Li as recordações de sua última cartinha com emoção. Já foram tantos anos, mas as lembranças de cada um dos minutos daquela noite e do dia seguinte da passagem do seu querido filho ficaram marcadas com o cinzel da tristeza e da dor na minha alma para sempre. E o que eu fiz, querido amigo, junto com o nosso estimadíssimo Luiz Fernando, foi simplesmente estar junto, como sempre estivemos nas alegrias de nossos dias divertidos de trabalho. E naquela ocasião, juntos na tristeza profunda da perda, lembramos a você que a vida continuava seu fluxo indiferente e que você precisava ressignificar aquela ausência abrupta, porque seus outros filhos, sua família, e nós, seus amigos, precisávamos que você continuasse nadando e não se deixasse levar pela força ignorante das águas.
Essa é minha última cartinha para você, e já fico assim desenxabido, porque gostei muito dessa experiência de relembrar, rememorar o passado comum desses últimos 40 anos. Você recordou meu ingresso no Curso, eu com 28 anos, ainda um guri, mas já com algumas marcas de muitas escolas e muita luta pela sobrevivência. Há 10 anos eu já morava sozinho e vendia o almoço para pagar o jantar. Mas foram dez anos de muito aprendizado e de experiências importantes : casar, formar-me, fazer uma especialização em Filosofia e outra em História, isto é, aprender a estudar, advogar até descobrir que não era isso que eu queria para mim, abrir uma escola e mergulhar de cabeça no que eu sempre gostei, que foi ensinar, e seguir seus passos, caro amigo, ingressando nas vagas que você ia abrindo na sua caminhada, até que, enfim, voltamos a trabalhar lado a lado e cá estamos até agora nessa toada.
Ontem, fui, mais uma vez, abraçar os alunos que iam fazer o vestibular da UFPR, e foi muito carinhosa a recepção deles , muitos querendo expressar a importância do nosso trabalho, e apresentar-me aos pais, e tirar fotos, alguns até emocionando-se , na tensão daquele momento, com a nossa presença ali, sob o sol de um domingo primaveril, antes da prova para a qual eles se prepararam o ano todo. Nesse momento, caro amigo, vejo os mesmos jovens de sempre, como os de trinta, vinte, dez anos atrás. Imaturos, cheios de dúvidas, medos e ansiedade pelo futuro, mas carregando a esperança de que algo de melhor aconteça com eles. Sei que você me perguntou se eu acho se valeu a pena nosso trabalho já que hoje os jovens estão tão conservadores, reacionários até. Olha, eu acho que sim. Porque vejo esse traço de conservadorismo deles como uma manifestação de temor com o futuro. E, desde que somos espécie humana, o futuro incerto foi nosso maior problema. Por isso o “chamado da tribo” é tão forte nessa hora. Então, penso eu, nesse momento, nossas presenças tornam-se ainda mais necessárias, pois somos a voz ( fraquinha que seja, meio isolada, que vá) que tenta mexer com essas “certezas” que eles acumulam por falta de questionamento e reflexão. Doutrinação? Nossa, não. Pelo contrário, somos os autores das perguntas sem respostas. Somos a lembrança de que só conseguimos sobreviver aos milênios porque não nos acomodamos no fundo da caverna e buscamos enfrentar a imensidão da savana. E quem terá sido o cara (ou a moça, por que não?) que tomou a iniciativa de sair? Não sei. Mas sei como ela (ou ele) fez isso: questionando.
E é isso que a gente tem feito. O país, que na primeira década do século XXI parecia que ia solucionar a mais grave lacuna de sua agenda civilizacional, a da injustiça social, acabou travando, em parte, pelo preço do presidencialismo de coalizão, que aproximou o governo do PT de partidos fisiológicos, contaminando-se e contaminando a opinião pública. Mesmo com o Lula se reelegendo e depois elegendo a Dilma, o afastamento do PT dos movimentos de base, da Igreja progressista, das universidades, e a falta de proativismo na questão do campo, amarrado pelos arranjos por cima com o agronegócio, além da falta de continuidade na política de distribuição de renda, limitada também pela necessidade de pagar os juros da dívida com os bancos, fez com que a nova classe média começasse a morder a mão que a afagou, exigindo (não sem razão) mais e mais conquistas. E aí a mesma classe média que abraçou as Diretas Já e aplaudiu a Constituição cidadã, agora ia para as ruas, naqueles dias de 2013, gritando “o gigante acordou”. Para quê? Ninguém sabia. Mas havia ali, naqueles gritos e naquela multidão, um poderoso chamado da tribo. E o passado cavernoso atendeu ao apelo deles. O que imaginávamos passado, ressurgiu dos mortos com a força dos zumbis das séries de televisão. Zumbis comedores de cérebros.
Desde então perguntamo-nos como isso pode acontecer: Dilma é afastada por um processo mandrake e o deputado que gritara “viva Brilhante Ustra" em pleno plenário da Câmera, sem que nenhum processo de quebra de decoro fosse instaurado, virou presidente. "Mito", diziam, revivendo uma das mais antigas formas de solução humana do medo do futuro: acreditar em entidades protetoras. Não sei como não erigiram totens ou fizeram sacrifícios humanos. Bem, durante a pandemia fizeram, né?
Um erro que considero monumental, tanto no PT como no seu antecessor no poder, o PSDB, foi o de não ter desenvolvido uma política robusta de educação para a cidadania nas escolas. Apesar de alguns avanços importantes na Educação, a continuidade de uma educação predominantemente disciplinar fez com que as novas gerações não se interessassem pelo conhecimento e pelo exercício da Democracia. Ao mesmo tempo, o avanço das redes sociais, capturou almas e mentes dos jovens com seu universo hiper individualizado e seus dados fragmentados, efêmeros e dispersos. Hoje, aquelas crianças e jovens do início do século, engrossam, junto com os idosos nostálgicos de uma época mágica que nunca existiu, as manifestações ultra reacionárias que vemos por aí.
Mas nós fizemos a nossa parte? Será? Creio que não cabe a mim ou a você dizermos isso. São os outros que nos nomeiam. Que o façam. Nós só passamos. Passarinhos.
Um grande abraço, meu caro amigo.