A Câmara de Curitiba teve grande renovação em 2025, com mais de 50% de novatos. E dentre os novos, há grande quantidade de políticos de extrema-direita, principalmente oriundos do mundo das redes sociais.
Em pouco mais de um mês de mandato, e com apenas duas semanas de sessões plenárias, já deu para ter uma ideia de como operam esses vereadores novos - e que de fato têm um perfil diferente dos seus antecessores.
Um dos pontos é que, pela importância que veem no Instagram e nas outras mídias sociais, preferem fazer propostas escandalosas, que rendam cliques e likes. E em geral não são assuntos que tenham a ver com o dia a dia da cidade, ou com aquilo que a Câmara em geral faz.
Na verdade, os interesses desses vereadores passam longe do município. Fica evidente que a maior parte deles sonha mesmo é em discutir assuntos nacionais, mas por questão de calendário eleitoral e de conveniência, preferiram primeiro uma eleição municipal. Quase todos, porém, devem tentar mudar de posto ano que vem.
Isso quer dizer que você não vai ver os novos vereadores falando muito sobre asfalto, sobre problemas de urbanismo nas vilas mais afastadas, ou sobre as questões tradicionais envolvendo saúde e educação.
Quando apareceu um vereador falando sobre saúde, foi num vídeo para as redes sociais em que o vereador João Bettega (União) invadiu o Hospital Cajuru para tentar provar que os funcionários são vagabundos, ou algo do gênero.
E quando tratam de educação, dificilmente é para se importar com a valorização das professoras ou para aprovar a criação de novas unidades de ensino na periferia: o interesse aqui é falar em temas que beiram a paranoia, como “doutrinação”, “ideologia de gênero”, ou o perigo dos banheiros unissex para crianças de sete anos de idade.
Pânico moral
As pautas que realmente interessam aos vereadores da nova direita são as que têm a ver com costumes, na base do pânico moral. Ficou claro nesses primeiros dias que há três medos principais regendo a atuação desse pessoal: o medo da cultura, o medo do sexo e o medo dos pobres.
O caso da cultura ficou claro com a patética moção de repúdio apresentado por um vereador nesta semana, contra o show da Anitta. A bunda da funkeira apavora os sonhos de muitos conservadores, e Guilherme Kilter (Novo), ligado à Igreja Batista, disse que ela é um risco para a família tradicional curitibana.
Não foi um caso isolado. Na Assembleia Legislativa também já fizeram um movimento para barrar um show da MC Pipokinha por aqui. E na Câmara, na nova Câmara, também apareceu um projeto de João Bettega para proibir apresentações públicas de artistas que envolvam nudez ou cunho sexual, “explícito ou implícito”. (Atenção, moçada das artes: nada de representar certos trechos do Gênesis na rua, hein?)
Proposta de uma cultura “mais saudável” e patriótica também apareceu com o projeto que quer tornar obrigatório o Hino Nacional em todas as escolas de Curitiba. Curioso que esse pessoal se elege falando em liberdades, mas logo começa a empurrar o gosto deles por símbolos patrióticos que eles dizem ter como obrigação para os outros.
“A proposta de assegurar sua execução nas escolas públicas e privadas do município de Curitiba, além de garantir um momento de reflexão sobre o significado do Hino, promoverá também o resgate da valorização dos nossos símbolos patrióticos, um aspecto crucial na educação e formação do caráter de nossas futuras gerações”, justifica o vereador Bruno Secco (PMB).
Medo do sexo
Algumas das ideias relativas a cultura também têm a ver com o medo maior da turma: o da sexualidade alheia. Veja-se o caso de Anitta e a proibição de nudez de artistas.
Mas há propostas mais diretamente voltadas para evitar que os outros sejam felizes com sua sexualidade - e também movimentos paranoicos para impedir que as crianças sejam vítimas de perigos imaginários.
Bruno Secco (PMB), por exemplo, propôs que não haja banheiros unissex nos grupos de escotismo, porque segundo ele a ideia adotada pelos escoteiros de dividir barracas e banheiros de acordo com o gênero com que a criança se identifica é um perigo. Para provar seu ponto, apresentou um texto da Gazeta do Povo.
O vereador Eder Borges (PL) também quer proibir o uso de símbolos cristãos em eventos ligados à causa LGBT. Na justificativa, ele diz que a comunidade LGBT não é cristã, e por isso o uso de símbolos ligados ao Cristo são um escárnio. De onde o vereador chegou à conclusão de que não haja gays cristãos, não se sabe.
Medo dos pobres
Conservadores, os vereadores da nova direita também decidiram que é preciso conservar os pobres na mais abjeta pobreza. De preferência, não tendo acesso mesmo a alimentos.
O vereador João Bettega chegou a apresentar um projeto que simplesmente acabava com o Mesa Solidária, um projeto criado na gestão de Rafael Greca (PSD) que dá comida para pessoas em situação de vulnerabilidade.
“Não podemos permitir que esse plano desastroso, de viés manicomial, continue expondo os cidadãos curitibanos ao caos e à degradação urbana. A população foi submetida a uma política mal concebida, que resultou em insegurança, desordem e abandono, e essa situação precisa ser corrigida com urgência”, dizia a justificativa.
Por algum motivo, não colou. Mas o vereador não desistiu e apresentou uma proposta para proibir que se dê comida para pessoas pobres em certos lugares. Embora não proíba a caridade em geral, restringe tanto a doação de comida e põe tantas barreiras que é como se alimentar alguém fosse uma indecência.
Os pobres ligados ao MST também são alvo de um projeto de Eder Borges, que proíbe a Prefeitura de Curitiba de dar um centavo para o movimento - quem, entre outras coisas, tem um dos mais belos projetos de distribuição de alimentos para pessoas pobres de Curitiba, o Marmitas da Terra.