A página intitulada Militar do Paraná (@militardoparana) publicava no Instagram, até as 16h desta quarta-feira (22), imagens de pessoas mortas, feridas, algemadas ou imobilizadas, intercaladas com vídeos de exaltação à atuação de policiais militares em abordagens, apreensões e prisões.
A apuração do Plural começou após o deputado estadual Renato Freitas (PT) divulgar a denúncia em suas redes sociais. Segundo ele, o perfil direcionava seguidores a um grupo privado no Telegram que cobrava pelo acesso ao conteúdo de violência explícita.
Ao examinar as publicações da página, o Plural identificou ao menos 20 perfis de policiais militares da ativa no Paraná marcados ou indicados como colaboradores. A condição funcional foi verificada por meio de postagens recentes dos próprios agentes. Também apareceram os perfis de um ex-PM, atualmente cadete do Corpo de Bombeiros, e de um perito da Polícia Científica.
As marcações e colaborações vinculam publicamente essas contas às postagens, mas não comprovam que seus titulares administrassem a página, fornecessem imagens ou participassem do grupo no Telegram. Por isso, os nomes não serão divulgados neste momento.
Durante a apuração, a página deixou de ser localizada no Instagram. O perfil ainda estava disponível quando o Plural examinou e preservou parte das publicações, mas o endereço deixou de abrir cerca 30 minutos depois do envio de um pedido de nota à Secretaria de Estado da Segurança Pública (Sesp).
Vídeos de agressões no Telegram
Renato Freitas compartilhou com o Plural uma gravação de tela feita dentro do grupo. No material, um usuário identificado como “Militar do Paraná” aparece indicado pelo Telegram como administrador e escreve: “Fala, gurizada, vou mandar uns vídeos aleatórios só pra zoar, hehe.”
Outro participante pergunta: “Cadê os vídeo surrando nóia?”. Na sequência, aparecem diferentes cenas de espancamento, com pessoas sendo agredidas repetidamente, inclusive quando já estavam caídas.
As gravações confirmam que os vídeos circulavam no grupo, mas não permitem identificar vítimas e agressores, determinar onde e quando os ataques ocorreram ou estabelecer se os autores eram policiais militares do Paraná.
O deputado afirma que o grupo existia desde abril de 2026, recebia material diariamente e cobrava pelo acesso. O Plural não confirmou esses pontos nem verificou o valor, a forma de pagamento, o número de participantes ou se os responsáveis pelo Telegram também controlavam a página no Instagram.
Entre as publicações preservadas pelo Plural estavam a imagem de uma pessoa imobilizada no chão, com um coturno apoiado sobre a cabeça, e a de um corpo dentro de um saco mortuário aberto.
Outras postagens mostravam pessoas algemadas, ensanguentadas ou feridas e corpos em diferentes cenários. A reportagem não confirmou a origem, a data, o local ou a autoria dos registros, nem se todos foram produzidos no Paraná.
Material encaminhado ao Ministério Público
Freitas afirmou ter enviado o material ao Ministério Público. O deputado também declarou que o grupo no Telegram foi excluído após a denúncia.
“Tivemos acesso aos conteúdos do grupo no Telegram e ficamos horrorizados. Eram vídeos e fotos explícitas de pessoas sendo agredidas ou mortas. Diante disso, fizemos a denúncia ao Ministério Público e esperamos que os administradores desses perfis sejam identificados e respondam por seus atos”, afirmou Freitas.
A Sesp foi questionada sobre o conteúdo, as marcações e colaborações de policiais militares e a eventual abertura de investigação. A secretaria não respondeu até a publicação.