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Os 25 “melhores” livros literários do século

A lista precisava ganhar outro nome: “o que os convidados da Folha estão lendo dentro da esfera da Folha

Os 25 “melhores” livros literários do século
Foto: Stephanie LeBlanc / Unsplash
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Imagine que o governo do Chile faça um concurso para escolher os 25 moares mais bonitos da Terra. O governo chileno, dono de um território absurdamente distante de seu litoral, onde vive e viveu um povo (ou povos) com poucos ou nenhum laço com o continente, decide, para ser ético, escolher apenas representantes da Ilha da Páscoa para compor o júri.

Este júri faz a escolha e, para surpresa de zero pessoas, os 25 moares mais lindos do planeta se situam... na Ilha da Páscoa. Um jurado ou outro lembra que um certo moar foi levado pelos ingleses ou pelos holandeses, mas, pouco lembrado, não entra na lista. Ganhou poucos votos. O mais lindo de todos, um enorme bloco, visto por 0,00001% da população mundial, fica em Ahu Tongariki.

Esta é a pesquisa de melhores livros literários do século XXI (até agora) feita pelo jornal Folha de S.Paulo: o jornal é, ora-ora, de São Paulo, incluso aí da capital do Estado. Os vencedores (os livros mais lembrados) são fundamentalmente de uma editora de São Paulo. Os autores, exceto um ou outro, ou são sudestinos e sulistas ou moram ou frequentam o interior do negócio editorial de São Paulo, quando muito, do Rio de Janeiro. Já falarei dos “convidados”. Há um baiano? Um paranaense? Um gaúcho? Sim. Mas as editoras, não.

Ainda à guisa de introdução à discussão, fui ver o que os especialistas andam dizendo (um amigo querido, ainda muito arraigado aos infames trocadilhos de certa poesia marginal dos anos 1970, chama esses especialistas de “special lists”). Um deles dizia que, dos 25 livros, leu apenas 5, mas ele fala de todos, porque “tem ouvido falar sobre”. Isso foi muito comovente, alguém se dedicar a falar de 20 livros que não leu: haja esforço! Um outro – também um homem branco – dizia que considera absurdo que as pessoas reclamem da lista porque “não há cotas para editoras e cada um indica o livro que queira”. Fico pensando se ele tem algum negócio com a Companhia das Letras. Li também reclamações esparsas sobre a ausência quase completa de livros de poesia (há dois) e ainda de mais autoras mulheres e ainda de autores/as negros/as (há alguns). Li também alguém incomodado com “A Queda do Céu” por se tratar de uma publicação difícil de classificar (seria literatura ou uma escrita literária antropológica, ao modo de um Leiris? Para quem não está acostumado à escrita de Leiris, ela é altamente “literária”). São pensamentos muito pertinentes. Mas é a primeira vez que vejo uma lista com três pessoas não brancas no topo.

Antes ainda de passar a uma análise da lista, creio ser necessária uma enfadonha apresentação do que sejam “listas”. Creio que tenhamos vários tipos de listas literárias:

a) listas de premiados já premiados, como a lista de prêmios Nobel ou a do Oceanos;

 b) listas de autores de um determinado período histórico (autores do século XIX, algo dificultado apenas pela datação: quem eu coloco? Essas listas de autores “por data” são mais difíceis de fazer do que meu prezado leitor pode imaginar – e posso explicar isso outro dia);

 c) listas de autores por escolas literárias ou grupos (autores do Romantismo, autores do grupo Olipo), com também lá suas complicações pelo simples motivo de explicar que Fulano é romântico e Beltrano, não;

 d) listas de livros para o vestibular ou para um concurso (é o inferno na Terra isso aí e felizmente não preciso fazer coisa do tipo, tampouco lidar com isso: nunca uma lista desse tipo agrada todo mundo; eu, por exemplo, fico sempre descontente);

 e) lista de melhores disso e daquilo. Sempre que me pedem isso, eu sofro. Eu participo, até para tentar garantir um lugar para bons autores desprezados, mas é sempre uma saia justíssima. Como pode reparar, há listas “já prontas”, incontornáveis, e há listas “por fazer”.

O que aproxima esses dois tipos de listas é a escolha de um grupo de pessoas supostamente preparado para as escolhas, seja uma lista demorada de se formar, como a do Nobel, seja uma lista “para-já”, caso dos vestibulares ou da lista da Folha. Talvez o problema não esteja nas listas em si e sim em quem as produz.

Só uma palavrinha sobre as listas de prêmios grandalhudos, como o Nobel ou o Men Booker Prize. Analisar a lista é algo complicado. O Prêmio Nobel gira em torno de interesses de um comitê móvel, por assim dizer, e que tem um responsável a cada época ou certame. Já passou por diferentes fases, pois não apenas o conceito de “literário” ou de “boa literatura” muda com o tempo, como as políticas de escolha também mudam. Houve época em que um membro do comitê que dominasse determinada língua era designado para indicar um vencedor (fosse o japonês ou o espanhol) e hoje a coisa não funciona mais assim. Nenhum membro precisa falar ou ler em chinês para indicar Mo Yan. Houve épocas em que a premiação se inclinava mais à esquerda (Háldor Laxness) ou à direita (Llosa) ou a premiação indicava o interesse cultural ou midiático num país “da moda”, o que ocorreu quando da escolha do cardeal Karol Józef Wojtyła para o papado e a decisão de o comitê premiar Czesław Miłosz pouco tempo depois. A tendência agora (e isso ocorre faz tempo) é até premiar autores árabes, africanos ou asiáticos, mas desde que critiquem o sistema (em particular a noção de comunismo ou socialismo comunista que os acadêmicos suecos têm). Também a tendência é premiar autores “fáceis”, mais populares, com mercado garantido e leituras rápidas.

Os demais prêmios grandes não são diferentes. Podemos até pensar que as editoras não exercem influência na escolha dos vencedores, mas o mercado editorial lá fora é ainda mais forte que o mercado editorial local. A fome, apenas para exercitar a comparação possível – da Cia. das Letras no brasil, comprando editoras pequenas e grandes, herdando, na maior parte das vezes, o capital cultural dessas editoras, essa voracidade, digo, é mais comum fora do Brasil. No mercado estrangeiro, não pense você que a coisa é fácil: as escolhas de ganhadores alcançam da maneira mais curiosa ou pérfida as casas de apostas – e há apostadores para quem ganha a coroa papal, o vencedor do The Voice e também o Nobel, mesmo para quem nunca leu na vida um livro de, sei lá, Ludmila Ulitskaia. Esta autora sempre encabeça listas de apostas, mas o comitê sueco anda de mal com a Rússia, mesmo com autores que criticam Putin.

Negócio é negócio – e, como já disse aqui tantas vezes – o capitalismo é uma boca e um aparelho digestivo voraz, engolindo de tudo, até as grandes pautas da esquerda, da marginalidade, dos discursos queer, da negritude, do meio ambiente, da religião, o que for. O problema maior dos grandes concursos e das listas não é apontar livros interessantes ou de possível boa divulgação das grandes causas humanas – e, sim, apontar livros que lidam com essas causas apenas pela superfície. Digamos que o que acabei de falar tem a ver com o conteúdo. Em relação ao aspecto formal literário, a literatura tem perdido bastante com prêmios poderosos e edições requintadas de obras de discutível labor/fazer/pesquisa literária. Isso é bem triste.

E há o óbvio: ninguém leu tudo que está no mercado (nem falarei do que não está no mercado), ou seja, ninguém poderia opinar verdadeiramente sobre “o melhor que há”. O que fazemos é indicar possibilidades. Por esse viés, eu nem poderia criticar as listas em geral. Mas preciso fazê-lo.

No meio de tantas coisas infelizes sobre a escolha da Folha, encontro um oásis de levantamento e análise: Lizandra Magon de Almeida e Haroldo Ceravolo Sereza fizeram não apenas um levantamento por editora e gênero, como um levantamento “genético” das publicações da lista da Folha. Sou muito grato a eles (o trabalho deles ficou muito melhor que o meu) e deixo nas notas a fonte que usei.[1] A Cia. aparece como a editora que “está no coração dos convidados”, direta ou indiretamente. Editoras como Nós, Malé, dentre tantas, sequer foram lembradas. No caso de editoras independentes que lidam com a negritude, em particular, isso é incrível  e precisa ser dito: os leitores convidados pela Folha só se lembraram do óbvio. É como se todo o restante não existisse.

Refleti muito sobre a lista e seguem aí algumas observações, entre felicidades e tristezas.

a) Embora o número de mulheres ainda seja pequeno, os convidados da Folha lembraram de autoras, incluindo-se aí, duas poetisas.

b) O número de autores negros também aumentou, diferindo-se de listas mais antigas (já falo disso). Mas no geral são autores com grande entrada nas mídias em geral.

 c) Houve inclusive a indicação de um autor indígena, a despeito de sobre a escolha pairar uma dúvida: o livro é de literatura? Não deixa de ser uma escolha surpreendente. As pessoas têm lido livros de 100 páginas, afinal.

 d) O autor mais velho citado nasceu em 1936 e o mais jovem em 1991, então não é possível falar numa “geração”, e vejo isso como algo positivo. Ao menos por esse crivo. Não creio, porém, que um autor tão jovem tenha uma obra consolidada a ponto de tê-la indicada numa lista desse tipo, mas o autor em questão foi uma aposta da editora, que agora precisa bancar tal aposta. O discurso era o da “literatura periférica” e o da “variação linguística”. As obras apontadas dessa lista que têm como base argumentativa a variação linguística são uma catástrofe literária. Preciso dizer.

Só uma observação: listas são problemáticas porque ninguém saberá se os autores citados sobreviverão ao tempo. Há prêmios Nobel absolutamente irrelevantes para a História da Literatura, assim como há premiados com o Booker Prize que escreveram apenas um livro relevante. Não é muito diferente com o Jabuti e o Oceanos. Prêmios são importantes? Sim. Em problemática aproximação com as artes plásticas, artistas premiados em salões ou artistas com exposições em grandes coletivas podem usar isso para consolidação de seu trabalho. Podemos pensar o mesmo de escritores. Algo parecido ocorre com escritores que conseguem edições em outros idiomas. Isso pesa e é visto positivamente. Então, o que proponho como investigação não são listas ou prêmios em si mas o que eles realmente têm feito com a produção literária brasileira.

A situação mais grave dessa lista, para mim, não é a escolha dos livros em si, e sim o que ela diz dos convidados pela Folha. São cem pessoas, e desconheço a clivagem: se são homens ou mulheres, se são lgbt, se são brancos, sudestinos, eu não sei. Mas sei bem o que eles escolheram.

Para começo de conversa, a lista mostra o absolutamente óbvio: os convidados leem pouco ou vivem numa bolha bem pequena. É óbvio também que os livros escolhidos receberam poucos votos cada um. Os últimos, por exemplo, têm apenas oito votos, o que gerou uma série de “empates”: três ou quatro livros numa mesma “posição”. Os convidados escolheram os livros de sempre: da maior editora, os que têm grande circulação, a maioria dos escritores já conhecidos da mídia, livros que venderam muito, geraram likes, reposts e dor de cabeça nos programas de mestrado e doutorado Brasil afora.

Aqui preciso fazer um adendo ou uma digressão: professores me têm relatado que muitos alunos entram com projetos de pesquisa que visam autores relativamente novos no mercado, como Itamar Vieira Jr. Algum problema? Não, afora o fato de ser um autor com pouca (ainda) produção. Em casos assim, nem houve tempo de deixar a obra “descansando”. Alguns alunos desejam usar autoras negras como base teórica. Algum problema? Não – e muito pelo contrário! Que magnífico alguém desejar usar autoras negras, teóricas negras. A questão maior é da pesquisa em si. Talvez, se farei pesquisa sobre autores negros (ou lgbt ou indígenas), o que pretendo criticar? Se farei comparação com as outras massas discursivas, é de se esperar que tenha passado por elas. De um modo ou de outro eu as utilizarei, mesmo que seja para criticá-las. Ou não poderei “enegrecer” o discurso, a pesquisa, o saber. Mas voltemos à lista.

Então a lista seria de livros que venderam bastante?  Livros que geraram mídia, desde matérias no Fantástico até convites para grandes feiras de livros? Livros com temas da moda? Livros com a linguagem da moda? Que tipo de livro exatamente a lista traz? Trouxe Itamar Vieria Jr. e Jeferson Tenório, segundo e terceiro mais citados. A obra mais citada (e não entro no mérito de sua qualidade literária) foi “Um defeito de cor”, uma obra bastante volumosa, e que foge do padrão geral da lista, com obras pequenas (eu retiraria da comparação “A queda do céu”). Em encontro literário ocorrido há alguns anos na cidade (eu mesmo entrevistei a autora), ela tinha dito que os direitos autorais da obra tinham sido cedidos para a Globo, que pretendia fazer uma série. Que não saiu. Comento isso para demonstrar o caráter midiático que grande parte das obras da lista teve. “Torto Arado” acabou por se transformar num farol da literatura brasileira. Em outro momento, posso adentrar o mérito de suas qualidades literárias.

O que não há na lista como conteúdo? No caso do levantamento mais numérico da lista, digamos, aconselho, então o texto que citei acima.

Trata-se em grande parte de obras com ausência de linguagem provocativa, algo que seria comum numa literatura experimental. As poucas obras – como mencionei acima – que tentam uma dicção outra da língua portuguesa fracassam, pois a mistura fica entre recortes específicos da linguagem popular e o uso formal da língua (isso é claro logo no começo de “Os supridores” ou ainda em “Pornopopeia”, ou em “Um sol na cabeça”).

São obras de leitura rápida. Não se trata aqui de dizer que a grande literatura seja feita de obras grandes. Não é isso. Eu me refiro à linguagem mesmo e também ao tamanho das obras: frases curtas, parágrafos curtos, blocos de divisão textual para facilitar a leitura e, claro, o enfrentamento de grandes questões com rasas abordagens. Mesmo para um cultor da língua, como Chico Buarque, seus livros optam por textos ágeis. Veja quantas horas você gasta para ler um de seus livros. Essa escolha da linguagem diz bastante de nosso tempo. Não é à toa que falamos de “escrevivências”, autoficção, de escritas que se avizinham da linguagem das grandes mídias sociais. Não é sem motivo que lemos dez livros atuais e temos a sensação de que lemos uma coisa só, pois até a linguagem é parecida. Creio que apenas o futuro dirá como essa literatura será vista: se ganhará peso pela presença nela das grandes questões atuais, a despeito de sua linguagem pouco trabalhada, ou cairá no esquecimento, como tantas literaturas passadas – e tantos autores.

Antes de ler a lista eu pensei que autores do “grupo do email de Chernobyl” estariam presentes. Mas não. Isso já nos dá uma ideia de como os convidados pela Folha pensam a literatura: pelo poder da mídia. Não que eu defendesse a presença desses autores (inclusive jamais citaria Michel Laub), mas eles eram arroz de festa em listas anteriores. O mercado luta por eles. Investiu neles. Amigos se uniram para divulgar suas obras. Mas o que mais me preocupa é a ditadura do cancelamento, o que pode ser muito perigoso. O cancelamento pode retirar livros de Diogo Mainardi das prateleiras e da memória das pessoas, mas também pode fazer esquecer obras de real interesse literário, como o caso de Bruno Tolentino (“A imitação do Amanhecer” é de 2006 – e acho que ninguém da lista o leu).

E por falar em Tolentino, que falar da ausência da poesia? Será que o Brasil produz pouca poesia? Não: é o contrário. Produz bastante. Haverá poucos leitores? Não: há muitos. Mas por que razões a poesia fica tão de escanteio? Um dos motivos é o próprio andar da literatura como produto de consumo. Então, numa lista que junta escrita ficcional e poesia, era de se esperar que poucos poetas fossem citados. Mas onde estão os poetas de peso? Onde está o Nordeste e o Norte? Onde está a região central do país? A cada dia trago poetas no meu perfil literário. Tenho trazido inúmeros poetas brasileiros. Será que os convidados da Folha não os leem? Parece que não. Poetas incríveis como Ubiratan Carvalho Costa ou Eleazar Carrias, dentre tantos profissionais incríveis da língua, ficam de fora. Ainda. Depois de tanta água que correu sob a ponte dos discursos de descentralização.

Para não dizer que santo de casa não faz milagre, Cristóvão Tezza foi citado. Lamento que outros grandes autores locais, como Lucas Lazzaretti, Cezar Tridapalli ou Ricardo Pedrosa Alves não consigam derrubar essa fortaleza bizantina que é o mercado paulista. E espero que da próxima vez a Folha convide “especialistas” com olhar mais abrangente ou especialistas que, simplesmente, leiam mais. Pelo visto, grande parte do júri lê pouco, lê sem diversidade e lê mal. Será que ninguém leu Edmilson de Almeida Pereira? Citado e famoso ele é. Li comentários reclamando da falta de Carla Madeira e Aline Bei... mas eram apenas leitoras apaixonadas. Não era meme.

No fim das contas, a lista precisava ganhar outro nome: “o que os convidados da Folha estão lendo dentro da esfera da Folha”. Obrigado, Slotedijk!


[1] Melhores livros do século 21? Aprofundando a discussão sobre a lista da Folha – CONTEE

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