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O fim do sonho de TI: acabou o boom de vagas e salários do setor?

Mercado de Tecnologia da Informação migrou da carteira assinada para a terceirização, mostram dados analisados pelo Plural. Mas mudança não foi uniforme em todo país

O fim do sonho de TI: acabou o boom de vagas e salários do setor?
Foto:Hack Capital / Unsplash
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Dados da Relação Anual de Informações Sociais (RAIS), do Novo Caged (Cadastro Geral de Empregados e Desempregados) e do Cadastro Nacional de Pessoas Jurídicas (CNPJ) mostram que depois de um salto de 2021, o saldo de vagas de emprego no setor de Tecnologia da Informação entrou numa fase de retração. Mas a abertura de empresas do setor explodiu.

A análise do Plural mostra como o mercado de Tecnologia mudou desde a pandemia de Covid-19, a chegada do ChatGPT, a redução do fluxo de dinheiro de investimento.

O Brasil abriu 51.559 vagas formais líquidas de desenvolvimento de software em 2021 — admissões menos desligamentos. Em 2025, abriu 10.977. Entre janeiro e maio de 2026, foram 651. Os dados são do Novo CAGED, o cadastro de contratações e demissões do Ministério do Trabalho, e foram somados pelo Plural mês a mês para os cargos de desenvolvimento de software.

No mesmo período de 2026, o mercado formal brasileiro como um todo abriu 763.442 vagas líquidas. A TI, que puxava a criação de emprego qualificado, parou.

O Plural reuniu os microdados mensais do Novo CAGED de janeiro de 2021 a maio de 2026 e os cruzou com a RAIS, o registro anual de vínculos formais para tentar entender o que está acontecendo no mercado de tecnologia. Entram na conta os códigos de analista de desenvolvimento de sistemas, programador de sistemas, programador de internet, engenheiro de aplicativos, engenheiro de sistemas operacionais e analista de automação.

O fim do boom de TI, em números

Desenvolvimento de software no Brasil · Novo CAGED (fluxo mensal, 2021–mai/2026) e RAIS (estoque) · Ministério do Trabalho

Trajetória nacional — vagas líquidas, contratações e salário

AnoSaldo (vagas líq.)AdmissõesDesligamentosSalário admissãoSalário real (R$ 2021)

Por cargo — quem apanhou mais

Cargo202120222023202420252026*Salário adm. 2025

Por estado — saldo de vagas por ano

Estado202120222023202420252026*

* 2026 = janeiro a maio (parcial).

Explore os dados — por cargo e estado

Saldo = admissões − desligamentos (movimentações declaradas no prazo, Novo CAGED). "Desenvolvimento de software" reúne os CBOs de analista de desenvolvimento de sistemas, programadores (de sistemas e de internet), engenheiros de aplicativos e de sistemas operacionais e analista de automação. Salário de admissão médio (teto de R$ 100 mil); "real" deflacionado pelo IPCA (aprox.). Só emprego formal com carteira. 2026 vai até maio.

O salário sobe na carteira e cai no bolso

O salário médio de admissão de um desenvolvedor passou de R$ 6.035 em 2021 para R$ 7.753 em 2026, alta de 28%. O Plural corrigiu os valores pela inflação do período, medida pelo IPCA. Em valores de 2021, o salário de admissão foi de R$ 6.035 (2021) para R$ 6.363 (2022) e R$ 6.187 (2026). Ou seja: descontada a inflação, quem entra na área hoje ganha menos do que quem entrava em 2022.

O salário de quem já está no mercado também parou. A remuneração mediana dos desenvolvedores empregados subiu de R$ 8.052 (2024) para R$ 8.499 (2025) na RAIS, alta de 5,6% — abaixo da inflação do ano.

O setor não encolheu. A porta de entrada, sim

O número de desenvolvedores empregados ainda cresce. Passou de 399.373 em 2024 para 416.750 em 2025, alta de 4,4%, segundo a RAIS. O que travou foi a entrada de gente nova.

A fatia de desenvolvedores com menos de 30 anos caiu de 35,3% para 34,4% entre 2024 e 2025. Com menos jovem entrando, a categoria envelhece. Ou seja: quem já está dentro segue empregado; quem tenta a primeira vaga encontra a porta mais estreita.

A RAIS de 2025 foi divulgada em maio de 2026 e ainda pode receber correções, que costumam elevar os números. O crescimento do estoque, porém, indica que a base não está muito incompleta.

Programador apanhou mais que engenheiro

A queda não foi igual entre os cargos. O Plural comparou as admissões de 2021 com as de 2025 em cada função.

O programador de internet perdeu 38% das contratações no período. É o cargo de menor salário de admissão do grupo em 2025: R$ 4.496. Seu saldo ficou negativo em 2023 e voltou ao negativo em 2026 (−39 vagas). O analista de desenvolvimento de sistemas, que concentra a maior parte dos profissionais, perdeu 30% das admissões, com salário de admissão de R$ 8.226.

Os engenheiros resistiram. As admissões de engenheiro de sistemas operacionais caíram 5%. O engenheiro de aplicativos foi o único cargo cujo saldo de 2025 (1.131 vagas) superou o de 2024 (803). São os mais bem pagos: salário de admissão acima de R$ 14 mil em 2025.

O padrão que os dados mostram: os cargos mais próximos de escrever código, e de menor salário, encolheram mais e não voltaram; os cargos mais especializados e caros seguraram. Os dados, porém, não apontam culpados.

São Paulo parou. O Nordeste ainda contrata

São Paulo responde por cerca de metade do mercado. O estado abriu 32.823 vagas líquidas de desenvolvimento de software em 2021, 1.486 em 2023 e 66 nos cinco primeiros meses de 2026.

Alguns estados foram na direção contrária. O Distrito Federal abriu 1.333 vagas líquidas em 2023, quase o mesmo que São Paulo, no ano em que o país despencou; em 2026 ficou negativo (−214). Pernambuco, sede do Porto Digital, teve saldo negativo em 2023 (−170) e fechou os cinco primeiros meses de 2026 em +256. Rio Grande do Sul (+375) e Espírito Santo (+306) também seguem positivos em 2026.

O pior saldo de 2026 é o do Paraná: −473 vagas. Entre janeiro e maio, o Plural apurou 19 estados com saldo positivo em desenvolvimento de software e 8 negativos. Entre os negativos estão o Paraná e o Distrito Federal.

O que aconteceu no registro de CNPJs de TI

O Brasil abriu 97.970 CNPJs de desenvolvimento de software entre 2021 e junho de 2026 — quase tanto quanto em todos os anos anteriores somados (115.590). O Plural contou os registros na base da Receita Federal, competência de junho de 2026.

A abertura anual quase triplicou: de 8.424 em 2020 para 22.848 em 2025, o recorde da série. Nenhum é MEI — a atividade não é permitida para microempreendedor individual. E 77,8% dos abertos desde 2021 têm um único sócio: empresa de uma pessoa só.

No mesmo período, o emprego formal com carteira na área parou de crescer. O trabalho de programar não sumiu. Trocou de carteira.

O emprego não sumiu, virou PJ

Abertura de CNPJs de desenvolvimento de software no Brasil · base de CNPJ da Receita Federal (jun/2026) e Novo CAGED

CNPJs de dev abertos desde 2021
97.970
46% de todo o estoque atual
Aberturas em 2025 (recorde)
22.848
eram 8.424 em 2020
Desses, são MEI
≈ 0
atividade não permitida para MEI
De uma pessoa só
77,8%
76.267 dos abertos desde 2021

Aberturas de CNPJ de software por ano

A tesoura: emprego com carteira × abertura de empresa

Índice 2021 = 100. Enquanto o saldo de vagas com carteira despencou, a abertura de CNPJs subiu.

CNPJs de dev abertos Saldo de vagas CLT (Novo CAGED)
CNPJs de desenvolvimento = estabelecimentos matriz com CNAE 6201, 6202 ou 6203 (desenvolvimento e licenciamento de programas). "TI ampla" soma consultoria, suporte, dados/hosting e portais (6204, 6209, 6311, 6319). "Uma pessoa só" = 1 sócio (inclui sociedade limitada unipessoal). Saldo CLT = admissões − desligamentos dos cargos de dev no Novo CAGED. Base da Receita é a foto de jun/2026; 2026 é parcial (até junho). Abrir CNPJ não prova saída do CLT — as bases são anônimas e não se ligam pessoa a pessoa.

Como o Plural apurou

As informações desta reportagem tem base nos microdados do Novo CAGED (movimentações declaradas no prazo, janeiro de 2021 a maio de 2026) e da RAIS 2024 e 2025, do Ministério do Trabalho. Enquanto o CAGED mede as admissões e as demissões, a RAIS mostra o retrato estático do mercado, com número de vínculos e salários.

No texto, saldo é a diferença entre admissões e desligamentos. Os salários de admissão consideram valores entre R$ 100 e R$ 100 mil, e a correção pela inflação usa o IPCA do IBGE, com índice aproximado para 2026.

Os dados cobrem apenas o emprego formal com carteira — não captam autônomos, pessoas jurídicas nem trabalho informal, comuns no setor. O saldo de 2026 vai até maio.

Rosiane Correia de Freitas

Rosiane Correia de Freitas

Jornalista, mestre em educação e fundadora do Plural

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