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Dois mil imóveis de Airbnb no Centro desafiam plano da prefeitura

Dados cruzados com o IBGE mostram que o Airbnb se concentra no eixo Centro–Batel, onde a prefeitura investe R$ 163 mi para repovoar a região

Dois mil imóveis de Airbnb no Centro desafiam plano da prefeitura
Foto: Lucas Dalamarta / Unsplash

O programa Curitiba de Volta ao Centro vai injetar até R$ 163 milhões em dinheiro público para reocupar a região central com moradia permanente. Mas a aposta enfrenta um adversário silencioso no mesmo território: o Centro concentra mais de um terço de todos os imóveis de aluguel por temporada da cidade — e a fronteira entre a "moradia" que a prefeitura quer e a "temporada" que ela tenta evitar é mais tênue do que os decretos sugerem.

Curitiba tinha 5.875 imóveis ativos no Airbnb em maio de 2026, segundo os dados de mercado da Valorcwb.app analisados pelo Plural. Essa oferta não se espalha pela cidade: ela se amontoa num corredor central. O Centro, sozinho, concentra cerca de 36% de todos os anúncios geolocalizados — o equivalente a mais de 2 mil imóveis dedicados à hospedagem de curta temporada num único bairro. Somando os quatro vizinhos mais próximos — Água Verde, Bigorrilho, Batel e Cristo Rei —, chega-se a quase dois terços (64%) de toda a oferta da capital em apenas cinco bairros.

É justamente sobre esse território que a Prefeitura de Curitiba decidiu agir. Em 31 de março de 2026, o prefeito Eduardo Pimentel (PSD) assinou cinco decretos que regulamentam o programa Curitiba de Volta ao Centro, criado pela Lei Complementar 150/2025. O pacote prevê mobilizar até R$ 163 milhões — R$ 30 milhões em subvenção direta (reembolso de obras) e R$ 133 milhões em incentivos fiscais de IPTU, ISS e ITBI, com vigência até 2032 — para reverter o esvaziamento residencial da região central.

O dinheiro público entra onde o Airbnb já manda

Bairro % da oferta de temporada Imóveis (estimativa) Renda média/mês (IBGE) Classe
Centro 36,1% ~2.120 R$ 6.596 médio
Água Verde 9,8% ~580 R$ 10.407 médio-alto
Bigorrilho 6,6% ~390 R$ 10.692 médio-alto
Batel 6,3% ~370 R$ 14.757 alto
Cristo Rei 4,8% ~280 R$ 8.959 médio-alto
Rebouças 4,3% ~250 R$ 6.518 médio
Vila Izabel 3,8% ~220 R$ 8.305 médio

Participação calculada sobre os anúncios com bairro identificado; a estimativa de imóveis aplica essa participação ao total de 5.875 anúncios ativos em maio de 2026.

O cruzamento com o Censo 2022 do IBGE ajuda a entender por que a temporada se concentra ali. O Centro tem 38.671 moradores, renda média de R$ 6.596 e uma densidade de quase 118 habitantes por hectare — combinação de localização, oferta abundante de apartamentos compactos e proximidade de pontos turísticos e de negócios que o Airbnb persegue. A intensidade da plataforma no bairro chega a quase 55 imóveis de temporada para cada mil moradores, de longe a mais alta da cidade. No Batel — bairro de maior renda de Curitiba (R$ 14.757 por mês) —, são cerca de 37 por mil habitantes. Em bairros populares e populosos, como Cajuru e Boqueirão, a presença da plataforma é estatisticamente irrelevante.

O contraste

A aposta pública e a corrente contrária

Programa Curitiba de Volta ao Centro Mercado de temporada já instalado
Investimento público previstoaté R$ 163 mi
  ↳ Subvenção direta de obrasR$ 30 mi
  ↳ Incentivos fiscais (IPTU, ISS, ITBI) até 2032R$ 133 mi
Reembolso de obras (retrofit completo / comércio térreo)25% / 50%
Imóveis de temporada já ativos no Centro~2.120
Fatia do Centro na oferta de temporada da cidade36,1%

O Decreto 422/2026 veda o uso de unidades residenciais subsidiadas para hospedagem de curta duração e exige manutenção do uso por 3 a 10 anos. Fontes: Prefeitura de Curitiba (Lei Complementar 150/2025; Decretos 418–422/2026) e análise de mercado do Plural.

É esse o paradoxo do programa: o esforço para trazer moradores permanentes de volta ao Centro acontece exatamente no micro-mercado onde a lógica oposta — a do hóspede de passagem — está mais consolidada.

Gráfico 1

Um em cada três imóveis de temporada está no Centro

Participação de cada bairro no total de anúncios de aluguel por temporada com endereço identificado — Curitiba, 2026

Centro
36,1%
Água Verde
9,8%
Bigorrilho
6,6%
Batel
6,3%
Cristo Rei
4,8%
Rebouças
4,3%
Vila Izabel
3,8%

Os 5 primeiros bairros somam 64% da oferta da cidade. Barras proporcionais à participação do Centro (=100%). Fonte: base de mercado de aluguel por temporada (maio/2026); 396 anúncios com bairro identificado. Análise: Plural.

Gráfico 2

A pressão da temporada é maior onde mora menos gente

Imóveis de temporada estimados para cada 1.000 moradores (população do Censo 2022, IBGE)

Centro
54,9
Batel
37,4
Rebouças
18,3
Vila Izabel
17,3
Cristo Rei
16,0
Bigorrilho
15,1
Água Verde
11,7

Estimativa de imóveis por bairro aplicada à população residente do Censo 2022. Barras proporcionais ao Centro (=100%). Fontes: base de mercado (maio/2026) e IBGE. Análise: Plural.

Tabela

Onde o Airbnb se concentra — e o perfil de renda do bairro

Oferta de temporada cruzada com renda e classe socioeconômica do Censo 2022 (IBGE)

Bairro % da oferta Imóveis (estim.) Renda média/mês Classe (IBGE)
Centro36,1%~2.120R$ 6.596médio
Água Verde9,8%~580R$ 10.407médio-alto
Bigorrilho6,6%~390R$ 10.692médio-alto
Batel6,3%~370R$ 14.757alto
Cristo Rei4,8%~280R$ 8.959médio-alto
Rebouças4,3%~250R$ 6.518médio
Vila Izabel3,8%~220R$ 8.305médio

Renda média mensal do responsável pelo domicílio (Censo 2022, IBGE). Estimativas de imóveis aplicam a participação observada na amostra (396 anúncios geolocalizados) ao total de 5.875 anúncios ativos em maio/2026 — ordem de grandeza, não contagem exata. Análise: Plural.

O que o programa proíbe — e o que ele incentiva

Os decretos são explícitos quanto à intenção. O Decreto 422/2026, que regulamenta a subvenção econômica, estabelece como condição para receber o reembolso (de até 25% em obras de requalificação completa e até 50% em comércios de térreo) a vedação ao uso de unidades residenciais para hospedagem de curta duração, condição incluída por emenda da vereadora Laís Leão (PDT) ao projeto original.

O imóvel beneficiado também precisa manter o uso declarado por um prazo mínimo: três anos para projetos de comércio ativo e dez anos para intervenções globais. Nas palavras da própria prefeitura, o objetivo é estimular "a ocupação permanente da região", evitando "a rotatividade associada a locações de curta duração". No papel, portanto, o dinheiro do contribuinte não pode financiar a reforma de um apartamento que depois vire Airbnb.

A ressalva está em outra parte do mesmo pacote. Entre os incentivos construtivos, a hotelaria aparece como uso estratégico privilegiado: em toda a região central, empreendimentos de Habitação de Interesse Social e de hotelaria podem edificar até duas vezes a área do terreno, e o setor histórico ganha estímulos extras para "hotelaria boutique". Os incentivos fiscais de IPTU também contemplam expressamente "a implantação de empreendimentos hoteleiros". Ou seja: a cidade não está abrindo mão de receber hóspedes — está tentando canalizá-los para o formato hoteleiro formal, e não para o apartamento residencial alugado por aplicativo.

Na prática, a fronteira entre os dois mundos é nebulosa. Boa parte da oferta de temporada do Centro são justamente studios e apartamentos de um e dois dormitórios operados como flats e serviced apartments — um modelo que transita entre o "hoteleiro" incentivado e o "residencial de curta duração" vedado. Como a prefeitura pretende fiscalizar essa distinção ao longo dos dez anos de compromisso de uso é uma das perguntas em aberto do programa.

Tabela

Onde o Airbnb se concentra — e o perfil de renda do bairro

Oferta de temporada cruzada com renda e classe socioeconômica do Censo 2022 (IBGE)

Bairro % da oferta Imóveis (estim.) Renda média/mês Classe (IBGE)
Centro36,1%~2.120R$ 6.596médio
Água Verde9,8%~580R$ 10.407médio-alto
Bigorrilho6,6%~390R$ 10.692médio-alto
Batel6,3%~370R$ 14.757alto
Cristo Rei4,8%~280R$ 8.959médio-alto
Rebouças4,3%~250R$ 6.518médio
Vila Izabel3,8%~220R$ 8.305médio

Renda média mensal do responsável pelo domicílio (Censo 2022, IBGE). Estimativas de imóveis aplicam a participação observada na amostra (396 anúncios geolocalizados) ao total de 5.875 anúncios ativos em maio/2026 — ordem de grandeza, não contagem exata. Análise: Plural.

Uma regulação que ainda não chegou

O debate não se esgota nos decretos. A Câmara Municipal de Curitiba analisa um projeto de lei do vereador Tico Kuzma (PSD) que pretende regular a locação por temporada em imóveis residenciais — com ou sem plataformas como o Airbnb —, prevendo cadastro obrigatório do responsável, indicação do endereço e da inscrição de IPTU e limite de dias de exploração por ano.

A proposta se diz "organizacional, não proibitiva". Enquanto não avança, a vedação do programa de revitalização convive com um mercado de temporada que, fora do perímetro subsidiado, segue sem regras específicas. Mas ela faz algo essencial: define na lei o que configura locação de curta duração como "a cessão onerosa, total ou parcial, de imóvel ou unidade residencial, por período não superior a 120 (cento e vinte) dias consecutivos, com ou sem oferta de serviços complementares, mediante cobrança de diária ou pacote de diárias". Isso é fundamental para a fiscalização.

A proposta, porém, está parada nas comissões da Câmara desde janeiro de 2026.

Por que isso importa

A concentração revelada pelos dados dá escala ao desafio. Qualquer política sobre moradia ou sobre aluguel de temporada em Curitiba terá efeito praticamente restrito a meia dúzia de bairros — e o Centro é o epicentro de ambas as disputas. É ali que o poder público quer repovoar com morador fixo e, ao mesmo tempo, é ali que cada apartamento já rende mais como hospedagem de passagem do que como aluguel residencial de longo prazo.

O programa Curitiba de Volta ao Centro aposta que subsídio público somado a uma restrição de uso pode inverter essa equação. Os números mostram o tamanho da corrente contra a qual ele rema: mais de 2 mil imóveis, num só bairro, já fizeram a escolha oposta.

Metodologia e checagem. Os dados de oferta de temporada vêm de uma base de mercado de aluguel por temporada de Curitiba, com 5.875 imóveis ativos registrados em maio de 2026 da plataforma Valorcwb.app. A distribuição por bairro foi calculada a partir de uma amostra de 500 anúncios, dos quais 396 tinham bairro identificado; os 104 sem geolocalização foram excluídos do cálculo de participação.

As estimativas de número de imóveis por bairro aplicam a participação observada na amostra ao total de anúncios ativos e devem ser lidas como ordem de grandeza, não contagem exata.

Os dados socioeconômicos por bairro são do Censo Demográfico 2022 do IBGE (renda média mensal do responsável pelo domicílio, população e densidade). As regras do programa Curitiba de Volta ao Centro estão definidas na Lei Complementar 150/2025 e dos Decretos 418 a 422/2026.

Rosiane Correia de Freitas

Rosiane Correia de Freitas

Jornalista, mestre em educação e fundadora do Plural

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