Entre queijos premiados na França, aguardente feita de goiaba e risotos criados a partir de tomates que seriam descartados, o 5º Encontro dos Produtos Diferenciados Agro do Norte Pioneiro do Paraná revelou nesta quinta-feira (21), em Jacarezinho, mais do que sabores especiais. Mostrou histórias de famílias que resistiram às dificuldades e reinventaram a própria forma de sobreviver no campo.
Em comum, os três produtores entrevistados pelo Plural carregam trajetórias marcadas por perdas, dúvidas e recomeços. E todos encontraram na agroindustrialização artesanal uma alternativa para agregar valor ao que produzem.
A agricultora Talita Maria Pereira, de Ibaiti, começou quase por acaso. Na pequena propriedade de dois alqueires, certificada como orgânica, ela via produtos bons perderem valor ou sequer compensarem a colheita. “Às vezes o tomate estava R$ 20 a caixa e não compensava nem pagar o funcionário para colher”, lembra.
Foi então que surgiu a ideia de desidratar os tomates. No Dia dos Namorados, Talita pediu ao marido uma desidratadora de presente. Os primeiros testes deram errado. “Joguei tudo fora porque queimou”, recorda. Mas ela insistiu. Hoje, o tomate desidratado virou um dos ingredientes dos risotos artesanais que vende por cerca de R$ 30, em porções para duas pessoas. Todos os ingredientes são orgânicos, com exceção do arroz arbóreo, ainda comprado de produtores convencionais do Rio Grande do Sul. Talita negocia agora com uma empresa gaúcha que cultiva arroz orgânico por encomenda para conseguir, enfim, tornar o produto 100% orgânico.
Atualmente, a empreendedora produz entre 400 e 500 unidades por mês. Já envia produtos para Londrina e Curitiba por transportadora e começa a estruturar um espaço para vender produtos de outras agroindústrias. “Eu ainda não consigo sobreviver só disso, mas estou crescendo e a ideia é viver disso.” Além dos risotos, ela também produz páprica orgânica.
Aguardente de goiaba
De Carlópolis, cidade conhecida como capital nacional da goiaba, Agostinho João Longo transformou a tradição familiar em uma aguardente artesanal feita da fruta. A ligação com a produção rural vem da infância. Filho de italiano, cresceu vendo o pai produzir vinho e trabalhar com fermentação.
Da inspiração do pai veio a ideia de desenvolver uma aguardente de goiaba. A família cultiva a fruta desde 1990. A produção da aguardente começou há oito anos e hoje sustenta boa parte da renda da propriedade.
Agostinho faz questão de explicar a diferença. “Cachaça é feita do açúcar da cana. Aguardente é feita do açúcar da fruta.”
A produção é pequena e totalmente artesanal. Ele e a esposa cuidam de tudo praticamente sozinhos. São cerca de 100 litros por semana, produzidos a partir de um processo que exige muita fruta: aproximadamente 60 quilos de goiaba para gerar apenas cinco litros da bebida. Quando a produção própria não dá conta, ele compra frutas da cooperativa de Carlópolis para manter a fabricação durante o ano inteiro.
Queijo premiado na França
Já em Santana do Itararé, o produtor Leomar Melo Martins viu a vida mudar completamente depois de uma crise financeira em 2017. Até então, trabalhava para uma multinacional do leite. Após dificuldades econômicas, a família precisou vender quase tudo. “Nós ficamos sem chão. Costumo dizer que desligamos sem chão e tivemos que aprender a voar.”

O queijo surgiu quase como uma tentativa de sobrevivência. No começo, eram apenas três peças por dia produzidas artesanalmente por ele e a esposa. Mesmo assim, em 2018, conquistaram o segundo melhor queijo do Paraná.
A grande virada veio em 2021, quando um queijo criado por Leomar com café do Norte Pioneiro conquistou medalha de prata na França. “Eu não tinha expectativa nenhuma. Mandamos para conhecer.” A ideia surgiu ao perceber que concursos internacionais valorizavam produtos inovadores. “Vi queijo com formiga da Austrália, queijo brie… pensei: por que não fazer um queijo com café?”
Deu certo. Depois vieram novas premiações, incluindo medalhas consecutivas na França em 2021, 2023 e 2025. Hoje, a pequena agroindústria familiar acumula 27 medalhas entre concursos nacionais e internacionais.
Mesmo com todo o reconhecimento, a produção continua pequena e artesanal. Leomar, a esposa e o filho trabalham juntos processando cerca de 300 litros de leite por dia, produzidos na própria propriedade. “Hoje vivemos exclusivamente do queijo.”
Cerca de 50 produtores participaram do encontro de Jacarezinho.
A força da agricultura familiar
O Norte Pioneiro do Paraná é uma das regiões do Estado onde a agricultura familiar é mais intensa. E a presença crescente de agroindústrias familiares tem ajudado a dinamizar a economia dos 46 municípios da região.
Pelo menos três produtos locais possuem certificação de Indicação Geográfica (IG) reconhecida pelo Instituto Nacional da Propriedade Industrial (INPI): o Café do Norte Pioneiro, a Goiaba de Carlópolis e o Morango do Norte Pioneiro.
“É fundamental que o pequeno produtor consiga agregar valor ao seu produto e, assim, conquistar cada vez mais mercado. A transformação econômica local é consequência de uma série de processos, parcerias e apoios dos diferentes atores envolvidos”, afirma Odemir Capello, consultor do Sebrae/PR.



Feirantes expõem produtos que valorizam produção local. Fotos: Foto: Nelson Bortolin/Plural.
Ele ressalta que, embora a comunicação com parte dos consumidores ainda seja um desafio, existe um público crescente interessado em produtos com identidade territorial e história.
“Existe um público que valoriza a questão territorial, a história do local e de quem produz. Então, existe ainda um mercado a ser explorado e que também é promissor e mais uma opção de valor agregado para o produtor do Norte Pioneiro.”
