país e por isso abandonei minha confortável posição social democrata e apoiei, pela primeira vez, a candidatura Lula naquela eleição de 2002. Você já estava com ele desde há bastante tempo, desde que o “comandante” Brizola aceitou ser vice na chapa de Lula em 1998. Eu fui de FHC, acreditando que o equilíbrio das condições macroeconômicas seriam suficientes para promover a distribuição de renda que o país precisava. Eu estava errado. Ou haveria uma política efetiva de distribuição de renda, urgente para os mais pobres, via assistência direta, e efetiva para os já assalariados, com aumento real sobre o salário mínimo, ou ficaríamos patinando na mesma vergonhosa posição, cheios de promessas e boas intenções mas, mesmo assim, vergonhosa.
E então o Lula ganhou. Ainda hoje eu me recordo da emoção dessa vitória. Estava em casa - meu casamento rachando com a mesma intensidade que minhas convicções - e busquei a única blusa vermelha que possuía. Era a segunda vez que eu vestia vermelho desde quando o conheci, meu caro amigo. A primeira foi para a aula teste em 1985. Agora, um moletom vermelho vivo que eu nunca usava tornou-se minha bandeira para ir para a rua, comemorar a ideia de que eu havia, enfim, feito algo para o meu país. Orgulhei-me como poucas vezes. Foi lindo aquilo ali.
E então vieram os anos Lula e também minha separação e minha busca pessoal por algum tipo de felicidade para chamar de minha. O amigo também passou por perrengues pessoais terríveis e estivemos juntos nesses momentos, suportando juntos os azares da sorte. Mas também tivemos momentos de grande alegria, com o sucesso do país nessa primeira década do século XXI, embora o governo de coalizão de presidente Lula acabou aproximando-o de uma turma muito ávida por recursos não contabilizados e, em 2005, estourou o escândalo do mensalão. Um espelho se partiu: o da imagem ética impoluta do PT. Talvez o sucesso tenha subido à cabeça e o partido tenha se afastado de suas bases, embarcando no sucesso de uma nova classe média alimentada não por educação e cultura, mas por geladeiras e televisões. Não sei. Ainda é cedo para uma avaliação definitiva. Mas sei que meu namoro com o PT esfriou aí e vivi um novo divórcio, dessa vez com o governo.
Bom, já falei demais. Quero terminar essa cartinha respondendo a sua pergunta: será que valeu a pena nosso trabalho (e o de tanta, tanta gente!) para agora vermos nossos ex-alunos e , pior, muitos de nossos alunos apoiando pautas extremistas? Amigo, respondo sua pergunta com uma história que se conta sobre Jean Paul Sartre. Dizem que, após o fim da guerra, na qual ele lutou contra os nazistas, do jeito que pode, já que ele estava longe de ter um porte de soldado, além daquele olho que não funcionava, Sartre voltou a dar aulas de Filosofia. Quando estava iniciando mais um dia de trabalho, um aluno o atalhou e disse: professor , por que o senhor acha que precisamos de aulas de Filosofia após tudo o que aconteceu?
Sartre então teria respondido: meu caro, o importante não é o que fizeram de nós. O que importa é o que fazemos do que fizeram de nós.
Pois é, meu caro amigo Mocellin. É isso que penso.