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Com municipais militarizadas, estudantes de Curitiba vão ficar sem opção

Onze escolas municipais que oferecem os anos finais do Ensino Fundamental vão votar sobre a implantação do Programa Escola Cívico-Militar. Se implantado, o programa poderá deixar sem opção quem não quiser o filho uma unidade militarizada

Com municipais militarizadas, estudantes de Curitiba vão ficar sem opção
Escola cívico-militar. Foto: Lucas Fermin/SEED

As famílias de alunos de onze escolas municipais de Curitiba terão, nos próximos meses, o direito de votar se querem ou não adotar o Programa Escola Cívico-Militar em suas unidades. A prefeitura chama isso de decisão da comunidade escolar — alunos, pais, professores e funcionários. E acrescenta que, caso a votação decida pela implantação e alguém não queira estudar ou trabalhar num colégio cívico-militar, há liberdade de escolher outra escola pública.

Os dados do Censo Escolar 2025, do Instituto Nacional de Estudos e Pesquisas Educacionais (INEP), revelam que essa liberdade é geograficamente desigual. Em seis dos oito bairros onde essas escolas estão localizadas, o número de alunos que terminarão o 5º ano nas escolas municipais locais supera a quantidade de vagas disponíveis no 6º ano dos colégios estaduais que não aderiram ao modelo cívico-militar.

O que está em jogo

As onze escolas municipais em questão são as únicas da rede pública municipal de Curitiba que oferecem os Anos Finais do Ensino Fundamental (6º ao 9º ano). Elas atendem juntas 3.707 alunos nessa etapa, conforme o Censo 2025.

Bairro Escola Alunos AI (1º–5º) Alunos AF (6º–9º) 6º ano
CIC EM Albert Schweitzer 145 226 70
CIC EM Cândido Portinari 652 558 139
CIC EM São Miguel 298 446 111
Sítio Cercado EM Bairro Novo CAIC 557 304 70
Bairro Alto EM Erasmo Pilotto 236 198 67
Pilarzinho EM Herley Mehl 274 247 62
Portão EM João XXIII 234 283 71
Barreirinha EM Julia di Lenna 432 418 102
Novo Mundo EM Tesserolli 225 337 70
Cajuru EM Omar Sabbag 534 455 132
Cajuru EM Durival Britto e Silva 168 234 62

Fonte: Censo Escolar INEP 2025.

A coluna "6º ano" é o número de alunos atualmente matriculados no primeiro ano do ciclo AF em cada escola — o tamanho do fluxo anual de ingresso. É também o ponto de pressão mais imediato: esses são os estudantes que, a cada ano, precisariam de alternativa se a escola mudar de perfil.

A projeção que a prefeitura não fez

Cada ano, crianças que terminam o 5º ano nas escolas municipais de um bairro precisam encontrar uma escola de Anos Finais. Hoje, parte delas vai para as onze escolas municipais com AF; outra parte vai para os colégios estaduais.

Se as escolas municipais se tornarem cívico-militares, as famílias que discordarem vão competir por vagas nos colégios estaduais que não aderiram ao programa — escolas já ocupadas por seus próprios alunos.

O Censo 2025 permite calcular essa pressão: quantos alunos completam o 5º ano na rede municipal de cada bairro, e quantas vagas no 6º ano existem nos colégios estaduais civis se a escola municipal sair do circuito.

Bairro 5º ano: escolas municipais do bairro 6º ano: est. não-CM (sem a mun.) Saldo projetado
CIC 1.053 1.217 +164
Barreirinha 128 135 +7
Bairro Alto 230 228 −2
Sítio Cercado 819 744 −75
Cajuru 513 426 −87
Pilarzinho 120 74 −46
Portão 142 98 −44
Novo Mundo 174 69 −105

Metodologia: 5º ano = soma de alunos no 5º ano de todas as escolas municipais ativas no bairro (Censo 2025). 6º ano est. não-CM = soma de alunos matriculados no 6º ano nos colégios estaduais do bairro que não são cívico-militares. Para Portão, o Colégio da Polícia Militar (admissão seletiva) e o C. E. Alcindo Fanaya (escola para deficientes auditivos) foram excluídos da conta de vagas civis de livre acesso.

O saldo negativo não significa que as crianças ficarão sem escola — elas podem se deslocar para bairros vizinhos. Mas indica que, dentro do próprio bairro, as vagas disponíveis nos colégios estaduais civis seriam insuficientes para absorver toda a demanda anual da rede municipal, caso a escola municipal passe a ser cívico-militar.

Apenas CIC e Barreirinha apresentam margem positiva. Nos outros seis bairros, a promessa de que "quem não quiser pode ir para outra escola" colide com uma aritmética que a prefeitura não apresentou.

Um agravante: as CMs estaduais já ocupam parte da oferta

Curitiba tem 24 colégios estaduais participantes do Programa Escola Cívico-Militar, todos administrados pelo governo do Paraná. Em quatro dos oito bairros onde as escolas municipais vão votar, já existe pelo menos um colégio estadual cívico-militar — o que reduz ainda mais a oferta de vagas civis:

Bairro CM estadual já existente Alunos AF (CM)
Sítio Cercado C. E. Guido Arzua 958
Portão C. E. Cândido Rondon 391
Novo Mundo C. E. Yvone Pimentel 667
Cajuru C. E. República Oriental do Uruguai 476
Cajuru C. E. Senhorinha M. Sarmento 869

Em Novo Mundo, o cenário é o mais extremo: o único colégio estadual civil do bairro, o João Bettega, tem apenas 236 alunos nos Anos Finais e 69 no 6º ano — enquanto a EM Tesserolli tem 337 alunos nos AF e projeta 174 crianças completando o 5º ano no bairro este ano. E o outro colégio estadual já é cívico-militar.

Bairro por bairro: onde há escolha, onde não há

CIC — Cidade Industrial de Curitiba: o único bairro com folga real

O CIC é a exceção. Com 14 colégios estaduais não-cívico-militares e nenhum CM estadual no bairro, a oferta civil é ampla. Ainda assim, a rede municipal concentra aqui suas maiores escolas de AF — Cândido Portinari (558 alunos) e São Miguel (446). Se elas virarem CM, 320 estudantes por ano precisariam de alternativa, mas os colégios estaduais têm 1.217 vagas no 6º ano — margem de 164 alunos acima da demanda municipal total.

Sítio Cercado: déficit projetado de 75 vagas

O bairro tem cinco colégios estaduais civis com boa capacidade. O problema é que o C. E. Guido Arzua (958 alunos nos AF) já é cívico-militar — e as 819 crianças que terminam o 5º ano nas municipais locais superam em 75 o que os cinco colégios civis absorvem atualmente no 6º ano (744 vagas).

Bairro Alto: equilíbrio no limite

Três colégios estaduais civis existem no bairro, com 228 vagas no 6º ano. Mas o bairro tem 230 alunos no 5º ano nas escolas municipais. Se a EM Erasmo Pilotto virar CM, o sistema fica matematicamente no limite, sem nenhuma margem.

Pilarzinho: déficit de 46 vagas

A EM Herley Mehl é a única escola pública com AF em Pilarzinho. O bairro tem apenas dois colégios estaduais civis — ambos pequenos:

Colégio Estadual Alunos AF 6º ano
C. E. Bento Rocha Neto 154 32
C. E. Maria Heloísa Casselli 160 42
Total civil disponível 314 74

Os dois colégios absorvem juntos 74 alunos por ano no 6º ano. O bairro tem 120 crianças completando o 5º ano nas municipais — um déficit projetado de 46 vagas civis locais.

Portão: uma escola civil contra 142 alunos

A EM João XXIII tem 283 alunos nos AF. O bairro tem quatro colégios estaduais, mas com restrições severas:

Colégio Estadual Alunos AF 6º ano Situação
C. E. Pedro Macedo 515 98 Único civil de livre acesso
C. E. Cândido Rondon 391 97 Cívico-militar
Col. da Polícia Militar do PR 652 119 Admissão seletiva
C. E. Alcindo Fanaya 48 13 Escola para deficientes auditivos

Para uma família do Portão que não queira o modelo cívico-militar e busque uma escola de livre acesso, sobra o Pedro Macedo — com 98 vagas no 6º ano, contra 142 alunos que terminam o 5º nas municipais do bairro.

Barreirinha: a exceção fora do CIC

Com 135 vagas no 6º ano nos dois colégios estaduais civis e 128 alunos completando o 5º nas municipais, Barreirinha é o único bairro fora do CIC com margem positiva — ainda que pequena.

Cajuru: déficit de 87, agravado por dois CMs

Cajuru tem quatro colégios estaduais civis e dois cívico-militares. Se Omar Sabbag e Durival Britto virarem CM, 194 alunos por ano precisariam migrar. Os estados civis têm 426 vagas no 6º, mas a demanda municipal total do bairro é de 513 — déficit de 87.

Novo Mundo: o caso mais crítico

Novo Mundo concentra o maior desequilíbrio. A EM Tesserolli tem 337 alunos nos AF. O bairro tem 174 crianças terminando o 5º nas municipais. A oferta civil estadual:

Colégio Estadual Alunos AF 6º ano Situação
C. E. João Bettega 236 69 Única alternativa civil
C. E. Yvone Pimentel 667 146 Cívico-militar

Se a Tesserolli virar CM, as 174 crianças que terminam o 5º ano no bairro terão apenas o João Bettega — com 69 vagas no 6º ano — como alternativa civil local. O déficit projetado é de 105 vagas. Quem não couber precisará atravessar a cidade.

A lógica do argumento e seus limites

A prefeitura de Curitiba defende que a votação garante a participação da comunidade. Se a maioria quiser o programa cívico-militar, a escola muda; quem não quiser conviver com a gestão militar pode se transferir. O argumento pressupõe mobilidade — que existe uma rede pública suficientemente densa ao redor de cada escola para acolher os insatisfeitos.

Os dados mostram que essa mobilidade não é igualmente distribuída. Em seis dos oito bairros afetados, o número de crianças que completam o 5º ano nas escolas municipais já supera as vagas disponíveis no 6º ano dos colégios estaduais civis locais. E isso antes de qualquer transferência adicional de alunos já matriculados nos Anos Finais que desejem sair.

Há também um dado estrutural que o argumento não menciona: as outras escolas municipais com Anos Finais não são alternativas práticas. Estão distribuídas por bairros distantes — CIC, Cajuru, Barreirinha, Bairro Alto, Novo Mundo, Pilarzinho e Portão —, o que tornaria a mudança equivalente a uma transferência para outra região da cidade.

O Censo Escolar 2025 registra que a rede municipal de Curitiba tem 3.707 alunos nos Anos Finais do Ensino Fundamental em apenas onze escolas. Se elas se tornarem cívico-militares, os números mostram que a promessa de escolha tem limites concretos — e esses limites estão desenhados no mapa de Curitiba.

Rosiane Correia de Freitas

Rosiane Correia de Freitas

Jornalista, mestre em educação e fundadora do Plural

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