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No Tatuquara, morte de bebê leva população a exigir mais creches públicas

Criança de três meses morreu em creche improvisada depois que família não encontrou vaga em CMEIs

No Tatuquara, morte de bebê leva população a exigir mais creches públicas
Protesto no Tatuquara após morte de Gael. Foto: Pedro Carrano
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Desde o começo da semana, o bairro Tatuquara está ferido. Principalmente no entorno da Vila União, ocupação onde vivem 280 famílias, e onde o casal Izabella e Yuri perdeu o filho de pouco mais de três meses, Gael.

Gael faleceu numa espécie de creche irregular, perto da ocupação, que atendia no mesmo momento a vinte crianças, na casa do casal Maria Eliza Fernandes Naindorf Peralta e Aílson Peralta Centurião. Os proprietários da creche foram detidos e soltos no dia seguinte.

Foto: Pedro Carrano

Na noite de 21 de maio (quarta), ocorreu o segundo ato de protesto “Justiça por Gael”, convocado pelos amigos e familiares do casal, ao lado de movimentos sociais parceiros. A caminhada pelo bairro até a Regional Tatuquara, com faixas e bexigas brancas, foi marcada por emoção, pelo questionamento sobre ausência de políticas públicas e, também, sobre o efetivo policial desmedido presente durante o protesto.

“Se tem tantos imóveis vazios em Curitiba, por que a prefeitura não usa para fazer os equipamentos que o povo precisa?”, questionou Sirlei Ruviaro, moradora da Vila União, presente no ato.

Tragédia

A situação trágica resgata o debate feito em Curitiba por movimentos populares e sindicatos, desde as eleições de 2024, sobre o déficit de vagas em CMEIs. A demanda na regional Tatuquara, em particular, continua alta, apesar de iniciativas como a inauguração do Cmei Sueli Seixas, em maio de 2024, e a revitalização do CMEI Vó Anna.

Os moradores da Vila União relatam dificuldades no acesso ao sistema online de cadastro, bem como têm dificuldades na apresentação de documentos, acesso à internet, além de custos com transporte quando as vagas são oferecidas em unidades distantes.

Uma questão de sobrevivência

Pais e mães precisam se manter no mercado de trabalho - uma questão de sobrevivência. A mãe de Gael, Izabella, havia inscrito o filho na rede municipal desde março, em busca de vaga, e teria recorrido à creche improvisada pelas referências que ouviu no bairro.

A situação fez com que o protesto fosse marcado pelo pedido por mais creches públicas.

“A ausência e o espaço deixado pelas políticas públicas, para atender as demandas das mulheres, dos territórios, das diversidades, com a compreensão das diferenças de cada território, gera espaço para vulnerabilidade, sobretudo a de mulheres, crianças e idosos”, afirma Edicleia Farias, da coordenação do Sindicato dos Servidores Públicos Municipais (Sismmuc).

Sem vagas

Em Curitiba, o déficit de vagas em creches públicas é problema conhecido. Apenas em 2025 a fila é superior a 7,3 mil, de acordo com o Sismuc. Já o bairro do Tatuquara, onde ocorreu o óbito do bebê, tinha 822 crianças sem vagas.

Por outro lado, de acordo com dados da Secretaria Municipal de Educação, cerca de 3.400 crianças estão na fila de espera por vagas em CMEIs, com maior demanda para o Berçário II, com 1.604 solicitações.

Parlamentares de esquerda, movimentos populares e, sobretudo, o sindicato municipal, foram desde o começo de 2025 críticos à proposta da prefeitura do programa "vale-creche", que oferece vouchers para famílias com renda de até três salários mínimos, para que matriculem seus filhos em instituições privadas de ensino infantil. A prefeitura destinou R$ 49,7 milhões para o programa.

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“Quando o prefeito anunciou o vale-creche, a fila de famílias aguardando uma vaga era de mais de 10 mil. Disseram que o vale resolveria o problema, mas depois que ele foi implantado muitas famílias continuam aguardando creche. Estima-se que a fila esteja em 7 mil famílias — isso não é solução, é maquiagem”, afirma a vereadora Giorgia Prates (Mandata Preta - PT) para a reportagem.

O Sismuc tem apontado ainda que, desde 2017, Curitiba abriu 31 novos CMEIs, sendo apenas um construído desde a planta, enquanto os demais foram adaptados de espaços privados.

Já a vereadora Vanda de Assis (PT), apontou, durante fala na tribuna da Câmara Municipal e nas suas redes sociais, que a “tragédia escancara o abandono da educação infantil em Curitiba. Milhares de crianças seguem fora da creche — e famílias, sem alternativa, recorrem a espaços sem estrutura, sem fiscalização e sem segurança”. Assim como Giorgia, Vanda participou do ato das famílias e tem pautado junto ao Ministério Público realocação imediata das crianças da creche onde ocorreu a morte, investimentos em novos equipamentos públicos, bem como um plano imediato para resolver o déficit de vagas, com prioridade para a construção de novas unidades.

Visão da prefeitura

Segundo a Secretaria Municipal de Educação a criança concorria a uma vaga desde o dia 13 de maio, quando o bebê completou quatro meses. O cadastro foi feito pela mãe em março deste ano.

“A Secretaria Municipal da Educação esclarece que as crianças são contempladas respeitando critérios de prioridade, como casos de vulnerabilidade social. Os chamamentos são realizados periodicamente, ao longo do ano, conforme a disponibilidade de vagas nos Centros Municipais de Educação Infantil (CMEIs) ou nos Centros de Educação Infantil (CEIs) contratados”, afirmou, em nota, a prefeitura.

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