Eu não me lembro quem foi, porque a memória é cada vez mais falha (acho eu, mas não tenho bem certeza sobre como ela era antes). Mas alguém me contou que segundo um autor (qual?) o grande lema, o grande mote de toda a extrema direita é: "Voltem todos a seus lugares". E embora eu não lembre o resto, a frase ficou, e me morde sempre o pensamento.
Porque, claro, tem uma possível origem na xenofobia isso: você não é desta terra, volte para o buraco onde você nasceu. (Trump caçando mexicanos e brasileiros pelas ruas, pra que exemplo melhor e mais atual?) Mas é mais do que isso: mulheres, voltem para as cozinhas; negros, já que não podemos mandar vocês para as senzalas, pelo menos não venham com essa de cotas: voltem para as favelas. Etc.
No fundo se trata (e eis de fato o ponto da extrema direita, me parece) de manter os privilégios de quem sempre foi privilegiado. E da necessidade de, para isso, manter um degrau abaixo, ou vários, os outros - afinal, privilégio compartilhado por todos não é privilégio. E aí é preciso dividir o mundo em grupos: nós e eles; arianos e judeus; religiosos e ateus; latifundiários e sem-terra...
Pois sei lá quem bolou essa frase, acho que está certíssimo. Voltem todos a seus lugares. E isso explica muito a extrema direita brasileira atual. O quilombola descrito em arrobas; a tentativa de cassar o voto de quem ganha bolsa do governo; meninos vestem azul, meninas vestem rosa; contra as cotas, contra pobre em aeroporto, contra a mobilidade social.
Tem tanto a ver com nosso mundo de hoje que lembrei de tudo isso quando li uma declaração de uma deputada catarinense. Uma loira que anda com tiara de flores na cabeça (um baita símbolo nazi, não à toa). E ela se pronunciou quando viu os resultados de migração do Censo, divulgados nesta semana pelo IBGE. Sabe o que ela falou sobre o assunto:
"Voltem todos a seus lugares."
Ou literalmente, ou quase isso... E evidente que, se questionada, ela dirá que não há nada de racista nisso. Nem de extremo. Está apenas tentando defender as características de que se orgulha em sua terra contra uma invasão de forasteiros (o que, claro, é a definição de xenofobia.)
Segundo o Uol, disse ela:
"Quem chega nem sempre compartilha dos nossos valores."
"A esquerda não tem tido sucesso em denegrir nosso estado o suficiente, então eles precisam melhorar e denegrir mais o nosso estado. Nos chamam de fascistas, mas é pra cá que eles querem vir."
"Quem quiser migrar para Santa Catarina tem que ser para trabalhar e contribuir, além de respeitar nossas raízes e tradições. Temos orgulho em ser catarinense."
Liberal que só, a deputada (seu nome está sendo omitido aqui de propósito) diz não defende um muro para evitar a entrada de outras pessoas em Santa Catarina. Ufa! Mas quem for para lá, diz ela, não pode votar na esquerda. (Imagino no portão de entrada um fiscal pedindo para os que entram pronunciarem xibolete.)
A deputada diz que é chamada de fascista. Ou que chamam os catarinenses de fascistas - o mesmo acontece com os paranaenses, muitas vezes, e sabemos bem o porquê. Não vi ainda um deputado paranaense da extrema direita falando algo do gênero com base no censo. Mas pelo perfil da nossa bancada, não seria de estranhar.
Afinal, o IBGE mostrou que os migrantes que mais vieram para o estado entre 2017 e 2022 foram, de longe, os venezuelanos e os haitianos. E, sabe como é, esse pessoal não tem muito a ver com a ideia que os paranaenses fazem de si mesmos. São meio escurinhos, né? E esse pessoal gosta de achar que nasceu na Europa. Vá entender.