Em parceria com a Vigília Agência de Comunicação
Patricia de Oliveira é uma trabalhadora coletora de materiais recicláveis. Ela vive desde os quatro anos, dos seus 36 de vida, na comunidade Pantanal, no Alto Boqueirão. Essa mulher, mãe solteira, de três filhos, já desempenhou várias atividades. Porém, ela está feliz pela chance recente de trabalhar como ajudante de confeitaria, além de fazer curso de Suporte Técnico em Informática. Mudança de vida? Patricia garante que sim.
Patricia tinha o fundamental incompleto, até o sexto ano, e recentemente por meio da Educação de Jovens e Adultos (EJA), concluiu o segundo ano do Ensino Médio.
Entre as maiores dificuldades, Patricia relata, está a de manter o estudo em meio ao cansaço devido ao trabalho duro, situação que especialistas na área avaliam como um dos principais entraves.
No caso da trabalhadora carrinheira, o incentivo e uma estrutura mínima foram fundamentais, uma vez que contou com apoio da direção da escola e, ademais, com suporte de uma entidade da sociedade civil.
“Paguei minhas contas. Em três semanas, subi de vida. O carrinho te sustenta apenas na hora, mas o que você pega, você gasta. Agora, estou encaminhando meu filho mais velho para o Enem, para fazer a faculdade que ele quer quiser”, afirma.
O Brasil ainda tem 9,3 milhões de pessoas com 15 anos ou mais que não sabem ler ou escrever um bilhete simples, segundo a Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios (PNAD) de 2023. Desse total, 8,3 milhões têm mais de 40 anos. Entre aqueles a partir dos 60 anos, a taxa de analfabetismo chega a 15,4%.
Ademais, cerca de três em cada dez brasileiros, entre 15 a 64 anos, possuem habilidades de leitura, escrita e matemática limitadas. O Indicador de Analfabetismo Funcional (Inaf), realizado em parceria entre a Ação Educativa e o Instituto Paulo Montenegro aponta até 29% da população brasileira na faixa etária de 15 a 64 anos.
Não se trata de evasão e sim expulsão
A famigerada evasão escolar não pode ser explicada apenas como responsabilidade individual, é o que aponta Documento de Orientação ao processo de escuta para atualização das Diretrizes Curriculares Nacionais para a EJA, material elaborado pelos Fóruns EJA do Brasil, no contexto de repensar as diretrizes:
“O fechamento de escolas e a redução da matrícula dos jovens, adultos e idosos na modalidade EJA é, comumente, 'explicada' pelos sistemas educacionais como evasão escolar, enquanto escolha ou condição individual desses sujeitos. Na realidade, como afirma Freire, não se trata de evasão e sim expulsão”, aponta o texto.
“Não queremos substituir o Estado”
Movimentos populares envolvidos com Educação Popular e, no mesmo sentido, o Fórum Paranaense da EJA, fazem de tudo o que podem para manter oferta pública de aulas, ou mesmo para criar espaços preparatórios para as provas em comunidades periféricas.
Este é o caso do núcleo de Educação do Marmitas da Terra/ Mãos Solidárias, organização ligada ao MST, que organiza aulas preparatórios para a prova do Estado em áreas de ocupação como a Vila União, Portelinha, Graciosa (Pinhais) e barracão Novo Amanhecer, em parcerias com movimentos populares como FORT, MOB, MTD entre outros.
“Há demandas urgentes nas ocupações. Então, a educação acaba ficando no segundo plano. É preciso fortalecer, certificar, para ter avanços. É um trabalho importante o que a gente faz, nas ocupações as relações muitas vezes são frágeis, a luta pela sobrevivência, mas nosso trabalho também é poder fortalecer o trabalho, os estudos e construir mãos e cabeças por um Projeto Popular para o Brasil”, afirma Elza Dissenha, integrante da coordenação do Marmitas da Terra.
Adriana Mendes, mãe de Victor, Victoria e Sofia, moradora da Vila União, no bairro Tatuquara, teve aulas de EJA às quartas-feiras à noite. Assim como a comunidade, constatou que pode ser mais interessante um formato de aulão aos sábados, uma vez que durante a semana o cansaço pesa sobre as moradoras, mulheres que possuem duas a três jornadas de trabalho.
“Gostei muito de fazer a EJA, desenvolvi os ensinamentos, tem professores muito bons, fiz a prova e agora estou aguardando, ajuda a gente a abrir o olho para outros ambientes, você aprende novas questões que nem sabia que existia, espero que quem não fez faça e aproveite. Aprendi muito”, afirma essa trabalhadora do setor industrial.
Já Rosalinda Silva, também moradora da Vila União, também relata mudança de vida e desenvolvimento de senso crítico com as aulas da EJA: “Foi uma porta aberta para novas oportunidades, porque fui mãe cedo, não tive oportunidade de terminar meus estudos, e com a EJA pude terminar”, afirma.
Trabalhador estudante
A professora do Departamento de Educação da UFPR, Maria Aparecida Zanetti, a Cida, ex-chefe do departamento de Educação de Jovens e Adultos, de 2003 a 2006, aponta para um momento crucial sobre o futuro da EJA.
De um lado, sobretudo no Paraná, há um sucateamento da oferta de ensino por parte do governo Ratinho Jr, o que é fortalecido com o sistema de Educação à Distância (EAD).
Nacionalmente, as Diretrizes Curriculares do segmento completam vinte e cinco anos e, na voz de Cida, a data exige reflexões e adaptações, do ponto de vista freiriano, para vincular às aulas à realidade do trabalhador, sobretudo nas comunidades periféricas. Isso requer que as propostas curriculares sejam formuladas a partir do reconhecimento das características de cada território, dos trabalhadores ali inseridos, dos conhecimentos populares. Enfim, das particularidades locais e da realidade.
O entendimento de Cida Zanetti é de que o público da EJA “trata-se de trabalhadores estudantes, não o contrário. Ele tem característica própria do adulto. Uma vez com a necessidade de 75% de frequência torna-se muito difícil completar”, enfatiza, usando vários exemplos, do caminhoneiro sem dias fixos, passando por um trabalhador que não pode estudar à noite devido ao turno, de uma trabalhadora 12 por 36, ou então 6 por 1, e mesmo uma avó que precisa cuidar dos netos. Há que ser flexível no projeto pedagógico. “Como a escola pode estar onde os trabalhadores estão?”, questiona.
A especialista em Educação aponta que os educandos, uma vez na EJA, enfrentam preconceitos oriundos da visão liberal e meritocrática. Nessa visão de mundo, a culpa recai sobre o trabalhador por não ter finalizado os estudos. Consequentemente, dentro dessa visão, a EJA seria uma espécie de “repescagem”, ou então a “última chance”, quase algo acessório na educação – quando, na realidade, é de projeto pedagógico que se está falando.
Zanetti defende que é papel do Estado incentivar a participação da comunidade e viabilizá-la. É preciso uma visão “Intersetorial. Para dar comida pras crianças é um olhar também pedagógico. É impossível se concentrar com fome”, denuncia.
Nesse sentido, cabe aos movimentos populares e associações exigirem do Estado turmas localizadas em áreas próximas a seus locais de moradia ou de trabalho. “A própria subsistência dos alunos não é um tema de assistência social, mas de pedagogia. Garantir a permanência dessas pessoas na escola”, aponta Cida.
Raio-X da Educação de Jovens e Adultos
Fonte: IA e Fórum Paranaense
- Nos anos 2000, foi estabelecida as Diretrizes Curriculares Nacionais para a Educação de Jovens e Adultos (EJA). Esta atualização foi feita por meio da Resolução CNE/CEB nº 1, de 5 de julho de 2000, baseada no Parecer CNE/CEB nº 11/2000.
- O Fórum Paranaense de Educação de Jovens e Adultos critica o governo Ratinho Jr, que teria vinculado a EJA ao EAD, afastando a possibilidade contato vivo com os professores,
- A principal fonte de receita (ou, mais precisamente, despesa/investimento) do Governo Federal destinada à Educação de Jovens e Adultos (EJA) é realizada, majoritariamente, por meio do Fundo de Manutenção e Desenvolvimento da Educação Básica e de Valorização dos Profissionais da Educação (Fundeb).A EJA é uma modalidade da Educação Básica, e o financiamento é compartilhado entre a União, os Estados, o Distrito Federal e os Municípios.
- “Assim, defendemos que os cursos da EJA na modalidade de Educação a Distância (EaD) sejam ofertados exclusivamente para o Ensino Médio e sua carga horária fique limitada a no máximo 20% (vinte por cento) da carga horária total, tanto na formação básica, quanto nos Percursos de Aprofundamento do Currículo”, trecho do documento elaborado pelos fóruns EJA do Brasil.