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Prece a Nossa Senhora da Luz dos Pinhais

Nossa Senhora da Luz dos Pinhais, em meio às lutas que somos instados a travar cotidianamente, me mantém longe das senhoras (e dos senhores) das trevas dos punhais

Prece a Nossa Senhora da Luz dos Pinhais
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Nossa Senhora da Luz dos Pinhais, em meio às lutas que somos instados a travar cotidianamente, me mantém longe das senhoras (e dos senhores) das trevas dos punhais.

Protege-me dos dos crápulas, dos babacas, dos sacanas. Porque sempre tem um gaiato que quer sacanear. Um traquinas, um chistoso, um travesso, um traíra, um endiabrado que vai galhofar, escarnecer, achincalhar, embaçar, embustear, trair.

De qualquer forma, como diz a canção, “tem piedade dos pecadinhos que de tão pequenininhos não fazem mal a ninguém” — quem não sabe que a chamada culpa católica é uma das tantas engendradoras de demência?

Nossa Senhora da Luz dos Pinhais, uma vez que vivemos numa cidade da cor e do sabor da vodka gelada, causadora de cardiomiopatia alcoólica, arritmias, infartos agudos, hipertensão arterial, diabetes e sabe-se lá mais o quê, para falar o mínimo… Agradeço por minha saúde. E suplico que siga a iluminar minha mente e meu coração para a manutenção da sanidade.

Saudação especial ao meu psicanalista, pois, assim como escreveu Hélio Pellegrino, ele sabe bem demais que “quando você resolve tratar, cuidar de uma pessoa, você já tomou partido dela, ou seja, aquilo que você acha que seja a sua saúde. Não existe neutralidade nem distanciamento (…) Consentimento com a existência da pessoa, e isto é uma posição de amor. A pessoa adoece por carência de verdadeiras relações pessoais, se você lhe der impessoalidade e neutralidade você dá exatamente aquilo que causou a doença. A tarefa da psicanálise é a de construção de um encontro, e não há encontro que seja impessoal; impessoal é o desencontro." (Obrigado, Antônio Pellegrino por me mostrar este texto do seu avô).

Devemos, afinal, nos empenhar para não vivermos carregando viciosa e eternamente feridas que mantenham acesas nossas dores. Claro que sombras, desertos internos, destroços, sustos e soluços existem de tal modo que o contraponto a tudo isso pode mesmo parecer insuficiente, já que a felicidade tantas vezes é inapreensível e inominável. Mas ainda assim, Dona Luz, ainda assim. Não existe limpeza ou organização permanente. Nem na casa, nem na gente.

Dona Luz dos Pinhais, me mantém grato por viver sob a amizade da sombra das árvores. Conscientiza aqueles que as abatem para que apenas parem de arranca-las do solo. Esses seres maravilhosos que são as árvores precisam (e precisamos) que os ajudemos a povoar a terra com sua beatitude, exuberância e generosidade de fonte vital.

Ainda gostaria de pedir por cada uma das pessoas da nossa cidade. Protege das adversidades as famílias em seus lares. Acode aqueles que estão em situação de vulnerabilidade. Oferece com fartura o presente e de modo dadivoso o futuro para nossas crianças.

No mais, agradeço pelo meu trabalho. E pelo desejo que nunca se aplaca de fazer literatura. Mesmo que tantas vezes eu tenha medo, me dá coragem. Mesmo que tantas vezes a preguiça me alcance, me entusiasma, porque até para dengar nossos amores carecemos de energia limpa. Mesmo que eu não consiga evitar algumas burradas, auxilia minha inteligência.

Querida Senhorinha da Luz dos Pinhais, termino esse momento de prece íntima, como li nalgum lugar, indagando se “de repente todas as rezas não são as cinzas de nossos sonhos.” Os sonhos são então, assim como o fogo, uma potência — no paleolítico o ser humano descobre o fogo, aprende a controlar o fogo… Dito isso (e mesmo por causa disso), não permite que eu perca a capacidade de sonhar.

Tags: Cronicas

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