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Polícias matam 20% mais na região de Londrina do que na de Curitiba

Levantamento do Plural com base em dados do Ministério Público mostra que a Região Metropolitana de Londrina registrou, entre 2017 e 2025, a maior taxa de mortes decorrentes de intervenção policial entre as principais regiões do Paraná; MP diz que ainda busca explicações para as diferenças regionais

Polícias matam 20% mais na região de Londrina do que na de Curitiba
Foto: Tami Taketani/Plural

Proporcionalmente ao tamanho da população, as forças de segurança mataram 20% mais na Região Metropolitana de Londrina (RML) do que na Região Metropolitana de Curitiba (RMC) entre 2017 e 2025. É o que mostra levantamento realizado pelo Plural com base em estatísticas do Ministério Público do Paraná (MPPR), órgão responsável pelo controle externo da atividade policial.

Segundo os dados do MPPR, 3.448 pessoas morreram em decorrência de intervenções da Polícia Militar, da Polícia Civil e das guardas municipais em todo o estado no período. Desse total, 579 mortes ocorreram na Região Metropolitana de Londrina, composta por 25 municípios, e 1.583 na Região Metropolitana de Curitiba, formada por 29 municípios.

Quando os números são ajustados ao tamanho da população, a taxa acumulada na RML chega a 5,12 mortes para cada 10 mil habitantes, enquanto na RMC é de 4,26 por 10 mil.

A distância para as demais regiões metropolitanas é grande. Na Região Metropolitana de Maringá, composta por 26 municípios e a terceira mais populosa do estado, foram registradas 187 mortes no período, o equivalente a uma taxa de 2,09 por 10 mil habitantes — menos da metade da observada na região de Londrina.

Fonte: MPPR
Fonte: MPPR

Porecatu e Londrina lideram ranking das microrregiões

Como nem todos os municípios paranaenses pertencem a regiões metropolitanas — casos de Ponta Grossa e Ortigueira, por exemplo —, a reportagem também calculou as taxas por microrregião, divisão territorial adotada pelo IBGE.

Nesse recorte, a microrregião de Porecatu, formada por oito municípios e integrante da Região Metropolitana de Londrina, lidera o ranking proporcional. Entre 2017 e 2025, foram registradas 45 mortes decorrentes de atuação policial, o que corresponde a uma taxa de 5,59 por 10 mil habitantes.

Na sequência aparece a microrregião de Londrina, composta por seis municípios, com 464 mortes e taxa de 5,56 por 10 mil habitantes. Apenas em terceiro lugar surge a microrregião de Curitiba, formada por 19 municípios, que, embora concentre o maior número absoluto de mortes (1.559), registra taxa de 4,4 por 10 mil habitantes.

Já a microrregião de Maringá, composta por cinco municípios, apresenta uma taxa muito inferior: 1,89 mortes por 10 mil habitantes, praticamente a mesma observada na microrregião de Ponta Grossa, formada por quatro municípios.

Fonte: MPPR
Fonte: MPPR

Gaesp diz que ainda busca explicações

Ninguém sabe explicar com segurança por que a letalidade policial é mais elevada na região de Londrina do que em outras áreas do Paraná.

Uma das hipóteses analisadas pelo Grupo de Atuação Especializada em Segurança Pública (Gaesp) é a possível concentração, em determinadas regiões, de policiais com perfil mais voltado ao enfrentamento direto da criminalidade. Segundo o coordenador do grupo, o procurador de Justiça Rodrigo Régnier Chemim Guimarães, trata-se, porém, de uma hipótese ainda não comprovada.

“Trata-se, contudo, de uma hipótese que ainda demanda validação técnica e análise mais aprofundada”, afirmou ao Plural, por meio da assessoria de imprensa do MPPR.

Chemim disse que o Gaesp já havia identificado as diferenças regionais e vem aprofundando estudos para compreender o fenômeno. Segundo ele, estão sendo avaliados fatores como o volume e o perfil das operações policiais, a atuação de unidades especializadas, os índices de criminalidade violenta, a presença do crime organizado e características operacionais e territoriais de cada região.

“As diferenças entre os números regionais são relevantes e merecem atenção. Justamente por isso, precisam ser analisadas com cuidado e contexto, para que não se faça apenas uma leitura superficial dos dados”, afirmou.

O coordenador informou ainda que o tema será discutido com promotores de Justiça e com a Secretaria de Estado da Segurança Pública (Sesp). Segundo ele, qualquer conclusão definitiva neste momento seria prematura.

O que diz a Sesp

Procurada pela reportagem para comentar as diferenças nos índices de letalidade policial entre as regiões do Paraná, a Secretaria de Estado da Segurança Pública (Sesp) não respondeu aos questionamentos específicos sobre o tema.

Em nota, a pasta afirmou que as forças de segurança seguem “protocolos rigorosos de treinamento e uso diferenciado da força, com prioridade à preservação da vida” e que o uso de arma de fogo ocorre apenas como último recurso, em situações de agressão injusta e iminente contra policiais ou terceiros.

A secretaria também argumentou que os números devem ser analisados em perspectiva com o volume total de abordagens policiais. Segundo a Sesp, em 2025 foram detidos 73.194 suspeitos em todo o estado. No mesmo período ocorreram 490 mortes em confrontos, o equivalente a pouco mais de 0,6% do total de detenções.

A pasta destacou ainda que todas as mortes decorrentes de intervenção policial são investigadas com acompanhamento do Ministério Público e do Poder Judiciário.

Por fim, a Sesp relacionou a atuação das forças de segurança à redução dos indicadores criminais, afirmando que o Paraná registrou em 2025 os menores números de homicídios, roubos e furtos desde o início da série histórica, em 2007.

Nelson Bortolin

Nelson Bortolin

Jornalista, um dos fundadores da Rede Lume de Jornalismo, de Londrina

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