A Prefeitura de Curitiba congelou por dois anos o valor que pagava às creches privadas que atendem crianças da fila da rede pública. No mesmo intervalo, instituições filantrópicas que ofereciam creche foram extintas, a rede com fins lucrativos cresceu 63% e ocupou o espaço, e a fatia de vagas públicas de creche que hoje está em instituições privadas contratadas chegou a 4 em cada 10 — um arranjo que já consumiu R$ 368,9 milhões desde 2024, a maior parte com dinheiro do Fundeb, o fundo constitucional da educação.
A análise de dados públicos feita pelo Plural mostra que a mudança no modo de contratação de vagas na Educação Infantil fez escolas filantrópicas fecharem e serem substituídas por escolas privadas. Não é exatamente uma novidade. Desde que o sistema foi implantado, instituições sociais de Curitiba alertavam para o risco de fechamento de creches sociais na cidade.
Em 2024, uma proposta dos vereadores Angelo Vanhoni (PT), Dalton Borba (PDT), Giorgia Prates – Mandata Preta (PT), Maria Leticia (PV), Marcos Vieira (PDT), Noemia Rocha (MDB) e Professora Josete (PT) propunha a remodelagem da remuneração das instituições. A iniciativa aconteceu após o fechamento do CEI Maria Cazetta.
A proposta foi rejeitada em plenário por 19 votos a 11. Na ocasião, a então vereadora Professora Josete (PT) alertou: “Se a gestão quer garantir uma isonomia entre os CMEIs e os CEIs conveniados, ela tem que dar as mesmas condições. E eu defendo que seja o mesmo valor que hoje é investido nos CMEIs. Se nós queremos uma educação de qualidade, que proporcione as mesmas oportunidades às crianças, temos que tratar desta forma: de maneira igualitária não só no calendário, mas também de maneira igualitária nos recursos investidos”.

A reconstituição a seguir se apoia inteiramente em dados públicos coletados e processados pela reportagem: os relatórios mensais da Secretaria Municipal da Educação (SME), os microdados do Censo Escolar do Inep, as páginas das licitações no Portal da Transparência de Curitiba, a base de CNPJ da Receita Federal e os decretos, editais e contratos da própria Prefeitura.
O modelo: comprar vaga em vez de construir CMEI
Curitiba não atende toda a demanda por creche na sua própria rede. Para as crianças de 0 a 5 anos que ficam de fora — as "excedentes", no termo oficial —, a SME credencia instituições privadas e paga a elas por criança matriculada em período integral, por dia letivo. É a chamada rede contratada.
O peso dessa rede é grande e crescente. Cruzando as vagas ocupadas dos relatórios da SME com a matrícula da rede municipal direta no Censo Escolar, a reportagem estimou que cerca de 14 mil crianças de 0 a 5 anos estavam, em 2025, na rede privada contratada — ao lado de cerca de 41 mil nos CMEIs e escolas municipais. E a parcela de vagas públicas de creche que, na prática, está em instituições privadas contratadas subiu de 35% em 2022 para 42% em 2025. No mesmo período, a matrícula em creche na rede municipal direta — os CMEIs — ficou praticamente estagnada, em torno de 16 mil crianças.
Dois anos de congelamento
O preço pago às contratadas é fixado por decreto municipal. O Decreto nº 1.226, de julho de 2023, estabeleceu para 2024 os valores de R$ 70,84 por dia para o berçário, R$ 64,40 para o maternal e R$ 61,33 para a pré-escola, em período integral. No ano seguinte, o Edital nº 7/2025 repetiu exatamente os mesmos valores, citando o próprio Decreto 1.226 como base. Foram dois exercícios sem qualquer reajuste — enquanto a inflação do período corroía o valor real repassado às instituições.
Foi nesse intervalo de congelamento que instituições contratadas deixaram de existir. A base de CNPJ da Receita Federal, consultada pela reportagem, mostra que a Associação Maria Cazetta teve o CNPJ baixado em 5 de julho de 2024, com o motivo oficial "extinção por encerramento e liquidação voluntária". O Centro de Educação Infantil Descobrinque — que operava sob o nome fantasia Athas — foi baixado em 13 de dezembro de 2024, pelo mesmo motivo. Outras duas credenciadas aparecem como "inaptas" na Receita por omissão de declarações, sinal de paralisação. Das 156 instituições já contratadas pela cidade nos dois últimos editais, essas são as que saíram da normalidade cadastral.
O Censo Escolar aponta um movimento mais amplo nas escolas. Rastreando unidade por unidade entre 2017 e 2025, a reportagem identificou cerca de 20 creches filantrópicas ou comunitárias que deixaram de aparecer no Censo — indício forte de encerramento, ainda que na base do CNPJ, só as duas baixas acima estejam formalmente confirmadas (uma mesma entidade pode fechar uma unidade e manter o registro ativo). Outras oito deixaram de ser filantrópicas e se converteram em empresas com fins lucrativos.
Enquanto a rede filantrópica encolhia, a com fins lucrativos disparava. Pelo Censo Escolar, a matrícula em creche nas instituições sem fins lucrativos caiu 9% entre 2017 e 2025 (de 7.110 para 6.487 crianças), enquanto a das particulares com fins lucrativos cresceu 63% (de 8.793 para 14.340). As duas curvas se cruzaram em 2021: foi o ano em que a creche privada de Curitiba deixou de ser majoritariamente comunitária e passou a ser majoritariamente empresarial.
O mesmo aparece no credenciamento. O edital anterior reuniu 109 instituições; o atual, 146 — um salto de 34%. Praticamente todo o crescimento é de empresas: as com fins lucrativos passaram de 61 para 94 (+54%), enquanto as sem fins lucrativos ficaram estagnadas (41 para 42). O teto financeiro do credenciamento acompanhou: subiu 46%, de R$ 320,9 milhões para R$ 468,9 milhões entre um ciclo e outro. E, pelos contratos assinados sob o novo edital, o valor médio pago por criança subiu cerca de 11% — o reajuste que não veio nos dois anos anteriores.
R$ 368,9 milhões, a maior parte do Fundeb
A conta da terceirização está toda no Portal da Transparência, e a reportagem a somou empenho a empenho. No biênio 2024-25, já encerrado, a Prefeitura pagou R$ 283,5 milhões a 108 instituições contratadas. Em 2026, primeiro ano do contrato atual, outros R$ 85,4 milhões já foram pagos. São R$ 368,9 milhões em menos de três anos — e o teto do credenciamento atual, sozinho, autoriza até R$ 468,9 milhões para 2026-2027.
A maior parte sai do Fundeb: a dependência do fundo constitucional da educação saltou de 34% do gasto no ciclo anterior para 59% no atual.

Os maiores recebedores, vale registrar, ainda são entidades filantrópicas de grande porte — a Associação Frei Tito de Alencar, a AMAR e a Liga das Senhoras Católicas de Curitiba lideram os pagamentos. O que mudou não foi quem recebe mais, mas quem está entrando: as novas credenciadas são, em sua maioria, empresas.
Comprar a vaga saiu mais barato do que mantê-la na rede própria. Pelos pagamentos efetivos de 2024-25, a vaga contratada custou cerca de R$ 11,8 mil por criança ao ano (estimativa, com base na média de vagas do biênio). No mesmo ano, o investimento por aluno da rede própria declarado pela Prefeitura ao Siope foi de R$ 19,9 mil — de 28% a 41% mais caro, a depender de como se trata o denominador. O reajuste do contrato atual, porém, estreita essa diferença.
Há, contudo, um dado que a própria Prefeitura declarou ao sistema federal e que chama atenção: em 2025, o indicador de investimento por aluno da creche aparece como R$ 0,00 em todos os bimestres — todo o custo da educação infantil foi lançado como pré-escola. Justamente a etapa com maior fila não tem custo declarado. E a fila é grande: pelo cruzamento da população do Censo 2022 do IBGE com as matrículas, cerca de 28 mil crianças de 0 a 3 anos estão fora de qualquer creche em Curitiba, com a cobertura pública travada em torno de 35% — abaixo da meta de 50% do Plano Nacional de Educação.
Como esta reportagem foi feita
Os dados de vagas vêm dos relatórios "Vagas Ocupadas x Vagas Existentes" da SME, baixados e tabulados pela reportagem. As matrículas por rede (municipal, comunitária e particular) foram extraídas dos microdados do Censo Escolar/Inep de 2017 a 2025. A situação das instituições contratadas foi verificada na base pública de CNPJ da Receita Federal. Os valores pagos e as fontes de recurso foram somados a partir das páginas das licitações IN 27/2023 e IN 47/2025 no Portal da Transparência de Curitiba. As tarifas constam do Decreto nº 1.226/2023, do Edital nº 7/2025 e dos contratos do credenciamento. A população em idade escolar é do Censo 2022 do IBGE, e o custo por aluno da rede própria, do Siope 2025. Onde o número é projeção ou estimativa, isso está sinalizado no texto.

