O levantamento sobre os casos de violência contra indígenas no Paraná e no Brasil, publicado nesta segunda (4) foi a estreia de uma nova iniciativa do Plural. O Raízes Plurais é um espaço destinado à cobertura de minorias, especialmente a questão indígena e também assuntos ligados às religiões de matriz africana.
O projeto é desenvolvido pelo jornalista José Pires, que há anos vem se especializando na cobertura desses assuntos. Nessa conversa, ele explica os motivos de seu interesse pela temática das minorias e como será sua cobertura para o Plural.
Você se especializou em jornalismo sobre indígenas e questões de religiões afro. Por que essa escolha?
Produzir reportagens sobre religiões de matriz africana foi de fato uma escolha. E ela aconteceu porque tive o privilégio de crescer na umbanda e no candomblé, tomando a bênção de mães e pais de santo que já não estão mais entre nós. Percebendo o quanto é acolhedor e carregado de justiça social o ambiente dos terreiros. Portanto, desde que me formei na faculdade de jornalismo desejava produzir reportagens sobre os povos de terreiro de Curitiba e Região. Felizmente consegui. Produzir reportagens sobre os povos indígenas do Sul do Brasil, no entanto, foi algo que a vida me trouxe. Tive contato com a luta dos povos originários em 2015, quando cobri a ocupação da sede Secretaria Especial de Saúde Indígena (Sesai) em Curitiba. Na ocasião, os indígenas pediam melhorias no atendimento de saúde em diversas aldeias do Paraná, de Santa Catarina e de São Paulo. Durante essa cobertura conheci importantes lideranças indígenas como o Kretã, o Eloy Jacintho, o Marciano Rodrigues (recentemente falecido) e o Ivan Bribis. Fui percebendo como a luta deles tinha pouco espaço na imprensa tradicional e passei a cobrir temas ligados aos direitos dos povos indígenas de maneira mais recorrente e aprofundada.
Esses temas ainda aparecem pouco na mídia, pelo menos aqui em Curitiba. Como fazer com que as pessoas se importem mais com os direitos dessas minorias?
O que muitas pessoas não perceberam ainda é que a luta dos povos originários é vital para sociedade brasileira. Porque está intimamente ligada à conservação do meio ambiente por meio da preservação das florestas e dos rios. Os territórios indígenas têm sido fronteiras de resistência diante da ganância expressa em atividades como a mineração, extração de madeira, monocultura, pecuária entre outras práticas de exploração predatórias. A preservação destes ambientes tem relação direta, por exemplo, com o regime de chuvas no Sul e no Sudeste. Regime este que é fundamental para a manutenção da agricultura familiar, que é quem coloca comida na mesa de cada brasileiro. Os povos de terreiro, por sua vez, cumprem um papel fundamental na manutenção da diversidade religiosa. Além disso, os terreiros são espaço de acolhimento por não fazerem distinção de gênero e classe social. Orixá é pra todo mundo. Acredito que o jornalismo tem um importante papel tanto de informação, quanto de formação de opinião, quando produz conteúdo sobre os povos indígenas e os povos de terreiro. Se a imprensa passou mais de dois séculos estigmatizando os indígenas e os praticantes de religiões de matriz africana, acho que hoje ela também pode retratá-los de maneira mais aprofundada, séria, respeitosa e digna.
Como foi tua experiência com o Parágrafo 2?
O Parágrafo 2 foi um site de jornalismo independente que atuou entre 2015 e 2025. Cobríamos principalmente temas ligados aos povos indígenas do Sul; meio ambiente; política; liberdade religiosa; educação e cultura. Foi um trabalho muito gratificante. Por meio dele conquistei e mantive fontes importantes e pude compreender que um jornalismo mais humano (ou humanizado, se assim preferirem) depende de muita escuta, muita pesquisa e muito pé na rua.
O que você pretende fazer agora no Plural?
No Plural pretendo publicar reportagens em duas iniciativas. Uma delas é o Raízes Plurais. Um espaço dedicado a reportagens e entrevistas sobre direitos dos povos indígenas do Sul e também sobre os povos de terreiro do Paraná. Um espaço para denúncias sobre violações de direitos, mas também de resgate histórico/social de personagens E outra iniciativa é o Plural Investiga. Nela, ao lado do jornalista Diogo da Silva, publicarei reportagens investigativas por meio da intersecção entre jornalismo, política e meio ambiente. Uma cobertura de questões ambientais que se entrelaça com as decisões políticas, com a influência do poder da iniciativa privada e seus impactos na sociedade. Fico muito feliz com essa oportunidade. Há anos acompanho o trabalho desenvolvido no Plural e não vejo veículo mais adequado para publicar de maneira aprofundada e recorrente temas como a luta dos povos indígenas do Sul; direitos dos povos de terreiro do Paraná; meio ambiente, poder público e privado, direitos humanos, justiça climática, entre outros.