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Viralizou, mas vale a pena? O efeito das redes sociais na escolha de restaurantes

Uma boa experiência gastronômica não pode ser reduzida a uma simples nota em uma tela

Viralizou, mas vale a pena? O efeito das redes sociais na escolha de restaurantes
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Era uma tarde ensolarada no litoral do Paraná, e eu ansiava por um bom café. Como muitos de nós fazemos hoje em dia, peguei o celular e busquei opções no Google. Encontrei um lugar promissor, mas a nota era surpreendentemente baixa. Curioso, abri as avaliações. Para minha surpresa, cinco comentários negativos haviam sido postados nas últimas duas horas. O padrão era evidente: mesmas reclamações, tom semelhante, claramente vindos de um grupo que, após uma experiência ruim, decidiu punir o estabelecimento digitalmente. Isso me fez refletir: quantas vezes deixamos de conhecer bons lugares por conta de avaliações que podem não refletir a realidade?

Este dilema não é apenas uma questão de escolha individual. De acordo com a Skeepers, 85,57% dos consumidores conferem opiniões de outras pessoas antes de realizarem uma compra. Além disso, 91% dos jovens de 18 a 34 anos já desistiram de comprar um produto na sequência de uma avaliação negativa. Ou seja, um punhado de comentários pode determinar o sucesso ou o fracasso de um negócio gastronômico. Para pequenos empreendedores e chefs, cada ponto percentual perdido pode significar mesas vazias e prejuízo financeiro significativo.

Na Itália, esse dilema levou à proposição de uma regulação que proíbe opiniões anônimas e exige que os clientes comprovem a visita ao local antes de avaliar. O objetivo é reduzir o impacto de avaliações falsas e manipuladas, protegendo tanto consumidores quanto empreendedores. Essa iniciativa aponta para um caminho necessário: o de maior responsabilização dos avaliadores, garantindo que suas opiniões reflitam experiências genuínas.

Não são apenas as avaliações online que são questionadas. O renomado chef francês Marc Veyrat tomou uma decisão radical ao recusar as estrelas Michelin para um de seus restaurantes. Após perder uma estrela por um critério que considerou equivocado, Veyrat passou a contestar a legitimidade do guia e suas avaliações, que podem fazer ou desfazer carreiras no setor gastronômico. Sua postura reforça o questionamento sobre quem tem o poder de legitimar ou desqualificar um restaurante e até que ponto essas avaliações são transparentes e justas.

O próprio Guia Michelin, que por décadas foi a maior referência na avaliação de restaurantes, vem sendo alvo de críticas cada vez mais intensas. A chef brasileira Helena Rizzo, por exemplo, questionou se os valores do Michelin ainda fazem sentido nos dias de hoje, uma vez que os critérios de avaliação parecem não acompanhar a evolução do setor gastronômico e as novas dinâmicas de consumo. Muitos chefs relatam que, ao invés de um reconhecimento, a obtenção da estrela Michelin se transforma em uma carga emocional e financeira insustentável. O guia, que já foi visto como o ápice da consagração do setor, tem perdido parte de sua aura de exclusividade, especialmente com sua expansão para mercados onde sua expertise é contestada.

A perda de credibilidade do Guia Michelin e a desconfiança nas avaliações online têm levado os consumidores a buscarem recomendações em novas fontes. Um estudo recente mostrou que 97% dos consumidores leem reviews online sobre empresas antes da compra. Além disso, redes sociais como Instagram e TikTok tornaram-se plataformas determinantes para o sucesso de restaurantes, muitas vezes viralizando locais por conta de um prato visualmente impactante, independentemente da qualidade do sabor ou do serviço prestado.

Esses diferentes casos revelam um ponto crucial: avaliações podem ser tanto aliadas quanto vilãs no mundo da gastronomia. Elas têm o poder de transformar um negócio em referência ou destruí-lo em questão de horas. O problema não está na existência das avaliações, mas sim na forma como são feitas e utilizadas. A grande questão é como garantir que essas opiniões sejam justas, transparentes e autênticas. A responsabilidade deve ser compartilhada: por parte das plataformas, que precisam estabelecer critérios mais rigorosos; dos consumidores, que devem avaliar com ética e discernimento; e dos próprios estabelecimentos, que precisam buscar qualidade constante e atender bem seus clientes.

No fim das contas, uma boa experiência gastronômica não pode ser reduzida a uma simples nota em uma tela. O paladar, a hospitalidade e o contexto cultural de um restaurante são elementos muito mais complexos do que qualquer avaliação numérica pode captar. Para quem realmente ama a gastronomia, a melhor recomendação sempre será aquela baseada na vivência real e na troca genuína de experiências.

*Ricardo de Amorim Cini é professor de Gastronomia na PUCPR e doutor em Políticas Públicas. Possui experiência em restaurantes e eventos, trabalhando com chefs de destaque na cidade.

Tags: Paraná

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