No último dia 29/09, o Anfiteatro 100 da Universidade Federal do Paraná (UFPR) recebeu um evento que debateu a violência contra os povos indígenas. Na ocasião, foram apresentados dados do relatório “Violência contra os Povos Indígenas no Brasil –2024”, levantamento do Conselho Indigenista Missionário (Cimi).
O evento fez parte da XVI Semana de Arqueologia e Antropologia da UFPR e foi organizado pela Articulação dos Povos Indígenas do Brasil (APIB), pela Regional Sul do Cimi e pela Pastoral Indígena/Indigenista da Arquidiocese de Curitiba.
Participam integrantes do Conselho Indigenista Missionário, da Arquidiocese de Curitiba, indígenas da Região Metropolitana e também da Tekoha Guasu Guavirá, terra indígena que fica nos municípios de Guaíra, Terra Roxa e Altônia no Oeste paranaense.
Lançado anualmente, o Relatório do Cimi é o mais importante levantamento sobre a violência contra os povos indígenas do Brasil. A apresentação dos dados compilados foi feita pela missionária Marline Dassoler Buzatto.
Marline abordou o cenário nacional de violência contra os povos indígenas no ano de 2024 e destacou os números aqui do Paraná. Segundo o Relatório, 154 casos de conflitos por direitos territoriais foram registrados contra indígenas de todo o país no ano passado. O documento também traz o registro de 230 casos de invasões possessórias, exploração ilegal de recursos e danos ao patrimônio.
Foram, conforme o levantamento do Cimi, 857 casos de omissão e morosidade na regulação de terras indígenas. Os estados que mais registraram esse tipo de violência foram Amazonas (257), Mato Grosso do Sul (159) e Rio Grande do Sul (125). No Paraná foram 45 casos.
No quesito “violência contra a pessoa”, o Brasil registrou ano passado 420 casos contra indígenas, sendo 19 abusos de poder; 20 ameaças de morte; 35 ameaças várias; 211 assassinatos; 20 homicídios culposos; 19 lesões corporais dolosas; 39 casos de racismo e discriminação; 31 tentativas de assassinato e 20 casos de violência sexual.
Os estados que mais registraram este tipo de violência foram o Mato Grosso do Sul com 88 casos; Amazonas com 68 e Roraima com 63. No Paraná foram 33 casos, maior quantidade entre os estados do Sul.
Assassinatos de indígenas foram registrados em maior número no estado de Roraima (57), no Amazonas (45) e em Mato Grosso do Sul (33). O estado do Paraná registrou o assassinato de três indígenas.
Marline Dassoler explicou que o Cimi apresenta este relatório há muitos anos e infelizmente os números da violência contra os indígenas só cresce. “Não gostaríamos precisar publicar anualmente este relatório. Poderíamos, por exemplo, estar discutindo aqui a quantidade de terras já demarcadas e como isso contribuiu para a vida dos povos indígenas. Mas, infelizmente, precisamos continuar publicando estes dados, que são estarrecedores”, disse a missionária.
Violência contra indígenas no Oeste do Paraná
Ilson Soares é cacique na Tekoha Y’Hovy, na Terra Indígena Tekoha Guasu Guavirá. A reserva fica no oeste paranaense. Na região vivem milhares de Avá-Guaranis divididos em duas terras indígenas nos municípios de Guaíra, Terra Roxa e Altônia.
Na Terra Indígena Tekoha Guasu Guavirá vivem hoje, segundo dados Cimi, 4.171 pessoas. Sendo 3.016 pessoas no município de Guaíra e 1.085 em Terra Roxa.
A Terra Indígena está sobreposta por 165 fazendas. Ela ainda está sob um processo de demarcação. Porém, há uma liminar na Justiça Federal que impede seu andamento. Nos últimos anos, no entanto, as comunidades Guaranis foram retomando espaços dentro da terra identificada, ampliando as unidades locais ou retomando novas terras.
Essas ampliações e retomadas se intensificaram no final de 2023 e resultaram no aumento do território sob posse das comunidades. Com as retomadas vieram também os ataques promovidos por fazendeiros da região. Eles aconteceram durante vários meses de 2023, incluindo investidas feitas na véspera de Natal, e ao longo de todo o ano de 2024 e também 2025.
Durante o evento na UFPR, Ilson Soares revelou que o clima de medo é constante nas aldeias e que os ataques já viraram rotina. “Os povos que estão na fronteira têm sofrido muitos e intensos ataques. Além dos ataques, sofremos, ao longo da história, um enfraquecimento da nossa cultura. Perdemos também nossa fauna e nossa flora”, disse.
O Cacique destacou as diversas formas de violência imposta aos indígenas do Oeste do estado. “Nossas retomadas têm sofrido uma violência contínua e das mais variadas formas. Desde ameaças, sequestros, homicídios e até decapitações”.
Dezenas de ataques foram promovidos pelo agronegócio, principalmente em Guaíra e Terra Roxa, ao longo de 2024. Em outubro do ano passado, por exemplo, na Tekoha Yvyju Awary, a liderança da comunidade foi atingida a pauladas na cabeça, tendo levado diversos pontos e inúmeras escoriações pelo corpo, por reclamar do fazendeiro que quebrou o acordo feito numa audiência com o mediador de conflito indicado pelo Conselho Nacional de Justiça (CNJ). Neste ataque, até o cachorro da comunidade foi morto a sangue frio.
Antes, em janeiro de 2024, quatro Avá-Guaranis foram atingidos por disparos de arma de fogo enquanto faziam rituais religiosos da comunidade. Desses, três foram encaminhados ao hospital de Toledo e precisaram passar por cirurgia – um deles é o líder espiritual (xamoi). “Nosso rezador foi sequestrado e torturado, com socos, chutes. Nossa rezadora foi baleada dentro da casa de reza”, conta Ilson.
O Cacique reclama da omissão do poder público na demarcação das terras indígenas e revela também que as lideranças se sentem ameaças quando precisam solicitar auxílio das forças de segurança. “Muitas vezes, quando chamamos pelo poder público, também sofremos ameaça, também sofremos violência. Nós, enquanto lideranças indígenas, somos perseguidos pela polícia como se fôssemos terroristas”, afirma.
No dia 12 de julho de 2025 um crime bárbaro chocou o estado do Paraná. Na ocasião, Everton Lopes Rodrigues, de 21 anos, foi assassinado e teve a cabeça separada do corpo em Guaíra. Ele era indígena e filho de Bernardo Rodrigues Diegro, cacique da Aldeia Yvyju Avary.
No local onde estavam os restos mortais do Avá-Guarani foram encontrados uma motocicleta abandonada e um bilhete que trazia ameaças à aldeia e também à Força Nacional de Segurança (FNSP), que atua na região desde agosto de 2024.
As ameaças eram direcionadas também para as crianças da aldeia. O bilhete avisava que o ônibus que transporta as crianças das aldeias para escolas poderia ser incendiado. Este episódio, conforme destaca o Cacique Ilson Soares, elevou a tensão na região a outro nível. “Nossas crianças estão traumatizadas e nossas mulheres não dormem durante a noite. Quando fechamos os olhos para dormir lembramos dos tiros e dos gritos. Isso não sai da nossa cabeça. Nossas crianças que precisam dormir durante a noite, para estudar durante o dia, não conseguem. Nossos sonhos, de ver nossos filhos criados e formados também têm sidos tirados de nós”, lamentou.
Violência contra indígenas nos centros urbanos
Da mesa que debateu a violência contra os povos indígenas participou também Kixirá Jamamadi. Ela é da nação Jamamadi e saiu de Rio Branco, no Acre, para morar em Curitiba.
Kixirá falou sobre os diversos desafios e as violências que indígenas não aldeados sofrem. “Esse relatório é um retrato daquilo que vivemos neste país. Nós, pessoas indígenas que vivam nas cidades, também enfrentamos muitos problemas. Como a precarização do trabalho, a luta por moradia digna. Nós também acordamos cedo para ir trabalhar, para a cidade se alimentar, se vestir. Na educação, para nós que estamos na cidade, o desafio é também enorme, porque não existe aqui uma educação diferenciada, voltado para atender as especificidades dos estudantes indígenas”, destacou.