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Produtos "Made in Paraná" chegam a países do mundo todo, do Afeganistão ao Zimbábue

Indústria do estado diversificou pauta de exportações, abriu novos mercados e hoje vende R$ 70 bilhões anualmente para todos os continentes

Produtos "Made in Paraná" chegam a países do mundo todo, do Afeganistão ao Zimbábue
Exportação de cabelos para Israel é uma realidade: e eles saem do Terminal Guadalupe. Foto: Tami Taketani/Plural
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Perfumes para Angola, guarda-sóis para a Austrália, cerveja para Cuba. Chocolates para Mali, cartões por aproximação para o México, óleos essenciais para o Azerbaijão. Chicletes sem açúcar para o Equador, faróis para o Marrocos e móveis de madeira para a República Democrática do Congo. A lista é variada, mas representa apenas uma fração da pauta de exportações da indústria paranaense em 2024.

Nas últimas semanas, empresários e trabalhadores de todo o Brasil foram forçados a pensar no impacto que as tarifas impostas pelos Estados Unidos às exportações brasileiras terão sobre nossa economia. Empregos foram postos em xeque e o próprio PIB do país pode ser afetado. Mas tudo isso seria muito pior caso o país não tivesse, ao longo das últimas décadas, ampliado o número de países que recebem nossos produtos e diversificado a nossa lista de ofertas.

A indústria paranaense é um exemplo disso. Por um lado, houve uma procura por novos mercados. Hoje, no ranking das exportações industriais do estado, os norte-americanos não figuram nas dez primeiras posições de maiores compras. O primeiro lugar, disparado, fica com os chineses, que levaram do Paraná, entre janeiro e dezembro do ano passado, US$ 2,3 bilhões. A Índia, que comprou US$ 253 milhões em óleo de soja, aparece em segundo lugar. A Argentina, com a importação de US$ 229 milhões em automóveis, fecha o pódio.

A maior compra feita pelos EUA de produtos paranaenses em 2024 foi de madeira de coníferas, como o pínus: os US$ 112 milhões aparecem no décimo segundo lugar das vendas industriais paranaenses do ano. Madeiras compensadas e carregadoras ou pás carregadoras são os dois itens mais vendidos pelo Paraná para o país de Donald Trump.

Clientes de A a Z

As exportações industriais são parte fundamental da economia paranaense. Em 2024, o estado vendeu para o exterior US$ 13,2 bilhões, o equivalente a R$ 70 bilhões. Foi o melhor resultado da Região Sul e o suficiente para responder por aproximadamente 10% de todo o PIB do estado no ano. Isso se deve, em grande medida, ao esforço consciente que tem sido feito, tanto pelo governo federal quanto pelos estados e pelo empresariado, para abrir mercados em todos os continentes.

A lista de clientes do Paraná é extensa, com mais de 200 países e territórios aparecendo como clientes em 2024. Claro que a importância do comprador varia imensamente. Se a China, sozinha, comprou US$ 3 bilhões num só ano, e os Estados Unidos levaram US$ 856 milhões em produtos, alguns países têm compras bem mais modestas, mas que podem ser significativas para um setor ou para um grupo de empresas.

Noruega comprou US$ 65 milhões em torneiras do Paraná. Foto: José Fernando Ogura/AEN

A Noruega, por exemplo, comprou quase US$ 92 milhões. O principal produto? Mais de US$ 65 milhões em torneiras. Do mesmo modo, em 2024 a Bélgica comprou US$ 24 milhões em compensados e o Chile arrematou nada menos que US$ 25 milhões em tratores ou semirreboques. Dinheiro que, certamente, garantiu emprego e renda a muita gente no Paraná.

A lista de compradores de produtos industriais paranaenses vai, literalmente, de A a Z. São coxas de frango para o Afeganistão, produtos para obturação dentária para a Albânia, mel para a Alemanha. Na letra A ainda dá para encontrar a venda de tintas para Antígua e Barbuda, carros e tratores para a Argentina e autopeças para Aruba, guarda-sóis para a Austrália. Claro que esses são apenas uns poucos exemplos de uma relação enorme e variada.

Depois de passar o nome por quase todos os países do mundo (as exceções são países de regime muito fechado, como a Coreia do Norte, ou minúsculos, como Mônaco e o Vaticano), chega-se ao Z. E lá você descobre que a maior exportação industrial do Paraná para a Zâmbia são móveis de madeira, e no caso do vizinho Zimbábue, o ranking é liderado pela compra de papéis para escrita.

Tartarugas e cabelos

Em alguns pontos, a pauta de exportações inclui vendas que beiram o folclórico. Caso da venda de "cabelos, mesmo lavados ou desengordurados
" para Israel (foram US$ 145 mil) e de quase US$ 900 mil para a Itália que recaem sob a rubrica "Carapaças de tartarugas, chifres, galhadas, cascos, etc."

No caso dos cabelos, a explicação é curiosa. Mulheres judias, especialmente as ortodoxas, têm a obrigação religiosa de cobrir a cabeça em certas circunstâncias. Isso pode ser feito, por exemplo, com uma peruca de cabelos naturais. E aparentemente as israelenses têm uma preferência pelos cabelos das brasileiras, que tenham cabelos lisos e ao mesmo tempo fartos (pelo jeito, isso não é tão facilmente encontrado em qualquer país).

Um dos que lucra com isso é José Alvino, o popular Zé do Cabelo, que há décadas mantém um salão na região do Terminal Guadalupe, em Curitiba. Ele chega a pagar R$ 10 mil em certos cortes - embora a média para cabelos longos e sem tintura fique na casa dos R$ 1 mil. E, sim, os fios cortados ali no Centro de Curitiba são tratados e enviados para o Oriente Médio.

O caminho das vendas

Economista da Federação das Indústrias do Paraná (Fiep), Evanio do Nascimento Felippe conta que, além da diversificação de produtos e mercados, o Paraná também tem apresentado evolução no perfil de quem exporta. Há muito ficou para trás a ideia de que apenas grandes conglomerados industriais têm potencial para vender seus produtos fora do país.

Hoje, conta Evanio, as pequenas e médias empresas já têm um papel importante na pauta de exportações paranaenses. E isso, além de fomentar o crescimento das próprias indústrias, ajuda a estimular a economia local - são novas contratações, compra de maquinário e investimentos que surgem devido aos dólares recebidos do exterior.

Porto de Paranaguá: ponto de saída de grande parte das exportações paranaenses. Foto: Claudio Neves/Portos do Paraná

"A exportação acaba sendo muitas vezes uma consequência até natural do crescimento das empresas", diz o economista. "A produção vai se ampliando e você precisa de novos mercados. Muitas vezes, os compradores podem estar fora do Brasil, e aí começa o aprendizado para levar o produto para atravessar as fronteiras", explica.

A curva de aprendizado nem sempre é suave, e aí entram em cena parceiros que podem ajudar a descobrir o caminho das pedras - como a própria Fiep. Desde 1971, a federação mantém um centro para treinamento e apoio para empresas que estão se iniciando no processo de exportação.

Antes chamado Cexpar, o atual CIN (Centro Internacional de Negócios do Paraná) ajuda os pequenos e médios empresários a entender todas as certificações necessárias para venda de um produto, as restrições fitossanitárias, qual a documentação exigida em cada caso etc. E esse meio de campo é fundamental para a inclusão de novos CNPJs na lista de exportadores do Paraná.

De São José para a Tesla

O trabalho do CIN ajudou recentemente o empresário Edmar Dias a compreender melhor o que precisa fazer para vender diretamente seus maquinários para outros países. Dono da Dgrande, uma fabricante de mesas elevatórias sediada em São José dos Pinhais, na região metropolitana de Curitiba, ele participou durante quatro dias, junto com três funcionários, do treinamento do Centro Internacional de Negócios.

"Hoje nosso material já vai para fora, mas nós nunca exportamos diretamente", explica Edmar, que está há onze anos à frente da empresa, líder de seu segmento no país. "Sempre o que acontece é que um cliente de fora precisa de uma solução para a a fábrica e contrata uma integradora que monta o que for preciso. Nós vendemos nosso maquinário para essa integradora, e é ela quem exporta", explica ele.

Mesa elevatória erguendo colheitadeira de 30 toneladas: produção em São José dos Pinhais. Vídeo: YouTube

Foi assim, por exemplo, que recentemente uma esteira para linha de montagem saiu dos galpões da Dgrande com destino a uma fábrica da Tesla, nos Estados Unidos. "Nossas mesas elevatórias hoje estão na China, no México, na Argentina, mas sempre a venda é feita por uma outra empresa."

Nas conversas com o CIN, Edmar descobriu alguns caminhos que podem levar a vendas diretas, o que teria potencial para aumentar o lucro em cada projeto. "Foi muito bom o conhecimento que tivemos. Agora estamos trabalhando em algumas frentes, fazendo site em inglês, fazendo até um trabalho no LinkedIn para atrair possíveis clientes de fora", diz ele.

Quando ultrapassarem as fronteiras, as máquinas da Dgrande estarão se unindo às vans que o Paraná todos os anos manda para a Costa do Marfim; à pasta de dentes que mandamos para o México e aos desodorantes comprados em Moçambique; às rolhas que saem do Paraná para proteger vinhos na França e às bombas de combustíveis que vendemos para o Uzbequistão. Tudo para gerar lucro, renda e empregos aqui no estado.

Rogerio Galindo

Rogerio Galindo

Jornalista, um dos fundadores do Plural.

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