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Elas são as guardiãs dos pets da periferia

As moradoras de áreas de ocupação, verdadeiras protetoras dos pets, chamam para si a responsabilidade de atender os animais

Elas são as guardiãs dos pets da periferia
Atendimento veterinário: nem sempre é possível conseguir tratamento gratuito para os animais. Foto: Pedro Carrano
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Parceria com Vigília Agência de Comunicação

Toda comunidade periférica é feita de diferentes pessoas. E também de seus leais bichinhos de estimação a tiracolo. Cães e gatos fazem parte da vida das áreas de ocupação, nos bairros periféricos de Curitiba, nos bons e nos maus momentos. E, além disso, são uma espécie de termômetro da situação e da condição social da região.

As moradoras de áreas de ocupação, verdadeiras protetoras dos pets, chamam para si a responsabilidade de atender os animais, que muitas vezes apresentam zoonoses que poderiam ser evitadas se houvesse um projeto consistente de regularização fundiária na capital.

Embora reconheçam o papel relevante do poder público municipal no atendimento aos animais, essas guardiãs atuam num cotidiano duro, gastando recursos do próprio bolso, a partir de campanhas, parcerias individuais, virando-se como podem.

“Curitiba é uma referência comparada a outros estados, mas há muitas lacunas. Entramos nas comunidades onde há maior necessidade, fazendo o atendimento clínico porta a porta, vamos na casa das pessoas”, afirma Damaris Silva de Morais, moradora do bairro Tatuquara.

Sua ação consiste em reunir um grupão de professores do curso de Veterinária da Pontifícia Universidade Católica (PUC), estudantes e voluntários para atender comunidades periféricas, um atendimento dirigido para cada família, buscando um enraizamento para, assim, conhecer os problemas do território.

“Fazemos de porta a porta, atendendo áreas periféricas – tentamos ir de encontro a quem mais tem necessidade, que são as comunidades, aprendemos muito também, por exemplo, com a metodologia do curso de agentes populares de Saúde (Agiprop SUS – curso do governo federal)”, explica.

Damaris fala da participação na recente Pré-Conferência de Proteção Animal. Os encontros foram preparatórios para a 3.ª Conferência Municipal de Proteção Animal, que vai acontecer no dia 29 de novembro, o que suscita ideias e pautas. Entre os principais problemas, a protetora dos animais elenca, com centralidade na castração e vacinação:

Foto: Pedro Carrano

“Existe o projeto de castração e vacinação pública, mas é muito centralizado. Não conseguem atender dentro das comunidades. O problema grande também em relação à prefeitura é o comprovante de endereço, o que acaba dificultando o atendimento, porque nas ocupações as pessoas não têm como comprovar onde moram”, afirma.

A prefeitura, por sua vez, aponta que atua com o apoio das 10 administrações regionais. “O Programa Municipal de Castração gratuita de Cães e Gatos já atingiu, em 2025, o marco de 25 mil cirurgias gratuitas realizadas. A prestação dos serviços ocorre essencialmente de forma itinerante, percorrendo diversos bairros do município”, informa a assessoria da Secretaria Municipal do Meio-Ambiente, procurada pela reportagem do Plural.

Em comum, entre a percepção do poder público municipal e a atuação dessas mulheres na base, está a questão também de necessidade de mais atendimentos veterinários gratuitos. O site da Prefeitura de Curitiba reconhece algumas prioridades no cuidado com os animais:

“Com ênfase na solicitação de Unidade Hospitalar na região Sul da cidade; estratégias públicas de prevenção e combate à esporotricose; mais espaços play pet na cidade; e mais mutirões de castração em comunidades em situação de vulnerabilidade social”.

Em conversa com a reportagem do Plural, a vereadora Giorgia Prates (Mandata Preta – PT) que atua na pauta dos PETS, também destaca o pedido de descentralização do acesso à medicação. Segundo ela, hoje, as pessoas recebem o medicamento no Hospital Veterinário Municipal (veja abaixo).

Damaris ainda identifica que, de acordo com a realidade de cada área de ocupação, há incidência de determinadas doenças. “Na área Pontarolla, no Tatuquara, há casos de esporotricose (doença felina). Na Vila União, há um surto de leptospirose (doença a partir da urina de ratos), o que indica zoonose, podendo passar até para as crianças”, diz. A Vila União, que possui 280 famílias, em ocupação realizada em 2021, foi alvo do atendimento do grupo de Damaris, Amicão e da ONG Dialeto no domingo (dia 14).

Mapeamento

Vila Pantanal (Alto Boqueirão), Guaporé (Campo Comprido), Vila União e Pontarolla (Tatuquara), Bolsão Formosa (Novo Mundo), num total de dez comunidades, foram atendidas em 2025, o que contribui para o levantamento de informações e, sobretudo, um mapeamento das áreas periféricas em relação a zoonoses.

Foto: Pedro Carrano

Thais Luiza, médica veterinária e coordenadora do Projeto Dialeto, que faz a ponte entre estudantes, movimentos populares, médicos veterinários no interior da comunidade, comenta sobre a importância desse trabalho da sociedade civil, mas que faz a ponte com o poder público municipal.

“Conseguimos mapear as zoonoses, que são doenças transmissíveis entre animais e humanos, e dessa forma fazemos levantamento de dados. Temos conhecidos dentro da prefeitura também, que conseguimos comunicando o que vamos encontrando, atendendo animais com doenças mais graves para tratamento”, afirma.

Vida de protetora: “Tudo sai do meu bolso”

Andreia Carvalho Guedes, moradora da área Guaporé 2, ocupação no bairro Campo Comprido, existente desde 2020, afirma que as protetoras estão ficando doentes, por sobrecarga e falta de condições.

“Vendi minha máquina de lavar para poder resgatar um cachorro. Há um descaso total, tenho dó dos bichinhos, e no nosso trabalho vai muita verba, sobretudo com ração e medicamentos”, afirma.

A protetora dos animais é crítica ao papel do Hospital Veterinário de Curitiba, tanto pela distância em relação a várias comunidades, como pela demanda reprimida no atendimento. “Não tem médico, não tem pessoas competentes para atender. Já fizeram longe para não irmos”, protesta.

Novo hospital

A reportagem enviou à prefeitura, via assessoria da Secretaria de Meio Ambiente, questão relacionada à crítica feitas por protetoras dos pets sobre o Hospital Veterinário.

A Prefeitura disse que o hospital de Curitiba foi o primeiro do estado "e um dos mais estruturados no cenário nacional contemplando diversas especialidades médico-veterinárias e atendimentos com maior grau de complexidade".

Segundo a nota, o funcionamento é direcionado aos pets de moradores da cidade de Curitiba beneficiários de programa social e de protetores de animais cadastrados junto ao município. "Devido ao alto número de animais de estimação presentes na cidade e pelo fato de ser inovação, a procura pelos serviços segue até o presente momento bastante elevada e constante."

A prefeitura afirmou ainda que está estudando a implantação futura de unidade complementar na área sul da cidade.

Este texto faz parte do Periferias Plurais, uma parceria entre o Plural, o Gasam e a Itaipu Binacional.

 

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