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Uma crônica simbolista

A convite do poeta Jaques Brand, fui até o Instituto Neo-Pitagórico, o Templo das Musas

Uma crônica simbolista
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Na semana passada, a convite do poeta Jaques Brand, fui até o Instituto Neo-Pitagórico, Templo das Musas, cujo terreno é um dos corações verdes do bairro da Vila Izabel, com bosque fechado, cheio de jacus e, possivelmente, espíritos caboclos. Onde ficava a casa de Dario Vellozo hoje existe uma grande camélia. Eu nunca antes tinha entrado no espaço. Foi uma agradável manhã no berço do Simbolismo paranaense.

Para quem não lembra, o Simbolismo foi um movimento literário que, sob a influência de Mallarmé, Verlaine, Baudelaire, entre outros, marcou a literatura produzida em Curitiba. Mal sabia eu que, talvez por ter estado no Instituto (será?), na madrugada seguinte viria a ser assombrado por figuras com grandes bigodes, monóculos e trajes completos (terno, colete, colarinho alto e gravata).

Vejam o sonho que tive: murmurações dos mistérios da madrugada. O sol demora a aparecer. Eu me levanto e vou à rua. Lâmpadas fosforescentes brilham feito olhos cravados na neblina. Agora, nacos de sol entre nuvens iluminam os telhados. O dia a se erguer dos paralelepípedos no centro. Tímido movimento dos habitantes nas ruas.

Deu o horário, os sinos da igreja badalam. E abalam o voo das pombas que debatem entre a luz e a sombra. Não sei bem como, venho dar Catedral Basílica. Na saída da missa, avisto Dario, espécie de latin lover (ué, cadê o bigode?), encostado na cerca branca em frente, cigarro entre os dentes, pequena rebeldia aos olhos da moral que pretende afrontar.

Sei que estou bem na virada do século IX para o XX. E sou levado pela cena encantadora diante de mim. Retrato de delicadezas perdidas na trama dos anos. Vejo polaquinhas, flocos de neve encarnados, lábios pálidos e trêmulos, a passar embrulhadas em lã, com a preocupação de não levarem uma bronca da avó: “é da missa para casa, nada de zanzar por aí.” O peso do amor com correntes do destino. A inocência sempre é a luz de uma vela prestes a se apagar.

Cada passo cauteloso meu recebe como resposta uma espécie de dança premeditada da província. Nos lagos do Passeio Público, girinos girinam formas de vida contundentes apenas para me lembrar que, perante a grandiosidade do universo, nada sou. No Passeio, um carrinho de cachorro-quente, iluminado com luzes néon, visão anacrônica que me faz questionar o tempo.

No meio desse caos suave, vejo o Perneta. Sentado num banco, ele se lambuza com a maionese e o catchup que escorrem do seu hot-dog. E me acena. Eu, justamente, estou atravessando a ponte pênsil para a Ilha da Ilusão, onde o Perneta foi sagrado príncipe dos poetas. Dali de cima, sorrindo feito um turista, tento retribuir o aceno. Mas tropeço e caio dentro do laguinho musguento.

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