Desde 2019, quando o Ratinho Junior (PSD) assumiu o Governo do Paraná, o estado abandonou cerca de 4 milhões de jovens e adultos sem formação no ensino fundamental ou Ensino Médio. É o que mostram os dados do Censo Escolar dos últimos dez anos. De 2019 a 2025, 90 mil vagas da educação de Jovens e Adultos foram excluídas da rede estadual de ensino. Foi a maior exclusão entre todas as redes de ensino do estado. Nas escolas privadas e municipais, foram extintas cerca de 6,6 mil vagas nessa área.
O Censo Demográfico de 2022 do IBGE contou 4.027.128 paranaenses com 18 anos ou mais que não concluíram o ensino médio — 45,8% de toda a população adulta do estado, quase um em cada dois. Desse total, 2.702.731 não têm nem o ensino fundamental completo.
São esses adultos o público-alvo da Educação de Jovens e Adultos (EJA). Em 2025, o Paraná oferece vagas na EJA para 75.543 deles. Menos de 2% do total. E esse número caiu mais da metade desde que o governo atual assumiu.
A maior retração entre todas as redes
De 2019 a 2025, a rede estadual de ensino excluiu 90.054 vagas de EJA, passando de 125.881 para 35.827 matrículas — uma redução de 71,5% em seis anos. Foi a maior retração entre todas as redes de ensino do estado. No mesmo período, redes privadas e municipais juntas extinguiram cerca de 6,6 mil vagas — queda de pouco mais de 10%.
No ensino noturno, o recuo foi na mesma proporção: 127.175 vagas eliminadas, reduzindo o total de 210.128 para 82.953 matrículas na rede estadual. O noturno é uma oferta essencial para conter a evasão de jovens que começam a trabalhar e precisam conciliar emprego e escola.
| Modalidade | Matrículas 2019 | Matrículas 2025 | Queda |
|---|---|---|---|
| EJA — rede estadual | 125.881 | 35.827 | −71,5% |
| EJA — total (todas as redes) | 172.185 | 75.543 | −56,1% |
| Ensino noturno — rede estadual | 210.128 | 82.953 | −60,5% |
Fonte: Censo Escolar, Paraná, 2019–2025.
A lógica invertida a partir de 2019
Os dados do Censo Escolar mostram que a oferta para esse público vinha crescendo. De 2015 para 2019, o Paraná saiu de 143.396 vagas para 172.185 vagas de EJA em todas as redes — crescimento de quase 20% em quatro anos. A partir de 2019, a lógica se inverteu.
Já em 2021, o número de matrículas na EJA caiu para 114.388. No Censo de 2025, chegou a 75.543 — menos da metade do que havia seis anos antes.
| Ano | EJA total (PR) | EJA Fundamental | EJA Médio |
|---|---|---|---|
| 2015 | 143.396 | — | — |
| 2019 | 172.185 | 106.637 | 65.548 |
| 2020 | 144.919 | 91.678 | 53.241 |
| 2021 | 114.388 | 67.883 | 46.505 |
| 2022 | 95.295 | 57.818 | 37.477 |
| 2023 | 79.973 | 50.624 | 29.349 |
| 2024 | 81.709 | 53.161 | 28.548 |
| 2025 | 75.543 | 49.242 | 26.301 |
Fonte: Censo Escolar INEP, todas as redes, Paraná.
No acumulado entre 2020 e 2025, o Paraná deixou de oferecer 441.283 vagas de EJA em comparação ao que teria sido ofertado se o patamar de 2019 tivesse sido mantido.
1,9% do público que precisa — e 50 anos para zerar a fila
A oferta de EJA cobria 4,3% da população adulta sem educação básica em 2019 — já uma fração pequena. Em 2025, atende apenas 1,9% dessa demanda.
| Etapa | Adultos sem conclusão (IBGE 2022) | Matrículas EJA 2025 | Taxa de atendimento |
|---|---|---|---|
| Ensino Fundamental | 2.702.731 | 49.242 | 1,8% |
| Ensino Médio | 1.324.397 | 26.301 | 2,0% |
| Total | 4.027.128 | 75.543 | 1,9% |
Fonte: IBGE Censo Demográfico 2022; Censo Escolar INEP 2025.
Ao ritmo atual de matrículas, o Paraná levaria 55 anos para atender todos os adultos sem ensino fundamental — e 50 anos para os sem ensino médio. Isso supondo que nenhum novo adulto entrasse no grupo e que cada matrícula resultasse em conclusão imediata. Na prática, alunos da EJA costumam levar dois a quatro anos para concluir uma etapa, o que piora o cálculo.
O fechamento vai na contramão da demografia
O fechamento de vagas da EJA vai na contramão dos dados populacionais. A queda nas matrículas do ensino regular — fundamental e médio — tem uma explicação demográfica: o Paraná tem menos crianças e adolescentes do que tinha em 2010. A população de 10 a 14 anos caiu 10% entre os dois censos; a de 15 a 17 anos caiu 9,5%.
O público da EJA é diferente: são adultos. E a população adulta do Paraná cresceu — de 6,2 milhões para 7,6 milhões entre 2010 e 2022. O número de adultos sem educação básica diminuiu, mas lentamente: queda de 15,2% em 12 anos para os sem ensino fundamental; de 8,0% para os sem ensino médio.
| Grupo | Censo 2010 | Censo 2022 | Variação em 12 anos |
|---|---|---|---|
| 25 anos ou mais sem EF completo | 3.059.025 | 2.594.515 | −15,2% |
| 25 anos ou mais sem EM completo | 3.995.158 | 3.673.882 | −8,0% |
Fonte: IBGE, Censo Demográfico.
A queda na EJA é mais de seis vezes mais rápida do que a redução no público que ela deveria atender. A queda de 56% nas matrículas de EJA não tem explicação demográfica. Ela reflete uma escolha de onde alocar — ou não alocar — recursos.
O IDEB no limite
Junto ao corte de vagas para estudantes trabalhadores, os dados da rede estadual mostram que a fórmula de aumento do IDEB está chegando ao limite. Como o Plural já noticiou, o avanço dos índices do Paraná — de 3,7 em 2017 para 4,7 em 2023 no Ensino Médio, colocando o estado em segundo lugar entre as redes estaduais — foi impulsionado quase que exclusivamente pelo aumento da taxa de aprovação.
No período, as notas de Matemática e Português das escolas estaduais do Paraná ficaram praticamente estagnadas: a média em Matemática caiu de 280,8 pontos em 2019 para 278,0 em 2023; em Português, subiu de 281,0 para 283,8 — menos de três pontos em uma escala de centenas.
O que subiu foi a aprovação: de 80,1% em 2017 para 96,9% em 2023 — praticamente todos os alunos passando de ano, mesmo sem avanço mensurável nas notas.
| Ano | Aprovação EM estadual | Abandono | Reprovação | SAEB Matemática | SAEB Português |
|---|---|---|---|---|---|
| 2017 | 80,1% | 7,8% | 11,6% | — | — |
| 2019 | 89,0% | 3,4% | 7,4% | 280,8 | 281,0 |
| 2021 | 95,8% | 1,3% | 2,5% | — | — |
| 2023 | 96,9% | 0,7% | 2,5% | 278,0 | 283,8 |
Fonte: Indicadores Educacionais INEP (aprovação/abandono/reprovação); SAEB/INEP (notas).
A aprovação em alta, a EJA em baixa e a distorção idade-série em queda formam uma arquitetura coerente para produzir indicadores positivos — sem que isso signifique mais aprendizado real para os alunos atuais ou mais oportunidades para os 4 milhões de adultos com escolaridade incompleta.
O passivo de 2027
Para quem for assumir o governo do Paraná em 2027, ficarão dois passivos entrelaçados.
O primeiro: 4.027.128 jovens e adultos sem educação básica completa, atendidos por uma rede de EJA que encolheu 56% em seis anos e que, ao ritmo atual, levaria meio século para zerar a fila.
O segundo: cerca de 299 mil estudantes no ensino médio da rede estadual — projeção baseada na tendência de 2022 a 2025, que aponta queda de 12.500 alunos por ano —, cuja formação ficou estagnada por oito anos em termos de aprendizado medido. Em 2013, a rede estadual tinha 411.299 alunos no ensino médio; em 2025, 319.062; em 2027, a tendência aponta para menos de 300 mil.
Aprovar mais não formou mais. E a EJA que poderia dar segunda chance a quem ficou de fora foi, ao longo do governo atual, sistematicamente desmontada.
Nota metodológica: Matrículas EJA e ensino noturno extraídas do Censo Escolar INEP. Dados populacionais: IBGE, Censo Demográfico 2010, classificação por nível de instrução. Taxas de aprovação, abandono e reprovação: Indicadores Educacionais INEP, média das escolas estaduais ativas do Paraná. Projeção de matrículas do EM para 2027: regressão linear sobre a série 2022–2025, tendência de −12.542 alunos/ano. O déficit acumulado de vagas de EJA (441.283) foi calculado como a soma das diferenças anuais entre as matrículas reais e o patamar de 2019, de 2020 a 2025.