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A fruta que reinventou Carlópolis

Cidade do Norte Pioneiro conquistou Indicação Geográfica, certificação internacional e tornou-se a Capital Nacional da Goiaba de Mesa

A fruta que reinventou Carlópolis
Osmar Viana e sua plantação de goiaba Foto: Nelson Bortolin
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A geada de 1975 destruiu cafezais, transformou a paisagem do Norte Pioneiro do Paraná e obrigou milhares de famílias a reinventar seus meios de vida. Em Carlópolis, município com cerca de 17,5 mil habitantes, localizada a 65 km de Jacarezinho, a reconstrução econômica veio anos depois pelas mãos de uma fruta que hoje se tornou símbolo da cidade: a goiaba.

Reconhecida oficialmente como Capital Nacional da Goiaba de Mesa, Carlópolis também possui uma das Indicações Geográficas (IGs) do Paraná, concedida pelo Instituto Nacional da Propriedade Industrial (Inpi). O selo ajudou a abrir mercados, fortalecer a identidade regional e impulsionar uma cadeia produtiva baseada majoritariamente na agricultura familiar.

“O café acabou com a geada”, resume o produtor Osmar Viana, de 80 anos, ao recordar a transformação da região. Natural de São Paulo, ele chegou a Carlópolis na década de 1960 para trabalhar nas lavouras cafeeiras. “Em 75, muita gente ficou sem nada”, conta. Depois de passar pela pesca e pelo cultivo de tomate, Osmar acabou entrando na produção de goiaba. Na época, a fruta ainda era cultivada por poucos produtores descendentes de japoneses na região. Hoje, meio século depois, a realidade econômica do município mudou completamente.

Das 42.664 toneladas de goiaba produzidas no Paraná em 2024, cerca de 33 mil toneladas — o equivalente a 77% do total estadual — saíram de Carlópolis. Os dados são do Instituto Paranaense de Desenvolvimento Econômico e Social (Ipardes). A liderança do município é ampla. Para se ter uma ideia, o segundo maior produtor do Estado, Joaquim Távora, colheu apenas 1.500 toneladas no mesmo período.

A produção carlopolitana também chama atenção pelo ritmo de crescimento. Em 2017, o município produzia cerca de 10 mil toneladas de goiaba. Em sete anos, o volume mais que triplicou, impulsionando a economia local e consolidando Carlópolis como o principal polo produtor da fruta no Paraná e um dos maiores do País.

Agricultura familiar sustenta a cadeia produtiva

A produção de goiaba em Carlópolis é marcada pelo predomínio de pequenas propriedades e pelo trabalho familiar. “Hoje em dia uma lavoura de 500 pés sustenta uma família tranquilamente. De uma a duas famílias”, afirma o produtor Eduardo Aparecido da Silva, de 23 anos. Segundo ele, a maior parte dos produtores vive na própria propriedade rural. “O município tem 17.500 habitantes e mais de 4 mil propriedades com famílias morando nelas”, relata.

A fruta exige manejo constante e praticamente toda a produção é manual. O processo envolve poda, desbrota, raleio, ensacamento e colheita. “A colheita da goiaba é 100% manual. A única coisa que você mecaniza é o transporte”, explica. O trabalho de raleio é um dos segredos para garantir frutas maiores e mais valorizadas no mercado. “Um galho chega a dar até oito goiabas. A gente reduz para três ou quatro. Senão a fruta fica pequena”, explica o produtor.

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O produtor Eduardo Aparecido da Silva leva goiaba da Coac para feira de fruta em Madri (Espanha) - Foto: Divulgação

Clima, tecnologia e manejo diferenciado

Os produtores atribuem ao clima e às características do solo parte do sucesso da cultura na região. “Acredito que seja o clima e também um pouco a terra”, resume Eduardo.

A variedade predominante hoje é a Suprema Vermelha, derivada da antiga goiaba tailandesa. “Foi uma das variedades que mais se adaptou aqui”, afirma.

A região também desenvolveu um sistema próprio de ensacamento das frutas ainda no pé, prática que ajuda a reduzir o uso de defensivos agrícolas. “Com o ensacamento, a gente tem pelo menos 70% a 80% de redução de defensivos químicos”, diz Eduardo.

Da Indicação Geográfica à exportação

O reconhecimento da Goiaba de Carlópolis como Indicação Geográfica foi um divisor de águas para o setor. Segundo Eduardo, o processo começou em 2013 e abriu caminho para certificações internacionais e exportações. Em 2018, os produtores criaram a Cooperativa Agroindustrial de Carlópolis (Coac) justamente para organizar a comercialização e atender às exigências do mercado externo.

Hoje, a cooperativa exporta para países europeus utilizando a certificação GlobalG.A.P., exigida por redes internacionais de varejo. “No mercado interno conseguimos, em média, R$ 2,58 por caixa. Na exportação, R$ 5”, relata Eduardo.

Atualmente, cerca de 2,5% da produção da cooperativa é destinada ao exterior, mas os produtores acreditam que esse percentual pode crescer significativamente nos próximos anos.

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Goiabeira com todos os frutos já ensacados - Foto: Nelson Bortolin

Da lavoura paranaense às prateleiras europeias

A logística da fruta impressiona. Em menos de três dias, a goiaba sai do pé em Carlópolis e chega às prateleiras europeias. “O produtor colhe de manhã, entrega na cooperativa, a fruta segue para Guarulhos à noite e, no terceiro dia, já está no mercado europeu”, explica Eduardo.

Segundo ele, a fruta chega a ser comercializada na Europa por até 10 euros a caixa de 2 kg.

A localização estratégica do Norte Pioneiro também favorece a atividade. Carlópolis está relativamente próxima de Londrina, Curitiba e São Paulo, facilitando o acesso aos principais centros consumidores e aos canais de exportação.

Além dos resultados econômicos, os produtores defendem que o modelo baseado na agricultura familiar contribui para a preservação dos recursos naturais e fortalece atividades ligadas ao turismo regional, como a represa de Chavantes e a região turística Angra Doce.

Organização coletiva e valorização do território

A excelência da produção rendeu à goiaba de Carlópolis três importantes reconhecimentos ao longo da última década. Em 2016, o Instituto Nacional da Propriedade Industrial (Inpi) concedeu à Goiaba de Carlópolis o registro de Indicação Geográfica (IG), na modalidade Indicação de Procedência. O selo reconhece produtos ou serviços que possuem forte ligação com um determinado território e cuja reputação, qualidade ou características estão associadas à sua origem geográfica.

Três anos depois, em 2019, a Cooperativa Agroindustrial de Carlópolis (Coac) obteve a certificação internacional GLOBALG.A.P. (Global Good Agricultural Practices), uma das mais importantes do setor agrícola. A certificação atesta o cumprimento de rigorosos padrões de qualidade, rastreabilidade, segurança alimentar e sustentabilidade, abrindo caminho para a comercialização da fruta em mercados mais exigentes, inclusive no exterior.

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O consultor do Sebrae Odemir Capello acompanha o desenvolvimento da goiaba de Carlópolis desde os anos 1990 - Foto: Nelson Bortolin

Para o consultor do Sebrae/PR Odemir Capello, a trajetória da goiaba de Carlópolis é resultado de décadas de trabalho coletivo e de uma aposta consistente na agricultura familiar. Acompanhando o desenvolvimento da fruticultura no município desde o início da década de 1990, ele afirma que a força da região está justamente nas pequenas propriedades. “A gente precisava encontrar um caminho para que o pequeno produtor pudesse competir. E esse caminho passou pelo associativismo, pela organização e pela busca de diferenciação”, afirma.

Segundo Capello, a experiência europeia serviu de inspiração para o modelo adotado no Norte Pioneiro. Em viagens e estudos realizados ao longo dos anos, ele observou como regiões formadas por pequenas e até micropropriedades conseguiram agregar valor à produção por meio da especialização e da atuação coletiva.

Foi nesse contexto que surgiu o trabalho voltado à Indicação Geográfica (IG), instrumento que ajudou a organizar os produtores e a criar padrões de qualidade para a fruta. O processo, porém, não ocorreu sem conflitos. “Todo projeto de sucesso com pequenos produtores passa por algum momento de ruptura. Organizar é a parte mais difícil. Nem todos querem seguir as mesmas regras ou enxergam o mesmo futuro”, relata.

Capello lembra que a implantação da IG exigiu mudanças importantes na condução dos pomares, especialmente em questões relacionadas à sanidade e à rastreabilidade da produção. As divergências acabaram levando parte dos produtores a criar uma nova estrutura organizacional, que mais tarde se consolidaria como protagonista do processo.

Na avaliação do consultor, a certificação foi decisiva para aumentar a visibilidade da goiaba de Carlópolis. “A indicação geográfica ajudou muito a dar notoriedade ao produto. Depois vieram outros reconhecimentos, como o título de Capital Nacional da Goiaba, e tudo isso foi fortalecendo a imagem da fruta.”

O trabalho também abriu portas para o mercado internacional. Capello participou das primeiras missões que apresentaram a goiaba de Carlópolis em feiras de frutas na Europa. “Quando falamos que produzíamos goiaba, um motorista de táxi espanhol perguntou o que era aquilo. Hoje o produto já é conhecido em vários mercados e desperta interesse de compradores internacionais”, conta.

Segundo ele, a exportação exigiu uma nova etapa de organização dos produtores, incluindo a criação de uma cooperativa e a obtenção de certificações exigidas pelos compradores estrangeiros. O processo continua avançando, apesar dos desafios burocráticos.

Ao analisar as transformações do Norte Pioneiro ao longo das últimas décadas, Capello acredita que uma das principais mudanças ocorreu na autoestima da população. “Quando cheguei aqui, a região perdia moradores e faltavam oportunidades. Hoje a realidade é diferente. Existem perspectivas de crescimento, geração de renda e orgulho pelo que é produzido aqui.”

Para ele, a história da goiaba demonstra que o desenvolvimento regional é possível quando produtores, lideranças locais e instituições trabalham de forma integrada em torno de um objetivo comum.

A indústria que nasceu da goiaba

A produção de goiaba também impulsiona outros setores da economia de Carlópolis. Desde 2015, o empresário Marco Antônio Paiva mantém a Embalagens Sentinela, indústria especializada na fabricação de sacos de papel biodegradável utilizados para proteger os frutos contra a mosca-das-frutas, uma das principais pragas que afetam a cultura.

Atualmente, a empresa produz cerca de 10 milhões de sacos por mês, dos quais 90% são destinados à goiaba. “Nosso foco é a goiaba, mas também produzimos embalagens para outras culturas, como abacaxi, atemoia, caqui e pêssego”, afirma o empresário.

Os produtos já são comercializados para diversos estados brasileiros, entre eles São Paulo e Rio Grande do Sul, além de regiões como o Nordeste e a Amazônia.

Segundo Paiva, o ensacamento é realizado ainda no início do desenvolvimento da fruta, quando ela possui entre dois e três centímetros de diâmetro. “A goiaba é ensacada no começo do ciclo e permanece protegida até a colheita, cerca de dois meses depois”, explica.

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Marco Antônio Paiva: expectativa de dobrar a produção - Foto: Nelson Bortoliln

Além de proteger os frutos contra pragas e reduzir perdas, o sistema contribui para diminuir a necessidade de aplicação de defensivos agrícolas. O papel utilizado é biodegradável e pode ser descartado diretamente no solo após a colheita. “É um produto que se degrada rapidamente e não deixa resíduos químicos”, destaca.

Todo o processo de ensacamento é manual. Dependendo da experiência do trabalhador, é possível proteger até 10 mil goiabas por dia. A empresa gera atualmente nove empregos formais diretos, mas ainda possui capacidade ociosa para crescer. “Temos quatro máquinas instaladas e capacidade para dobrar a produção”, afirma Paiva.

Nelson Bortolin

Nelson Bortolin

Jornalista, um dos fundadores da Rede Lume de Jornalismo, de Londrina

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