Pular para o conteúdo

Tudo canta no Recife

Tudo canta no Recife
Publicado:

Olinda. A Ladeira da Misericórdia. A casa de Alceu Valença. As cigarras do centro histórico, na Praça da Sé, cantando tão alto a ponto de estouram o próprio corpo. À beira mar, no Bode do Nô, a tradicional buchada. Pra ali é Rio Doce, de Chico Science, “tem a hora certa pra beber / uma cerveja antes do almoço / é muito bom / pra ficar pensando melhor”, tem a hora certa pra cachaça de pitu e pra caipirinha de ciriguela. E o garçom dizendo “pegue a macaxeira frita, mele no pirão de queijo e me diga.”

Essa é uma escultura de Francisco Brennand? É sim. “Eu vi o mundo… Ele começava no Recife.” Torre de Cristal, argila e bronze. Terras do velho Engenho (Cerâmica) São João, no bairro da Várzea. E o Recife Antigo. A Porta do Bom Jesus e seus baluartes. Rua do Bode, Rua dos Judeus, Rua do Bom Jesus. Praça do Arsenal. Paço do Frevo. Frevação. Recife é um sol pra cada um. Bora ferver, frever, frevar.

Oxe, por outro lado, aquela roeção que tu cantaste é um brega, é não? Um brega misturado, puro suco de Brasil. Venha, fiz um arrumadinho pra tu comer. Agora que tal um cafezinho preto com bolo de rolo? E tu canta também? Nada, sou artista não, mas vivo rudeada de deles.

“Eu não te quero aqui por muitos anos / nem por muitos meses ou semanas, / Nem mesmo desejo que passes no meu leito / As horas extensas da noite. / Para que tanto Corpo! / Mas ficaria contente se me desses / por instantes apenas e bastantes / A nudez longínqua e de pérola / Do teu corpo de nuvem”, Poema do amor sem exagero, de Joaquim Cardozo.

É tudo tanto corpo aqui, tudo canta em Recife. A poesia de Ascenso Ferreira, Manuel Bandeira, Carlos Pena Filho. A poesia de Cida Pedrosa, Luna Vitrolira, Bell Puã. A prosa de Gilvan Lemos, Jutaí Menino. A prosa de Ronaldo Correia de Brito. A prosa-poema de Marcelino Freire. Sombra severa, O amor não tem bons sentimentos, Tangolomango, Somos pedras que se consomem, O senhor agora vai mudar de corpo, são cinco livros de Raimundo Carrero.

Sofia Freire lindando a Canção da Bruxa, “eu vou girar, meu amor / Eu vou girar / Na tua língua, nos teus passos / Vou girar”, de Micheliny Verunschk. Karina Buhr ralentando Desterro, de Reginaldo Rossi. Show de Almério no Teatro do Parque. Mais PC Silva, Marcello Rangel e Martins na casa de Dodó e Zezé.

Olhe, Painho tá frescando, depois ficou todo morgado, só por isso não acertou no violão aquela harmonia difícil da muléstia. Mainha é uma pessoa iluminativa, assim como José Timóteo, mais conhecido como Jr. Blake (in memorian) e a poeta Ezter Liu, autora de Balaclava. Aliás, é Blake ensinando a cola do afeto, é Blake ensinando apenas sendo, inspirando a gente a ser o melhor amigo de cada amigo nosso. Isso se deu na fala de Juliano Holanda ali naquela rua boêmia, do ladinho do Ginásio Pernumbucano, no bairro Boa Vista quase Santo Amaro onde Clarisse Lispector estudou.

É então Zona da Mata Norte. Divisa dos municípios de Tracunhaém e Aliança, Cruzeiro das Bringa (igreja caiu, canavial tomou conta), marco místico da cultura do maracatu de baque solto, confrontos cantados em verso e prosa. Os lanceiros, os Caboclos de Lança, galho de arruda atrás da orelha e um cravo ou rosa branca na boca para fechar o corpo e se proteger, vêm do Maracatu Rural, primeiramente praticado por trabalhadores nos engenhos de cana-de-açúcar.

Dali para Praia de Boa Viagem. O problema é o tubarão pequeninho, a serra dos dentes, a mordida altamente tóxica. Letícia foi só molhar o pé, tubarão saiu arribado de lá. Batizada naquelas águas Letícia estava. Mar calmo nunca fez bom marinheiro, é o que dizem.

Pelo exposto acima deu para vocês notarem que estou em Recife, Pernambuco. Viemos fazer seis shows no teatro da Caixa Cultural. Eu com meus amigos Letícia Sabatella, Edith de Camargo, Eugênio Fim, Alonso Figueiroa, Vina Lacerda e Juliano Holanda (nossa canção que diz “tecnologia do afeto é muito simples / tecnologia do afeto não precisa fazer nada / é só gostar da pessoa e a pessoa já se sente amada”). Além de Nadia Luciani (luz), Guenia Lemo (projeções), Luigi Castel (som), Emerson Rechenberg (produção), Meryta Lemos (produção local), sem contar a fofíssima e baita roadie Nally Maria e o auxílio luxuoso de Mawziii no camarim.

Tudo canta em Recife. Dá vontade de conhecer mais e mais. Haja tempo e oportunidade. Por enquanto, atenção atenção Lívia, já volto pra casa e tô num chamego de saudade danado, visse!?

Tags: Cronicas

Mais em Cronicas

Ver todos
Patinação no gelo: o fogo de Prometeu

Patinação no gelo: o fogo de Prometeu

/

Mais de Autor Não Encontrado

Ver todos

De nossos parceiros