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Quatro anos após mortes de jovens pela PM, reconstituição do caso é realizada em Londrina

Apesar de a reprodução simulada ter sido realizada em local diferente da abordagem policial, famílias dos mortos e sobrevivente comemoram

Quatro anos após mortes de jovens pela PM, reconstituição do caso é realizada em Londrina
Reconstituição da cena: dois jovens mortos pela PM
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Quatro anos após a morte de dois jovens durante uma abordagem da Polícia Militar em Londrina, as famílias das vítimas e o sobrevivente do caso conseguiram que a Polícia Civil e o Ministério Público realizassem, por determinação judicial, uma reconstituição da ocorrência. O procedimento foi realizado nesta terça-feira (5), um dia antes do aniversário das mortes de Anderbal Campos Bernardo Júnior, de 21 anos, e Willian Jones Faramilio da Silva Junior, de 18.

Os jovens foram mortos em 6 de maio de 2022 na marginal da rodovia em frente à Universidade Estadual de Londrina (UEL), em plena luz do dia. O local não contava com câmeras de segurança nem testemunhas que pudessem acompanhar a ação policial.

Um terceiro jovem, que estava no mesmo veículo, sobreviveu apesar de ter sido atingido por vários tiros e passar dias internado na Unidade de Terapia Intensiva (UTI). Em depoimento à polícia, ele afirmou que os policiais do Choque já chegaram atirando contra o carro. Segundo o relato, Anderbal e Willian morreram na hora. O sobrevivente disse ainda ter visto policiais retirarem um dos corpos do veículo e colocarem armas junto aos jovens. Ele também relatou que ouviu dos agentes que morreria antes da chegada do socorro.

Reprodução

A encenação técnica da abordagem foi realizada dentro do Parque Ney Braga. Apenas familiares puderam acompanhar a movimentação à distância. A imprensa não teve autorização para entrar no parque. Participaram do procedimento os seis policiais militares investigados pelas mortes e o sobrevivente, hoje com 27 anos. Advogados das partes acompanharam os trabalhos de perto.

O advogado Mauro Martins, que representa o sobrevivente, criticou o fato de o procedimento não ter sido realizado em frente à UEL, mas avaliou que a atividade permitiu registrar detalhes importantes do depoimento do sobrevivente, cujo nome não é divulgado por medo de represálias. Segundo ele, o jovem conseguiu explicar a posição dos veículos, a distância entre eles, o local onde os policiais estavam e o momento em que foi atingido pelos tiros.

Ainda conforme o advogado, os policiais também apresentaram suas versões durante a simulação técnica, que acabou dividida entre os relatos dos agentes e do sobrevivente.

Segundo Martins, a defesa avalia pedir uma perícia médica complementar após a conclusão do laudo técnico da reconstituição, que deve ficar pronto entre 30 e 60 dias. “O perito já sinalizou que tem questões de ordem médica que ele não pode falar, porque tem que existir ordem médica, mas ele vai se manifestar acerca desses quesitos informando que compete ao médico fazer as respostas”, afirmou o advogado.

Já o advogado Marcus Vinícius Marques, que representa as famílias de Anderbal e Willian, avaliou que a prova técnica representa um avanço importante nas investigações. “A prova produzida por meio da reprodução simulada representou um grande avanço para a continuidade das investigações, sobretudo no esclarecimento de pontos que ainda geravam dúvidas acerca dos fatos relatados ao longo do procedimento investigativo”, afirmou.

Segundo Marques, embora a atividade tenha ocorrido em local diferente do cenário original, a expectativa é que a maior parte dos questionamentos seja respondida pelo laudo pericial. “Quanto àqueles eventualmente prejudicados em razão da ausência de fidelidade do cenário original, aguarda-se a conclusão do laudo pericial, a fim de que sejam manejadas as impugnações necessárias e pertinentes para o regular prosseguimento das investigações”, declarou.

Para ele, de maneira geral, a reconstituição foi “positiva e relevante para o esclarecimento dos fatos”.

Equipe da Choque deixa Parque Ney Braga, após reprodução simulada

“O trabalho da polícia não é matar”

A mãe de Willian, Hayda Melo, criticou a atuação policial e lamentou que a reconstituição não tenha ocorrido no local exato das mortes. “Meu filho não tinha nenhuma passagem. Mesmo que tivesse, o trabalho da polícia não é matar, o trabalho da polícia é prender”, afirmou. “Os policiais agiram como se meu filho fosse culpado e o condenaram à morte, sendo que não há pena de morte no País.”

Hayda também afirmou que a proprietária do carro roubado que teria motivado a abordagem não reconheceu nenhum dos jovens como autores do crime. “A dona do carro não reconheceu nenhum dos meninos como as pessoas que a roubaram. Mas os policiais nem deram direito à defesa”, disse.

Ela classificou como “lamentável” a decisão de não realizar o procedimento em frente à UEL e ironizou a alegação de falta de segurança apresentada pela defesa dos policiais. “É ridículo eles dizerem que não tinham segurança para fazer no local. Eles se sentiram ameaçados por nós. Quer dizer que eu, minha mãe, minha irmã podemos representar perigo para a polícia?”, questionou.

Apesar das críticas, Hayda afirmou considerar a realização da reconstituição uma conquista das famílias. “Mas assim, como eu falei, já é uma vitória.”

Adiamentos e disputa sobre o local

A reconstituição havia sido marcada inicialmente para abril de 2025, no local exato da ocorrência, mas foi cancelada de última hora após a Polícia Militar alegar que todo o efetivo estava mobilizado para a segurança da ExpoLondrina.

Posteriormente, a defesa dos policiais pediu à Justiça que o procedimento fosse realizado em local fechado, alegando preocupação com a segurança dos agentes. Familiares das vítimas e a defesa do sobrevivente contestaram o pedido, sustentando que a legislação prevê que esse tipo de procedimento ocorra no local dos fatos. O pedido dos policiais, no entanto, foi aceito.

Uma nova data chegou a ser marcada na sede do Instituto Médico Legal (IML), mas o ato foi novamente suspenso após a defesa dos PMs pedir cancelamento diante da presença da imprensa e da insistência da defesa das vítimas em registrar imagens da atividade.

Em seguida, uma terceira tentativa foi marcada para o autódromo de Londrina, porém a chuva provocou novo adiamento. Somente nesta terça-feira o procedimento pôde finalmente ser realizado.

Delegado não se manifesta

Questionada pela reportagem, a assessoria de imprensa da Polícia Civil informou que o delegado responsável pelo caso não concederia entrevista. A defesa dos policiais militares também foi procurada, mas não respondeu até a publicação desta reportagem.

Nelson Bortolin

Nelson Bortolin

Jornalista, um dos fundadores da Rede Lume de Jornalismo, de Londrina

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Tags: Paraná poder

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